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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Tempos de guerra. Templos de paz

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publicado em 27/04/2021 às 07h57
atualizado em 27/04/2021 às 05h04
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No grupo da família, minha irmã posta a fotografia do pátio do Colégio Estadual de Patos (foto) Outro dia, Marcos Maia também postou a foto da Banda Marcial da mesma Escola. Marcos, compositor e irmão de Bebé de Natércio, filhos de Itaporanga, migrantes do saber, temporariamente hospedaram-se na cidade polo daquele velho Sertão.
No pátio, todos organizados para o Hino nacional. Não era uma coisa de dentro. Era um medo. Do olhar severo do diretor Manoel Messias. Era a rigidez do sistema nos olhos do diretor. Um medo imposto, ameaçador.
Todos amavam Beatles e Rolling Stones. E no som de “Os Incríveis”, soava a compaixão pelos vietnamitas e vietcongs. Rá tá tá tá tá! Disparos de bateria e lamentos de guitarra.
Entre saudades que eu tenho do meu pequeno lugar, que se veste, hoje em dia, com ar de cidade média, procuro, na minha saudade, os tempos de paz. De fora e de dentro. Desencontro!
Era uma criança. Minha luta, portanto, era interna. Entre ser aceito e aceitar . Entre ser púbere e me tornar grande. Entre a altura que tinha, e a que queria ficar. Entre tanta fantasia sobre tudo que havia, e o que tinha aprendido: quase nada. Ou quase tudo do que internamente resultei.
Tão grande quanto o Colégio Estadual, só o Grupo Escolar Rio Branco. Imponente na esquina central da rua de chegada da cidade. Tão perfeito quanto a doçura de Dona Raimunda, nossa Diretora. Eu tão inocente quanto os pássaros que via engaiolados. Porém, ali tudo se foi. Assim como os antigos cinemas, jogaram ao chão meu Grupo Escolar. O mais belo que se poderia ter!
Onde vocês, filhos da minha terra, guardarão a história? Em nossas memórias falhas? Em nosso winchester destruível e irreparável? Por que não guardar esses eternos brinquedos, onde se construía o amanhã?
Do lado de fora, rescaldos de guerras. Repressões e guerrilhas. Cartazes espalhados à noite, eram exibidos na estrutura de vidros do Banco Industrial de Campina Grande. Uma guerra que não sabíamos que existia. Um regime duro e ditatorial.
Procuro, na breve existência minha, quais os tempos de paz, e só encontro conflitos. No Golfo pérsico, Irã x Iraque, no Oriente Médio, Primavera Árabe, Guerra do Iraque, Estado Islâmico, Afeganistão. Se não são os homens, afirmo-lhes que o poder é bélico. Se, por enquanto, falta guerra de verdade, vivemos a maior crise humanitária do planeta, desde a segunda guerra mundial. Se não são guerras verdadeiras, vemos países em conflito declarado, assistimos a seus povos tecendo a sobrevivência, entre um vírus e o desespero.
Desde a Roma antiga, em espaços consagrados pelos áugures, observo que se restringe aos templos, pequenos lugares, a existência de alguma paz. Onde há alguém meditando, buscando afirmações em seres etenos e invisíveis, ou dentro do mais profundo de si, alguma paz. Para mim, os tempos foram sempre de guerra. Aos pacifistas, restaram alguns templos de paz. Alguns, porque muitos viraram espaço de negócios, ou de condenações explícitas de outros semelhantes.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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