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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: [email protected]

Pela porta entreaberta

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publicado em 24/05/2022 às 07h00
atualizado em 23/05/2022 às 15h33
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A porta entreaberta, com seu nome nela, deixa passar muitas histórias. Poderia falar de superação que é uma nova palavra para quem remove pedras, entorta caminhos, encontra desvios para se desviar.

A porta quase aberta lembra a tua insuperável ficção por um tempo de liberdade, quando libertar-se era a única possibilidade, muito embora, inviável para a maioria dos viventes.

Na porta, vejo escrita a espera. De você crescer, de uma oportunidade, de dar o primeiro passo num caminho ainda em mato. Caminho a ser aberto, sem nada se saber sobre o que poderia   levantar aos seus pés.

Vejo, também, suas dúvidas, que, segundo imagino, continuam a te fustigar em seus momentos.

Vejo, pela porta quase aberta, estrelas de uma noite infinda, de dias de sol árido, que a natureza nos dava; mas sem brilho em seu olhar.

Dúvidas. Culpa. Uma grande censura, grande e tirano, procurando como lhe maltratar.

Via a doença em sua fotografia demudada; muito embora, no canto da boca, houvesse um leve sorriso amarelo.

Livros pareciam cair. Visitados pelo translúcido de uma chama de candeeiro. Fumaça em seu nariz, fazendo fuligem no pulmão. E formações finas de fibroses que nunca mais sairiam.

Ao perceber o abrir da porta, li a sua mão, como uma cigana o faria por alguns trocados.  Passado e presente. O futuro pareceu-me confuso, entre revelações, redes e burburinhos. Caminhadas. Ilhas e milhas.

Mas nada como uma madrugada sertaneja, numa viagem rápida, ao lado de quem lhe protegia, que, ao mesmo tempo, era seu implacável vigia. Ainda bem: tinha lua viajando junto. O ressoar de um conjunto que ouvira, em notas belas, e a nova dança que muito dizia.

Aliás, tudo era uma dança. Sua profissão. Nada além existia, senão, o medo do não existir, do nada vir, por vezes, anulados pela sua fé, pelo olhar fixo no horizonte. Sandália gasta e o ajuste do pé na estrada.

Tudo vi, pela porta entreaberta.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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