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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginabotto@gmail.com

Um exemplo de família

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publicado em 10/05/2021 às 07h44
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A família queira ou não é a referência do homem. Como todo ser vivo ela é o componente genealógico que fornece a sua linhagem. Este indicador é importante para a ciência porque o que acontece ao homem é reconhecido e estudado, fruto de sua hereditariedade. Digo isso por que ressalto a influência e mérito da natureza biológica intrínseca ao ser humano. Até porque o homem é um contexto bio-psíquico-social. Não há como separá-los. Faz parte de um todo que lhe dá a visão holística da humanização.
Vou reportar-me à família e sua influência no desenvolvimento da sociedade. O núcleo familiar, pais e filhos, é fundamental para enxergarmos o mundo no futuro. A escola instrui e fornece conhecimento, mas quem educa e ensina e define os valores morais e éticos e a depender dos ensinamentos adotados os conceitos do certo e errado serão empregados é a família. A criança tem necessidade de ter certeza e clareza desses valores, pois sua segurança como adulto será determinada pela forma como esses princípios internalizaram-se na sua personalidade. É a partir da nossa casa que aprendemos como administrar os nossos sentimentos. Constata-se que as transformações sociais ocorrem cada vez mais velozes, em razão das tecnologias digitais e da cibercultura que influenciam e determinam as relações interpessoais (home banking, cartões inteligentes, voto eletrônico etc). O conceito sobre a família, atinge também as mudanças sociais e culturais, cujo propósito não será discutir aqui nesse espaço.
Fiz esse preâmbulo porque neste mês encontrei-me com uma colega que fazia 58 anos que não a via. Conversamos bastante e senti que é feliz como ela disse:” Vou desfolhar para você a minha vida e o meu bem me quer”. E fiquei extasiada com sua bela história de construção familiar. Nasceu em dez de janeiro de 1944. Seu nascimento veio logo depois da morte de seu irmão de seis meses causada pela epidemia de febre tifoide. Era comum as crianças morrerem pela carência de recursos no interior e principalmente falta de médicos. A epidemia assolava a região. Foi gerada após sua mãe ter sido acometida de febre tifoide o que provocou sérios problemas durante a gestação. Em consequência nasceu franzina, raquítica e pequena e foi assim durante sua infância. “Sobrevivi e hoje estou contando história”. Ficou como filha única, foi muito querida, mimada e bem cuidada. Seu pai era funcionário do Ministério da Agricultura, tinha emprego federal, possuía fazenda, negociava com gado e com a agropecuária. Amava a zona rural. Vivia muito bem financeiramente. Foi criada dentro dos padrões aristocráticos daquele contexto ambiental, com valores de justiça, fidelidade, respeito, identificados com as pessoas de bem. Essas qualidades dizem trazer consigo. Logo cedo foi estudar frequentou o infantil, primário e ginásio no colégio religioso da cidade, que era referência de ensino, por bem instruir e formar. Deu-se aí sua primeira comunhão e aprendeu os bons costumes que o educandário proporcionava. Além da instrução preocupava-se com a formação e a cidadania do indivíduo.
Assim se expressa: “A cidade era pacata e ainda hoje o é, mas já sofre as influência de pessoas estranhas que adentraram e vão implantando novos costumes. Hoje tem 38.000 hab. É uma cidade bem desenvolvida, longe 380 km da capital paraibana e a mesmo percurso para a pernambucana. Estamos no sul da Paraíba. Serve de divisa entre um estado e outro. Entendo que se desenvolveu devido à grande distância e por não poder as pessoas deslocarem-se tão rápido, para satisfazerem suas demandas. Então tinham que criar condições de sobrevivência”.
Quando adolescente, namorou um rapaz da cidade filho de pais abastados e influentes politicamente. Rodolfo tinha um sonho, como quase todos rapazes do lugar. Ao atingir a maioridade queria viajar pelo mundo. Satisfazendo aquele desejo, seu pai comprou um caminhão dos mais arrojados da época e presenteou-o. Foi para São Paulo, não deu outra, começou a viajar e fez questão de ganhar a vida com aquele veículo. Depois adquiriu outros e tornou-se empresário. Com a sua ida para São Paulo e ela para João Pessoa o namoro terminou. Veio cursar o científico, terminologia da época, em 1960, no Colégio pertencente a mesma irmandade do estabelecimento de sua cidade natal. Isto era importante para seu pai que zelava muito pela filha, e, segundo ele, teria que ficar em um lugar seguro e que pudesse controlá-la à distância. Seus pais induziram-na a fazer vestibular para odontologia. Eleonor prestou vestibular para odontologia, passou e foi de férias do final do ano para sua cidade natal.
Rodolfo tinha vindo passar o carnaval. Encontram-se após três anos, em 1963. Reataram o namoro, e apressaram o casamento, que se realizou na quarta-feira de cinzas. Eleonor não voltou mais para continuar seus estudos. Abdicou de tudo por acreditar que havia reencontrado o amor de sua vida e não titubeou um só instante na sua decisão. A princípio, seus pais, que eram muito cuidadosos com ela, ficaram impactados, mas depois conformaram-se. Viveram um amor intenso e na condição de filha única falou: “não vou deixar essa família se acabar aqui. Eu vou ter muitos filhos, para compensar a ausência de irmãos, de sobrinhos, de primos e para que eles tenham os privilégios de terem irmãos, serem tios e gozarem do aconchego que a família poderá dar-lhes. Tive dez filhos, cinco homens, cinco mulheres e dez netos”. Disse-me que teve uma vida comum como toda família do interior, com seus sucessos e dificuldades. Que se considerava privilegiada por ter sido filha única, mas por outro lado não tinha irmãos e sobrinhos, só os do lado do esposo que a chamam de tia. Ao falar de seus filhos Eleonor disse-me que eles só lhe deram prazer. Todos estão bem encaminhados. “São homens e mulheres, honrados, corretos e pessoas do bem, queridos por todos na sociedade”.
Ainda acrescentou: “uma família grande como a minha não é fácil. Foi um filho atrás do outro, diferença de um a dois anos de um para o outro, de modo que fiquei bem jovem para ter energia para criá-los. Dividi a responsabilidade com meus pais que sempre moraram perto, de educá-los. Eu sempre trabalhei, exerci várias funções aqui na cidade; fui professora fundadora de um renomado colégio estadual, ensinava geografia e história. Na escola Cenecista ensinei biologia, ciências. Fui diretora administrativa de um hospital e fiz parte de uma junta administrativa da maternidade local. Fui docente por uma circunstância, identificava-me mais com a área da saúde. Fui chefe de almoxarifado da saúde da prefeitura, por ser cargo de confiança, a prefeita ao assumir convidou-me. Hoje, estou aposentada e consciente que dei minha contribuição, pois empenhava-me com responsabilidade e compromisso profissional. Batalhei e nunca fui acomodada, esperando as coisas caírem para mim. Sempre corri atrás. Meu esposo viajava muito e na sua ausência sempre tive meus pais ao meu lado, porque era necessário ter uma pessoa que agisse e tivesse pulso firme para lidar com eles. De modo que sempre contei com a ajuda deles na criação dos filhos, em todos os sentidos. Eles cresceram foram se formando e casando. Quanto às filhas tenho uma que é formada em direito, outra é fisioterapeuta, outra é pedagoga e duas formadas em letras. Os filhos, tenho um advogado, que hoje chefia uma assessoria atuando em um grande escritório advocatício na capital, um militar e os outros três fizeram o curso agro técnico. Um reside na cidade de Areia, o outro dirige minha loja aqui na cidade de especialidades em couro e apetrechos para cavalo, selaria, variedades de arreios, shampoo, tudo para o uso de equinos. Há um costume regional de um esporte praticado aqui, por muitos, que é a cavalgada. Eles costumam viajar de uma cidade para outra, fazer passeios em noites de lua de uma fazenda para outra. É um divertimento que aqui é comum. E o mais velho, que é Rodolfo Junior, é funcionário público, mas além disso tem terras e lida com plantações e animais. Seguiram o exemplo do pai dedicando-se ao comércio e agropecuária. São independentes e vivem felizes e satisfeitos.”
Com relação aos netos falou: “Estão se formando. Tenho uma neta que faz odontologia na Bahia e a irmã dela faz direito em Campina Grande; outro que mora em Liverpool/ Inglaterra, faz inteligência da computação, outra é musicista, toca acordeon. As pequenas, uma de 10 anos já faz live, pregando o evangelho e a de 6 já se impõe dizendo querer ser estilista e fala que vai para a Itália. A de 21 anos é especial, surda e muda, mas é um exemplo de superação, uma genialidade. É professora de libras concursada do município. Há um que faz medicina em São Paulo. Todos são bem resolvidos.” Os filhos, nessa pandemia, sempre a visitam, pois como permanece mais tempo na fazenda lá tem muito espaço e não tem aglomeração. Nos fins de semana recebe os filhos, que se revezam, pois trabalham e nem todos podem estar presentes. Leva sua vida de cá para lá, eles ajudam na administração, mas sempre tem que estar na frente.
No decorrer da conversa de repente Eleonor disse-me: “perdi meu marido há três anos”. Aquela frase causou-me susto, pois não sabia que ela era viúva. A conversa fluía tão alegre e feliz e as palavras dela transmitiam-me como Rodolfo estivesse ali, participando de todos os seus momentos. Foi quando expressou:” Ele teve uma doença autoimune e não se constatou qual era, realmente, a doença que o acometia. Sabia-se que não era transmissível e que era congênita. Ele já nasceu com ela. Foi transferido com urgência para um hospital da capital. E no prazo entre o aparecimento da doença e sua morte foram quinze dias. A doença foi se agravando a cada dia, e, no dia que ia ter alta, na noite anterior, veio a óbito”. Esses dias foram muito tristes e de sofrimento. Viu a vida que era tão sua e que foi compartilhada profundamente com grande amor, indo embora. Era como se fosse ela mesma partindo. Estava despedindo-se, não mais das costumeiras viagens que fazia, mas de uma ida que não tinha volta, ia para não mais voltar. Estar ausente, mas presente em sua vida e no seu coração. Foram 55 anos de convivência harmoniosa, vividos intensamente. O seu vazio torna-se presente em seu ser que o eternizou. Sentia no amor de Rodolfo um misto de amor homem/mulher, mas, devido a sua dedicação e zelo, parecia um amor paternal que a protegia e cuidava, como se fosse uma preciosidade. Para ele não existia mulher mais bonita, cheirosa, charmosa, elegante e verdadeira dona de casa. Não poupava elogios em todas as ocasiões. Disse: “Era querido na sociedade, quando aconteceu seu falecimento as pessoas pensaram em mim imaginando como iria conviver sem ele.” O velório foi muito emocionante com toda sociedade participando. Seu corpo foi levado para o túmulo no seu primeiro caminhão que alimentou o seu sonho e seguiu toda vida e o havia guardado como uma relíquia. O cerimonial do enterro teve honras de uma pessoa digna, querida e importante para aqueles que o amaram. Continuou: “No início fiquei muito revoltada, mas com o tempo fui conformando-me e acostumando com sua ausência e aos poucos achando que tinha chegado a hora dele. Nunca o esqueci. Tudo lembra ele”.
Constatei que Eleonor está feliz com a situação em que se encontra. Rodeada de filhos e netos que lhe dão a assistência necessária, de modo que está sempre acompanhada, o que em parte ameniza a ausência do esposo. A família é grande, mas só lhe traz contentamento e felicidade e se diz realizada. Vendo a história de Eleonor admito que fez muito bem abandonar sua carreira de odontóloga pelo amor da sua vida. Talvez se não tivesse tomado essa decisão seria outra com certeza.
No século XXI, em que os estudiosos estão explicando conceituar o que é ou o que não é família, encontrar uma como esta, tradicional, grande, conservadora, cristã e que adotou uma educação que conseguiu harmonizar todos dentro dos princípios éticos, morais e das verdades que acreditam, para formar o cidadão, é difícil. Apesar de todos esses atributos, Eleonor, apoiada pelo esposo, não deixou de assumir o singular papel de ser mãe extremosa, carinhosa, cuidadora dos filhos e administradora do lar, mas, também, se inseriu no mercado de trabalho, o que a fez ativa, participativa e respeitada na sociedade. Amou seu esposo como ama a família incondicionalmente, com suas virtudes e seus defeitos e será impossível encontrar outro amor tão genuíno como esse. Eleonor deixa um legado para seus descendentes pois implantou marcas indeléveis e inesquecíveis. Elas estarão impregnadas em seus seres e se perpetuarão noutras gerações que se eternizam. Parabéns à família!

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