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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertopoesia@gmail.com

Título é fundamental!

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publicado em 29/12/2021 às 07h03
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Título é qualquer coisa de fundamental!

Não me refiro a títulos honoríficos, acadêmicos, institucionais, eclesiásticos militares ou de natureza outra que acariciam e cristalizam a vaidade alheia. Refiro-me a títulos de livros, jornais, revistas, filmes, quadros, peças, espetáculos, enfim, de qualquer expressão, artística ou científica, que respeite a inteligência e a sensibilidade do leitor.

Sinal semântico indispensável, porta de entrada, provocação, desafio, chamada, o título, quando bom e criativo, já é meio caminho andado no que concerne ao jogo atrativo da leitura e às expectativas nascentes do receptor.

Seja nominal, verbal, atributivo, adverbial, interjeitivo, conjuntivo, prepositivo, pronominal ou fraseológico, não dá para passar sem título, na convivência mais doméstica com os limites geográficos e simbólicos das obras e monumentos que apreciamos.

Há os títulos absurdos, os escandalosos, os tímidos, os despachados, os inconvenientes, os estúpidos, os escrachados, os poéticos, os enigmáticos, os simplesmente anódinos, na sua fixa e irredutível palidez no meio ou no alto da página, ou os títulos que não dizem nada, e quando dizem, contrariam inesperadamente o teor e o conteúdo da obra a que pertencem.

Não importa. Até mesmo estes cumprem função retórica e radical na orografia espessa das manifestações da fantasia e do pensamento humanos, em sua dispersa e heterogênica alquimia.

Os fraseológicos, principalmente, chamam-me a atenção, e, não raro, mais me agradam. Veja, por exemplo, caro leitor, este, do nosso Políbio Alves: “Os cavaleiros barrocos guardam a cidade”.

Que belo! Que sugestivo! Que misterioso!

Sempre que lembro deste título, e quase sempre deste título me lembro, detenho-me sobre o verbo guardar, com todas as suas possíveis ressonâncias significativas.

O guardar aí me diz do vigiar, do preservar, do observar, do zelar, enfim, do cuidar, cuidar ecológica e filosoficamente, de uma suposta cidade antiga e desurbanizada.

A expressão “cavaleiros barrocos”, por sua vez, parece contemplar a fauna maldita e marginal dos poetas e artistas que transitam pelas “veias e artérias” de uma, quem sabe, Philipeia de Nossa Senhora das Neves fantasmática e imaginária.

Gosto tanto de títulos que escrevi um poema, intitulado “Sumário”, cujos versos nada mais são do que títulos inventados para livros hipotéticos ou reais. Ei-lo:

Do catálogo de lembranças inviáveis.

Da réstia e da luz.

Do arvoredo e seus idiomas malditos.

Do duelo e do beijo.

Há um pingo de sangue em cada estrela.

A vertigem e o desamparo.

A nomenclatura do caos.

Da flora estúpida da noite.

Alguém me espera em Amsterdã. (foto)

Tudo é para sempre.

Escrever é lutar contra a morte.

De quase nada se faz um poema.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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