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“Viver é uma Arte"

Atriz Beth Goulart conversa com o MaisPB sobre livro dedicado à mãe Nicette Bruno

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publicado em 23/07/2022 às 12h00
atualizado em 23/07/2022 às 14h45

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

A atriz Beth Goulart lançou o livro “Viver é uma Arte – transformando a dor em palavras”. A obra é uma homenagem à mãe Nicette Bruno, que morreu de Covid 19, durante a pandemia. O livro fala sobre a superação de perdas e traz ainda memórias familiares. Mãe e filha tinham planejado escrever o projeto juntas a partir da morte de Paulo Goulart, em 2014. O selo é da Editora Letramento.

Em 20 de dezembro de 2020, a Covid-19 fazia mais uma vítima, Nicette Xavier Miessa, conhecida em todo Brasil, como Nicette Bruno, sucumbiu à doença após um período internada em hospital do Rio de Janeiro, onde lutou contra o vírus que matou mais de 600 mil pessoas no Brasil. Agora, Beth Goulart decidiu homenagear a mãe com o que ela mais amava: a arte.

Nos planos de Nicette e Beth, elas contariam um pouco de suas histórias, de suas filosofias e percepções sobre a vida, os momentos inesquecíveis de cumplicidade entre elas. Beth, a narradora, e Nicette, tecendo comentários. Em páginas onde começaram contando o processo para superar a morte do ator Paulo Goulart, morto em 2014.

A publicação “Viver é Uma Arte: Transformando a Dor em Palavras” é uma compilação de percepções sobre a vida e histórias com sua família. O lançamento nacional aconteceu na livraria Travessa, no Rio de Janeiro.

O livro tem prefácio da escritora Nélida Piñno e posfácio da atriz Fernanda Montenegro.

A atriz Beth Goulart conversou com o MaisPB e fala da história do livro, da saudades dos pais e lembra do carinho do público paraibano quando esteve se apresentando com o espetáculo “Simplesmente eu, Clarice Lispector“ em João Pessoa e Campina Grande. Com muita alegria, foi um sucesso. Terra linda, fui recebida com muito amor e carinho”.

MaisPB – Seu livro “Viver é uma Arte: transformando a dor em palavras” já estava planejado que seria escrito a quatro mãos, com sua mãe, Nicette Bruno?

Beth Goulart – Sim, iriamos falar juntas sobre o teor de nossas palestras, eu escreveria a voz principal e ela faria os comentários, mas logo no início do processo ela pegou a Covid e partiu.

MaisPB – O livro é fininho a gente lê rápido, mas é imenso com todo aprendizado de uma filha com a mãe, duas atrizes uma ensinando a outra. Estou certo?

Beth Goulart – Exatamente. Existem livros que são profundos em conteúdo, nem sempre se mede um livro pelo tamanho, isso é muito relativo. É um livro que pode ser lido várias vezes, ou pequenos trechos quando der vontade.

MaisPB – Sua mãe tinha uma alegria estampada, mas parece que você é um pouco fechada e deverá se abrir mais agora enveredando pela literatura?

Beth Goulart – Somos parecidas e diferentes ao mesmo tempo, essa é a beleza da vida, sermos diferentes e complementares muitas vezes, mas acho que com o tempo estou cada vez mais parecida com ela. Engraçado, eu não me acho uma pessoa fechada, sou mais tímida, talvez, e gosto de preservar minha intimidade. A literatura é uma linguagem direta, de coração para coração, espero que minhas palavras tenham eco em muitos corações e possam fazer bem a eles.

MaisPB – Você relata que muita coisa veio das conversas com a atriz Fernanda Montenegro. Isso já é um avanço grande. Elas eram amigas, as famílias também?

Beth Goulart – Sim, nossas famílias sempre se visitaram, se acompanharam, torcemos muito uns pelos outros. Com a doença de minha mãe fiquei mais próxima da Fernanda, já que era eu quem transmitia as informações do estado de saúde dela e isso nos uniu bastante. Fernanda acompanhou todo o processo, o desfecho e o que veio após. Mesmo longe pelo isolamento, estávamos bem perto uma da outra.

MaisPB – Você fez corte no livro ou tudo está aí?

Beth Goulart – Está tudo aí, não tive que cortar nada. Só faltou a parte de minha mãe, como no caso da análise dos personagens, faltaram os dela, ficaram só os meus. Fica bem claro no livro o antes e o depois da morte de minha mãe.

MaisPB – Seu pai é personagem no livro. E foi antes, como ela reagiu se eram almas gêmeas?

Beth Goulart – A morte de meu pai e sua superação eram justamente o primeiro tema que iriíamos abordar no livro, assim começava nossa narrativa, e também contávamos como foi meu início profissional ao lado de minha mãe. Foi só isso que ela pôde participar, pois partiu muito antes de completar todo o restante. Eles eram muito unidos, sua perda foi superada também através do Teatro. Fizemos uma peça juntas, quando adaptei o livro “Perdas e Ganhos” da Lya Luft e dirigi o espetáculo que era protagonizado por minha mãe. Falar sobre isso no palco ajudou muito minha mãe a superar a dor da perda, encontrando no palco a força para seguir adiante, recebendo do público todo amor e incentivo para continuar, iluminando nossas vidas com sua luz.

MaisPB – Você pensa em lançar esse livro em outras cidades, trazer para o Nordeste?

Beth Goulart – Sim, temos outros lançamentos em outros estados. Ainda está sendo definido com a editora.

MaisPB – Como é essa de que quando a situação está muito difícil é “preciso mudar os óculos” que você menciona na página 110?

Beth Goulart – É uma forma carinhosa de dizer, olhe a situação por outro ângulo, podemos ter outros olhares para a mesma situação. Tem gente que só vê o lado ruim das coisas, comece a ver o lado bom. É uma maneira delicada de dizer, olhe por outro lado, coloque-se no lugar do outro, nem sempre aquilo que você acha ruim é ruim de verdade, você pode não estar percebendo outras possibilidades para a situação, então, mude o óculos, ou veja melhor o que está acontecendo.

MaisPB – Sua mãe partiu em consequência da Covid. Poderia ainda estar entre nós. Vamos falar desse assunto? Como foram esses dias sombrios na família?

Beth Goulart – Muito difíceis. É muito solitário para o paciente e muito angustiante para a família. Nos sentimos muito impotentes diante de uma doença contagiosa que nos separa de quem amamos, temos que confiar nos médicos, na ciência e em Deus, acima de tudo. Orar e mandar energias positivas para que eles aguentem passar por momentos de angústia e sofrimento. É muito ruim ver quem você ama sofrer, em muitos momentos preferia que fosse comigo para que ela não tivesse que passar por isso, mas nessa hora não é nossa vontade que conta, só Deus para determinar os acontecimentos. Não é nada fácil passar por isso. É quando nos damos conta de nossa finitude, de nossa fragilidade e impermanência.

MaisPB – Ser otimista é uma escolha, como está escrito no livro?

Beth Goulart – Eu acredito que sim. Você sempre pode escolher como encarar a vida, de uma maneira positiva, enxergando tudo o que há de bom ou de uma maneira negativa, só enxergando os problemas e dificuldades. Ser otimista não quer dizer não ver as dificuldades, mas sim ver sempre o que há de positivo em todas as situações, pois sempre se tira algum aprendizado mesmo nas situações mais difíceis. Isso já ajuda muito a encontrar soluções, que às vezes estão à nossa frente e não conseguimos ver, também ajuda a ter mais ânimo para resolver os problemas. Numa doença, por exemplo, se você é otimista estará do lado da saúde, já se for pessimista estará ajudando a doença a vencer essa batalha.

MaisPB – Essa semana entrevistei Nélida Piñon, (que assina o prefácio do seu livro) e falamos sobre a maldade, a crueldade das pessoas, principalmente no Brasil com um número gigante de feminicídio e estupros de crianças. Ela me disse que a humanidade sempre foi assim. Poderia dar sua opinião sobre isso?

Beth Goulart – Temos relatos históricos de muita maldade, crueldade e perversidade na humanidade. O homem não aprendeu a ser mau agora, isso vem de muito tempo. Mas, com o avanço do conhecimento, pode-se acreditar numa evolução de comportamento, mesmo que de uma maneira frágil e débil a humanidade vai melhorando. Há alguns anos atrás o marido podia maltratar, bater, usar a sua mulher que ninguém se intrometia, ninguém metia a colher, era quase um direito do marido sobre a esposa, um objeto sexual e reprodutivo, sem vontade nem respeito. Hoje isso é intolerável, embora alguns homens ainda tratam suas mulheres como objeto e propriedade, pelo menos agora, não aceitamos mais isso. As próprias mulheres acordaram de sua letargia e começaram a usar sua própria voz, começaram a dizer Não. Hoje temos leis que nos protegem e reconhecem nossos direitos. Ainda estamos muito longe de uma sociedade justa e livre da violência, ao contrário vemos hoje a brutalidade ser contemplada com medalhas. Isso é revoltante. Mas confio no caminhar da humanidade em grande escala, não seremos nós a viver nesses tempos mais evoluídos, serão as gerações futuras. Nós estamos aqui preparando o caminho para elas. É preciso que o mal apareça para ser purificado.

MaisPB – “O sentido da vida é amor”, a frase é de sua mãe. Você acrescentaria mais alguma coisa?

Beth Goulart – O amor é o sentimento que pode curar as feridas da maldade, ele cura porque acolhe, dá sempre a chance do recomeço, uma nova oportunidade de ser melhor. O amor é o grande aprendizado da existência, é a salvação da humanidade pelo próprio homem. Nelson Mandela dizia que: “ninguém nasce odiando, as pessoas aprendem a odiar. Então elas também podem aprender a amar”. É isso, temos que aprender a amar melhor, para vivermos melhor, amar a si mesmo, para amar melhor o nosso próximo. Amar a Deus para aceitar nosso tamanho diante do Universo, amar a Natureza porque também fazemos parte dela. Somos um corpo único interligado por nossas emoções, pensamentos, ações e sentimentos . UBUNTU é um conceito Africano que diz que nada acontece isoladamente, tudo o que fazemos tem consequências noutras pessoas, comunidades e no mudo em geral: eu sou porque nós somos!

MaisPB – Você já esteve nos palcos da Paraíba, né ?

Beth Goulart – Sim, várias vezes. Já fiz o espetáculo “Simplesmente eu, Clarice Lispector“ em João Pessoa e Campina Grande com muita alegria, foi um sucesso. Terra linda, fui recebida com muito amor e carinho.

MaisPB – Quem era Nicette Bruno, quem é Beth Goulart?

Beth Goulart – Nicette Bruno é um ser de luz que veio para este mundo ensinar o valor do amor, foi uma artista única e plena em sua profissão de atriz no Teatro, Televisão e Cinema. Foi junto com seu marido, Paulo Goulart, um símbolo de casal. Sua história se confunde com a história do Teatro Brasileiro, onde construíram juntos uma família de artistas que seguiram seus ensinamentos em todos os sentidos. Sou em todos os sentidos filha de Nicette e Paulo, seguidora de seus ensinamentos. Sou atriz, dramaturga, diretora, escritora, mãe e avó. Acredito na força do bem e no amor!

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