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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

Os meus verdes anos de bicicleta

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publicado em 28/01/2022 às 08h04
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Acho que foi em 1980. Aos dezenove anos, para estudar, havia deixado Uiraúna em 1979. Claro que seria aprovado no concurso de recenseador do IBGE!

Foi o meu primeiro concurso. Treinamento pesado para quem só conhecia bola de meia, ninhos de passarinhos, as piabas do Riacho Pé de Serra, banho de chuva na biqueira, as novenas de maio na festa de Areias, os manzapes de milho.

Eu não era acostumado com os códigos da cidade grande. A cidade não era tão grande, mas, para mim, era uma metrópole chamada Sousa, que, de tão linda, tinha e mantém o apelido de cidade sorriso.

Os aprovados com bons contatos foram escalados para trabalhar na cidade. Os estrangeiros, como eu, que precisavam desesperadamente daquele emprego, foram lotados para recensearem na zona rural.

Eu, que nascera e me criara solto no Sítio Saco Senhorinha, espaço grandão, largo e feliz, sempre me perdi na cidade. Senso de espacialidade zero que já me levou, aos 27 anos, a me perder na praça de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. No Shopping Manaíra, onde lecionei em uma faculdade que ficava em suas dependências, sempre entrei por uma porta e saí por outra. E dando graças a Deus, por ter encontrado a saída…

Mas, o fato é que me tornei recenseador por uma semana, escalado para trabalhar no Distrito de São Gonçalo. Não dava para ir a pé. Como iria trabalhar? Minha irmã Zulmira tirou o restinho do dinheiro da poupança de papai, oriundo da venda de uma nesga de terra estéril para garantia da velhice. A necessidade já tinha comido tudo, e o restante se acabou em uma bicicleta caindo aos pedaços.

A bicicleta só rodava na ida. Na volta, eu a carregava no espinhaço, chorando. Uma semana chegando, à minha casa, às vinte e três horas, perdendo aulas, a coisa mais importante para mim. Uma semana depois, estávamos todos perdidos. Sem dinheiro, sem emprego, mas com uma bicicleta que não rodava enfeiando a sala da frente. Em compensação, o meu sonho, sentado na cadeira dura do Colégio Polivalente, era só esperança.

@professorchicoleite

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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