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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Mama África

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publicado em 30/11/2021 às 07h41
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Pensei que só voltaria a falar de pandemia para condenar os movimentos que se anunciam ensaiando carnaval. É absurdo imaginar que, depois do Carnaval de 2020, e de tudo o que se passou, em termos da Covid; logo que começamos a respirar um pouco livres dos pulmões colabados pela doença, e saímos de casa um pouco mais aliviados, se jogue tudo no lixo.

É a nova forma de negacionismo! A negação de que nada acabou. Não pensei que o pulsar de uma nova vida, em todos nós que nos salvamos da catástrofe, fosse novamente ameaçado por políticas, condutas, decisões que desconsiderem os mais vulneráveis, os mais expostos, os mais fragilizados.

Seja lá de quem for, venha de onde vier, cabe-nos repudiá-los. Negá-los. Enfrentá-los. Digo isso, mesmo que o mundo estivesse cor de rosa. Mas não está. Os anúncios de uma nova variante, batizada de ômicron pela OMS, tanto vem preocupando especialistas, como foi capaz de provocar apreensão e quedas nas Bolsas de Valores mundo afora. De fato, a variante apresenta um arsenal de mutações, o que aumenta sua capacidade de contágio.

A Anvisa já recomendou, em nota técnica, e o governo deve adotar, restrição de voos de seis países africanos:  Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia, Zimbábue e África do Sul. Mas, como sabemos, a variante já foi detectada em dez países dos 4 continentes. E em se tratando de uma nova peste, se alastrará por todos os cantos.

Então, por mais que tomemos outras doses, que tentemos nos isolar do restante da humanidade, não seremos invulneráveis à proteína Spike, aquela que facilita a entrada do vírus nas células. Em termos de contágio, somos um só povo, onde quer que habitemos no planeta terra.

Com tudo isso, precisamos mudar estratégias. Enquanto houver esconderijos para o vírus, não haverá paz mundial. E, no momento, os recantos de criação dele estão na África. Os países mais pobres, não chega a 3% da população vacinada. Na África, como um todo, chega a 7%, mas há países como Burundi e República do Congo, em que percentagem beira à zero, mais precisamente, 0,0025% e 0,42%

Não temos como correr. Todos os países terão que ajudar os mais pobres. A tão falada redução das desigualdades, terá que surgir nas mentes dos que dirigem as grandes e médias potências, para que, solidariamente, possam acudir as nações mais pobres, para que elas, involuntariamente, não sejam o epicentro de novas bombas virais que, dia após dia, nos fará despertar em meio a pesadelos.

Vamos nos isolar fisicamente. São medidas sanitárias necessárias. Lembremos que continuaremos convivendo com o vírus possivelmente. Explicando melhor: o fim da pandemia não significará a erradicação da doença. Porém, essa convivência, fora de condições pandêmicas, se dará em modos bem confortáveis. Os riscos serão muito mais baixos do que os que corríamos há meses.

O fôlego mais suave que tomamos nesse momento, não pode ficar sob ameaça.  Portanto, antes de gritarmos Aê! Aê! Aê, no próximo carnaval, que tal sair cantando Mama África. Sim, mais do que nunca, ela é nossa mãe. Salvando-a, estaremos nos salvando juntos. Mama África!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB