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Clara Velloso Borges é escritora, professora de literatura e mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: [email protected]

 

Barulho na vizinhança

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publicado em 15/07/2022 às 07h00
atualizado em 14/07/2022 às 15h30

Morar em prédio até pode ser confortável e seguro, mas exige uma conformidade com o caráter aleatório da vizinhança. Talvez o vizinho da porta ao lado seja pai de um bebê que nunca dorme à noite, talvez o vizinho de baixo seja viciado em reformar o apartamento, talvez a vizinha de cima faça aulas de sapateado em casa. Diante dessas inconveniências, é possível até ter inveja dos australopitecos, que refugiados em suas cavernas, (foto) jamais teriam um vizinho na porta, pedindo um graveto emprestado para fazer fogo.

Se qualquer ruído involuntário pode incomodar, imagine quem mora ao lado de um baterista. De certo modo, é meu lugar de fala: em algum momento, a vizinha baterista fui eu. Obviamente, sempre com a preocupação de não perturbar, batucando em instrumentos eletrônicos, cujo som saía apenas no meu fone de ouvido.

Não é essa a sorte dos vizinhos de outros bateristas. Quando Fernando Sabino viajou para os Estados Unidos, conheceu um brasileiro, com quem conversou sobre música. O rapaz contou ao escritor que tinha um vizinho cujas aptidões na bateria eram tão infames que motivaram a sua mudança de país. Sabino, então, perguntou onde o rapaz morava no Brasil. O endereço? O mesmo de Sabino, que depois do quinto whisky, dizia que tocava qualquer instrumento.

A bateria de Sabino está em exposição no Acervo de Escritores Mineiros. O espaço de pesquisa e de exposição permanente pertence à Universidade Federal de Minas Gerais, abrigando as bibliotecas de escritores importantes para a literatura brasileira. Além da bateria e dos livros de Sabino, o acervo abriga também o fardão da Academia Brasileira de Letras pertencente ao imortal Cyro dos Anjos, desenhos originais de Portinari pertencentes à professora e escritora Henriqueta Lisboa e a roupinha de batizado que um Murilo Rubião criança usou. Tais objetos estão dispostos em reproduções dos escritórios dos literatos, que ficam uma ao lado da outra. É uma vizinhança dos sonhos.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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