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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

Os 245 anos da obra-prima de Adam Smith

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publicado em 14/03/2021 às 07h39
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Este artigo começou com uma foto no Instagram como uma singela homenagem aos 245 anos da obra-prima de Adam Smith, o livro fundador da Ciência Econômica, depois tomou corpo num convite especial para o(a) leitor(ra) do Portal MaisPB a ler um dos livros mais importantes da humanidade.

A Riqueza das Nações (em inglês, The Wealth of Nations), é uma abreviação da obra intitulada “Uma Investigação Sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, de Adam Smith, o fundador do pensamento econômico moderno, que influenciou políticos como John Adams, o primeiro vice-presidente e o segundo presidente dos Estados Unidos da América (EUA) no século XVIII, além de economistas como Milton Friedman no século XX, e atualmente, continua a inspirar muitos políticos, economistas, empresários e estudantes em pleno século XXI.

O filósofo e economista escocês Adam Smith é o pai da economia moderna e ele nasceu em 05 de junho de 1723, em Kirkcaldy, uma pequena cidade portuária no Mar do Norte, no Condado de Fife, na Escócia, um dos quatro países membros do Reino Unido. O seu célebre livro A Riqueza das Nações foi publicado em 09 de março de 1776, coincidentemente no ano da Independência dos EUA, desta forma Adam Smith tornou-se o primeiro economista, o pioneiro nas análises relacionadas à economia liberal, como também, um dos mais influentes pensadores até os dias atuais.

A Riqueza das Nações foi publicada pela primeira vez em Londres, capital do Reino Unido, e esta obra clássica do pensamento econômico foi escrita no início da Revolução Industrial, que começou na Grã-Bretanha, em meados do século XVIII. Na Primeira Revolução Industrial começou a doutrina econômica intitulada liberalismo econômico, ou seja, para Adam Smith toda intervenção do Estado na economia capitalista é completamente condenável e ele defendeu o livre mercado e a liberdade econômica.

Aos 53 anos, o filósofo iluminista Adam Smith publicou A Riqueza das Nações em dois volumes com cinco livros. Livro Primeiro com o título de As Causas do Aprimoramento das Forças Produtivas do Trabalho e a Ordem Segundo a qual sua Produção é Naturalmente Distribuída Entre as Diversas Categorias do Povo; Livro Segundo foi denominado de A Natureza, o Acúmulo e o Emprego do Capital; Livro Terceiro foi intitulado de A Diversidade do Progresso da Riqueza nas Diferentes Nações; Livro Quarto foi chamado de Sistemas de Economia Política; e o Livro Quinto foi denominado de A Receita do Soberano ou do Estado.

A primeira edição de A Riqueza das Nações foi editada em dois volumes, dos quais o primeiro volume contém os Livros I, II e III, e o segundo volume, contendo os Livros IV e V. A primeira edição em 1776 foi integralmente vendida em apenas seis meses, ao preço de uma libra e 16 xelins. O livro contém 32 capítulos e durou 12 anos para ser publicado, de 1764 a 1776. Adam Smith iniciou na França o Livro Primeiro com 11 capítulos. O Livro Segundo tem cinco capítulos. O Livro Terceiro consta quatro capítulos. O Livro Quarto apresenta nove capítulos. E o Livro Quinto tem três capítulos.

Adam Smith não se casou nem teve filhos, a maioria da sua vida morou com sua mãe, Margaret Douglas, e como bom representante da burguesia britânica em ascensão, considerava os elevados impostos um grande obstáculo ao crescimento da economia de mercado. Smith sustentava que a riqueza de uma nação depende da produtividade do trabalho e da proporção de trabalhadores que se empregam de maneira produtiva. O trabalho era uma força homogênea nos países e as distinções nas invenções causaram as diferenças nos custos de produção de bens.

Smith (1996, p. 59) na Introdução escreve: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente”. Para Smith a riqueza da nação é oriunda do trabalho e o trabalho produtivo é primordial nas reflexões liberais sobre a economia. O pai do liberalismo econômico aborda grandes temas como a divisão do trabalho, a especialização e a produtividade. Nesse contexto econômico, o já renomado professor de Filosofia Moral da Universidade de Glasgow, defendia o laissez-faire (deixe fazer) e introduziu o termo invisible hand (mão invisível) para simbolizar as leis naturais da oferta e da demanda que regem a economia de mercado, logo, não é necessário nenhuma intervenção do Estado na economia para corrigi-la.

A única ocorrência da mão invisível em A Riqueza das Nações se dá no Capítulo II, do Livro Quarto, que tem como título Restrições à Importação de Mercadorias Estrangeiras que Podem Ser produzidas no Próprio País: “(…) Ao preferir fomentar a atividade do país e não de outros países, ele tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções” (SMITH, 1996, p. 430).

Na visão de Smith, a riqueza requer produtividade; a produtividade requer especialização; a especialização requer divisão do trabalho; por sua vez, a divisão do trabalho requer troca; a troca requer mercado livre; por sua vez, o mercado livre requer um sistema de preços; e o sistema de preços requer ordem monetária. No Capítulo I, do Livro Primeiro, Smith (1996, p. 61) enfatiza que, “o maior aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados da divisão do trabalho”.

Aprendemos com Smith sobre a divisão do trabalho no famoso exemplo dos trabalhadores em uma pequena fábrica de alfinetes, em Kirkcaldy. Aprendemos que o trabalho é um conjunto de atividades produtivas, que o ser humano exerce para atingir um determinado fim. A divisão do trabalho faz com que o trabalhador produtivo adquira, com a tarefa repetitiva, uma agilidade maior e treinado na execução de seus movimentos, provocando assim uma diminuição do tempo gasto e um aumento na produção e na produtividade.

Eram 10 trabalhadores, 18 operações distintas e máquinas para a produção de um simples alfinete, na fábrica em Kirkcaldy. Cada trabalhador executava uma operação distinta na fábrica de alfinete como desenrolar o arame, endireitar o arame, cortar o arame, montar a cabeça do alfinete, alvejar o alfinete, prateiar os alfinetes ou preparar a própria embalagem dos alfinetes. Esta divisão do trabalho gerava a especialização do trabalho, e consequentemente a produção de 48 mil alfinetes por dia. Um trabalhador isoladamente se tivesse que realizar as 18 operações não produzia um único alfinete no final do dia.

No Capítulo V, o professor Adam Smith (1996, p. 87) destacou que “todo homem é rico ou pobre, de acordo com o grau em que consegue desfrutar das coisas necessárias, das coisas convenientes e dos prazeres da vida”. Há 245 anos que a classe rica ou classe pobre tem como medida a quantidade de bens e serviços que tem condições de comprar na economia de mercado, conforme a lei da oferta e da demanda.

Ler os cinco volumes de A Riqueza das Nações não é tarefa das mais fáceis, todavia, é um livro de leitura muito valiosa, visto que é uma severa crítica ao protecionismo alfandegário no século das luzes, sendo muito útil nos dias atuais, em plena guerra comercial entre os EUA e a China – as duas maiores economias do mundo.

Para Smith, a riqueza de um país depende da divisão do trabalho, além da acumulação de capital. Logo, a acumulação de capital leva ao crescimento econômico. Escreve Smith, na sua obra, o ponto principal que causa o crescimento econômico é a divisão do trabalho, que garante a redução dos custos de produção e a queda dos preços das mercadorias. A divisão do trabalho incrementa a quantidade produzida, por três razões: a destreza dos trabalhadores; a poupança do tempo; e as invenções para a produção.

A riqueza de uma nação é a capacidade de produzir bens e serviços que tem seus cidadãos e o cidadão comum ao procurar o seu próprio interesse, automaticamente promove o interesse da sociedade em geral. Em uma passagem célebre da magnun opus da Escola Clássica, Smith (1996, p. 70), no Livro Primeiro, Capítulo II, enfatizou que, “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhe falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles”.

No dia 17 de julho de 1790, Smith faleceu aos 67 anos, na capital escocesa. Muitos já ouviram suas ideias liberais a respeito da livre concorrência, da acumulação de capital ou da propensão do homem à troca. Smith esclareceu os significados de valor de uso, valor de troca, capital fixo, capital circulante, como também, demanda efetiva e demanda absoluta. Ele defendeu a não intervenção do Estado na economia de mercado – que funcionaria automaticamente –, como se houvesse uma mão invisível ajeitando ou ajustando tudo, empurrando naturalmente para o lado certo. Adam Smith foi um filósofo iluminista que tornou-se o pai da economia política e o farol da liberdade econômica que continua iluminando as mentes nos países do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul.

Ressaltamos que grandes economistas leram a obra-prima de Adam Smith, em inglês, na íntegra e criticaram o seu pensamento econômico, entre eles, destacamos dois economistas europeus, Karl Marx no século XIX e John Maynard Keynes no século XX.

Adam Smith é o pai do capitalismo e suas quatros fases são o capitalismo comercial, o capitalismo industrial, o capitalismo financeiro e o capitalismo informacional. Estamos em plena Quarta Revolução Industrial, em pleno capitalismo informacional e sofrendo os impactos socioeconômicos da pandemia da COVID-19. No Brasil, poucos leram na íntegra, um dos livros que mudaram o mundo. Nele, descobriremos como melhorar a produtividade, o motivo de pagar bons salários, além de ser contra o protecionismo, os elevados impostos e o monopólio. No início do capitalismo industrial, Adam Smith procurou a resposta para uma pergunta bastante atual: Por que alguns países são ricos, e outros não?

Para concluir, devemos instigar a todos à leitura da obra seminal de Adam Smith, é um livro, eBook ou audiobook imune a força do tempo, continua sendo de extrema relevância até os dias de hoje, e sobretudo, poderá estimular as nossas próprias reflexões críticas: Por que o Brasil tem baixa produtividade no trabalho em comparação com outros países? Como sobreviver com um salário mínimo de R$ 1.100,00? Por que o Brasil participou apenas de 1,2% das exportações mundiais em 2019? Por que o Brasil tem 92 tributos em plena pandemia da COVID-19? Por que o país tem cerca de 5,8 milhões de pessoas desalentadas? Como conciliar a liberdade econômica com a igualdade social no Brasil? Enfim, por que o Brasil é um país tão desigual?

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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