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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

A grande perda

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publicado em 23/05/2022 às 11h00
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A perda em todos os aspectos nos causa uma sensação desagradável e de desconforto, porque traz o sentimento de deixar de possuir ou de ter algo que era nosso e que já não nos pertence. Cada um acha que a sua perda é maior que a dos outros.

Existe, quando os relacionamentos terminam, no divórcio ou separações, perda de emprego, de amizade. A principal é a da morte de um parente ou de alguém que amamos que de repente nos vemos privados de sua convivência. Há um sumiço, ausência e desaparecimento, deixando-nos atônitos, sem acreditar na realidade que o continuar da vida nos impõe. Acostuma-se com a falta e o tempo faz-nos esquecê-la. Não há como retornar nem a reaver. É irreversível. Resta seguir em frente.

Estive a conversar com uma senhora na espera da aula de musculação. Aparentemente mostrava-se angustiada, muito triste e parecia-me que procurava alguém para um desabafo do que estava em seu íntimo a incomodá-la. Foi quando perguntou para mim; “Você pode me ouvir? Eu disse, pois não, estamos com tempo. Esperava sua filha que estava na aula. Falou-me que estava passando por um momento difícil, sofrendo.

Encontrava-se angustiada pois fazia apenas dois meses que tinha perdido a outra filha que mais amava e ainda não tinha conseguido superar-se. A força que encontrava para viver eram as outras duas, inclusive a que estava esperando. No meio da conversa, com os olhos em lágrimas começou a contar o que dera causa à morte. Descreveu o perfil da filha, era linda. Muito vaidosa, chegou a ser modelo. Desfilava para grifes, mas o seu desejo mesmo era cursar a medicina. Submeteu-se, com o namorado, ao vestibular, sendo classificados para o Estado do Pará. Lilian tinha um espirito muito aventureiro, gostava de festas e de enfrentar desafios.

Os dois jovens, que nunca tinham morado sós, alugaram um pequeno apartamento em Belém que os atendia muito bem. Nas férias vieram visitar os pais por trinta dias. Nesse período, mostrou-se muito apegada a família e tudo que realizava estava sempre ao lado dos parentes, compartilhando todas as coisas.  De volta para Belém, um dia foram dormir, fecharam todas as portas, mas esqueceram o gás aberto. Ao amanhecer, Lilian foi a primeira a levantar e se dirigir à cozinha. Quando utilizou o fogão foi atingida por labaredas e sofreu queimaduras de primeiro e segundo graus. O namorado foi o primeiro a socorrê-la e levá-la para o hospital. Diante de seu estado foi direto para a UTI. Sua mãe chegou a ir dar-lhe assistência, mas nada pôde fazer. A situação era difícil, Lilian passou quinze dias hospitalizada, lutando pela vida, mas não resistiu, vindo a óbito.

No relato, começou a entrar na história de sua vida para dizer do seu sofrimento. Foi uma menina nascida de família humilde e que sofreu muito durante à infância. Criada no interior de Tocantins, de pais muito pobres, que, sem condições de criar os filhos, doou-os a um tio. Disse-me: “nunca esqueci aquela cena de meu pai entregando eu e meus irmãos; “Olhe, tome aí esses meninos porque eu não tenho nenhuma condição de criá-los”. Pensei que já tinha passado por tudo: humilhações, constrangimentos, ter sido criada longe deles, abandonada, vivido na pobreza, passado necessidades, batalhando para ter as coisas e julguei que isso fosse sofrimento, mas sofrimento e dor é o que vivo hoje, com a perda de minha filha”. Nesse momento, caiu aos prantos, inconsolável, o que me comoveu. Não pude falar. Abracei-a em silêncio para consolá-la. As palavras faltaram e mesmo se ditas seriam insuficientes. O que dizer para uma mãe afligida e atormentada pela perda da filha, diante da expressão de dor?

Ainda contou que seu esposo se aposentou e acalentava um sonho de poder viajar e visitar as filhas que residiam em outros estados. Com sacrifício comprou um ônibus e tinha a intenção de transformá-lo em um trailer. Já tinha iniciado a compra de materiais para ir montando devagar, a fim de prepará-lo para viajar. Diz Alda: “Depois do ocorrido vejo meu marido desesperado. Olho o ônibus que se encontra em frente à minha casa, largado. Como um sonho desfeito. Ele atua e domina a área técnica de informática, inclusive fabrica alguns equipamentos. Sua aflição é tanta que procura através desses aparelhos cibernéticos comunicar-se com a filha falecida. Parece uma paranoia, um transtorno da personalidade influenciada pelo medo, ansiedade, como quisesse recuperar o tempo que teve e não viveu com ela.  Querendo com isso dar ou encontrar uma resposta a tudo que ocorreu”.

A morte tem o poder de, além de acabar com a vida, interromper a história. O que faltou no relacionamento, o que poderia ser dito e não foi, quanta coisa deixou de ser feita de importância e a outras menores foram dadas prioridades. Percebi esta angustia que chama a atenção em Alda. Não adianta lamentar, nada trará de volta ao passado. Fica a lição para que não poupemos os gestos que demonstrem afeto e amor pelo outro, porque para o amanhã não há previsões.  Hoje é essa a situação em que a família se encontra.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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