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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

O caos no país mais desigual do mundo

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publicado em 18/07/2021 às 08h03
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Há mais de 13 anos venho estudando os principais indicadores econômicos e sociais da África do Sul. Em outubro de 2007, eu criei o acrônimo RBCAI (iniciais em português de Rússia, Brasil, China, África do Sul e Índia) ao analisar o índice de desenvolvimento humano (IDH) do então Grupo dos Treze (G13), idealizado na época pelo então primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2006, para cúpula do Grupo dos Oito (G8), na Rússia, que não vigou, mas fortaleceu a participação dos líderes dos países membros do Grupo dos Vinte (G20) numa inédita cúpula em 2008, nos Estados Unidos.

A África do Sul é o vigésimo quinto maior país do mundo, com área territorial de mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados. Recentemente, pela TV e, sobretudo, pelas mídias digitais, podemos acompanhar as imagens chocantes dos distúrbios, motins e saques nos supermercados, armazéns, açougues e shopping centers, que já deixaram mais de 210 pessoas mortas e mais de 2.500 pessoas detidas durante as ondas de violência nas ruas de várias cidades sul-africanas.

Os protestos contra a prisão do ex-presidente sul-africano Jacob Zuma, por 15 meses de detenção, acusado por corrupção em seus nove anos de governo, entre 2009 e 2018, levaram os seus apoiadores as ruas para defender a liberdade de Zuma, com 79 anos, então, começaram a enfrentar os policiais, em seguida, carros e caminhões foram incendiados, cerca de 800 lojas saqueadas e centenas de caixas eletrônicos arrombados desde 9 de julho de 2021.

É possível apontar cinco causas para o caos na África do Sul: i) a grave crise econômica (recessão de 7% no PIB em 2020); ii) a alta taxa de desemprego (32,6% da PEA no primeiro trimestre de 2021); iii) a alta taxa de pobreza (55% da população); iv) a fome (14 milhões de pessoas famintas); v) a elevada desigualdade (os 10% mais ricos detêm 70% da renda nacional). Em 2019, o Banco Mundial classificou a África do Sul como o país mais desigual do planeta. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Coeficiente de Gini da África do Sul é de 63,0.

A África do Sul encontra-se na 114ª colocação no ranking mundial do desenvolvimento humano, com IDH de 0,709 no ano de 2019, de acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano 2020, do PNUD. A esperança de vida ao nascer é de 64,1 anos. A média de anos de estudo é de 10,2 anos. Os anos esperados de escolaridade são de 13,8 anos. E a renda nacional bruta (RNB) per capita é de US$ 12.129 dólares em termos de paridade do poder de compra (PPC).

A população total da África do Sul é de 59,6 milhões de habitantes, com mais de 2,2 milhões de casos e mais de 66 mil mortes por COVID-19 (JOHNS HOPKINS UNIVERSITY, 2021). Com a pandemia do novo coronavírus, a África do Sul lida agora com a terceira onda da COVID-19, além das medidas de lockdown. A África do Sul é o país mais atingido pela pandemia da COVID-19 no continente africano, com 54 países. Com certeza, o IDH alto sul-africano cairá no Relatório do Desenvolvimento Humano 2021, a ser divulgado com os dados de 2020 no final deste ano.

A República da África do Sul é um país membro da União Africana (UA), é o terceiro país mais rico do continente africano, atrás apenas da Nigéria (US$ 442,9 bilhões) e do Egito (US$ 361,8 bilhões). O Produto Interno Bruto (PIB) nominal da África do Sul é de US$ 282,5 bilhões em 2020, segundo o Banco Mundial. É um país emergente de renda média, com o PIB per capita de US$ 5.067 em 2020.

A economia sul-africana é alicerçada nos setores de serviços, indústria e extrativismo mineral. Todavia, os seus graves problemas socioeconômicos afetam os países vizinhos como Moçambique e Namíbia e não vizinhos como Angola e Marrocos. A África do Sul é um dos principais produtores e exportadores de ouro, diamantes, platina, carvão mineral, crómio e vinhos do planeta.

Desde dezembro de 1999, a África do Sul é um país membro do G20, grupo que detêm 60% da população mundial, 80% do PIB global e 75% do comércio internacional. Desde abril de 2011, a África do Sul faz parte dos cinco países emergentes do BRICS (Brazil, Russia, India, China and South Africa), grupo econômico que detêm 42% da população mundial, 21% do PIB global e 25% da área terrestre do planeta.

A moeda oficial da África do Sul é o rand. Desde 2020, o turismo sul-africano foi duramente afetado pela pandemia da COVID-19, provocando uma forte queda no fluxo turístico internacional para o safári fotográfico com os big five, o leão, o elefante, o búfalo, o rinoceronte e o leopardo, como também, para as belas praias, banhadas pelos Oceanos Atlântico e Índico. Foi na África do Sul que surgiu uma das variantes da COVID-19 que se espalharam rapidamente pelos cinco continentes.

Desde o fim do apartheid em 1994, a democracia vigora a quase três décadas, porém, a maioria da população sul-africana continua sofrendo com as péssimas condições de saneamento básico e com a desigualdade. De acordo com a Revista Forbes, entre os 18 bilionários no continente africano, em janeiro de 2021, cinco são homens sul-africanos, entre eles destaca-se, “o sul-africano Nicky Oppenheimer, que herdou uma participação na empresa de diamantes DeBeers e dirigiu a empresa até 2012” (FORBES, 2021), com um patrimônio líquido de US$ 8 bilhões.

O atual presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, do Congresso Nacional Africano (CNA), partido criado em 1940, convocou 25 mil soldados e enviou tanques do exército para manter a ordem pública e a paz no país com três capitais – Pretória (capital administrativa), Cidade do Cabo (capital legislativa) e Bloemfontein (capital judiciária) e 11 idiomas oficiais, sendo o inglês e o africâner, os dois mais falados. A cidade mais populosa e rica é Johanesburgo, onde está localizada a maior bolsa de valores do continente africano, a Bolsa de Valores de Johanesburgo.

Precisamos juntos conscientizar os 7,8 bilhões de habitantes do planeta sobre a crescente desigualdade mundial, em especial, ajudar os sul-africanos, devido ao caos no país mais desigual do mundo. É fundamental promover uma recuperação econômica robusta, inclusiva e sustentável, além de melhorar o IDH e o Índice de Gini na África do Sul.

O primeiro presidente negro da África do Sul foi Nelson Mandela (1918-2013), sendo hoje, 18 de julho, data do seu aniversário, comemoramos o Dia Internacional Nelson Mandela, Prêmio Nobel da Paz de 1993, junto com o então presidente sul-africano Frederick de Klerk. Enfim, precisamos de paz na África de Sul, porque são gigantescos os prejuízos financeiros e econômicos com os saques e incêndios no território sul-africano, além da previsão de crescimento do número de desempregados, de casos de COVID-19 e de pessoas famintas. Concordamos na íntegra com três pensamentos do grande líder Nelson Mandela: “Nós podemos mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Está em nossas mãos fazer a diferença”. “É fácil quebrar e destruir. Os heróis são aqueles que fazem a paz e constroem”. “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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