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OPINIÃO REDEMAIS

Editorial: vacina, a chance de rever o passado e evitar vergonha no futuro

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publicado em 19/01/2021 às 19h00
atualizado em 19/01/2021 às 16h42
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Enfermeira Marineide Rodrigues e Genildo Alencar, indígena potiguar: os primeiros paraibanos vacinados contra Covid-19 na Paraíba

Editorial Rede Mais

João Pessoa, Paraíba, 19 de janeiro de 2021

Em 1904, o sanitarista Oswaldo Cruz recomendou a vacinação obrigatória para salvar vidas da temida epidemia da varíola. Na conturbação da época, a medida – aprovada no Congresso – insuflou uma Revolta Popular.

A confusão serviu de pretexto para o movimento das forças que queriam depor Rodrigues Alves. “Uniram-se na oposição monarquistas, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol. Alguma semelhança?

Dois anos depois, em novo surto da varíola, a população espontaneamente procurou os postos de vacinação.

O cientista Oswaldo Cruz morreu um ano antes da gripe espanhola assolar o mundo e o Brasil. Coube a Carlos Chagas, médico sanitarista e seu discípulo, a saga de lutar para a ciência prevalecer sobre mortes e negação.

Na pandemia de 1918, o pânico levou a falsos tratamentos. Acreditava-se até que cachaça poderia curar. Multiplicavam-se receitas. Sal de quinino, remédio usado contra malária, passou a ser distribuído, mesmo sem qualquer eficácia comprovada. Alguma semelhança?

Um século se passou e a coisa se repete na pandemia do coronavírus. Medo, negacionismo e politização exacerbada e má-fé confundem, desinformam e desencorajam parcela contaminada pela ideologização e com imunidade da razão em baixa.

A muito custo, a vacina está aí. Ela não pode nos dividir ainda mais, e mais uma vez. Como acentuou o médico João Medeiros Filho, em artigo para este Portal, a imunização é, acima de tudo, uma questão de cidadania.

É dispensável, mas necessário reforçar. Tomar a vacina não é aderir a partido ou candidato, mudar de lado ou conferir razão a quem quer que seja. Vacinar-se e incentivar a vacinação é – literalmente – dar o braço a torcer à saúde. A própria, a do outro, ao senso de comunidade.

Em meio à barbárie da radicalização, uma oportunidade de separar ignorância de inteligência, irracionalidade de bom senso, primitivismo de civilização. Um apelo à reunificação nacional em pelo menos um ponto comum: a humanidade, essência que nos iguala.

E quem, apesar de tudo, ainda tiver dúvidas ou resistência à vacina, deve olhar cem anos no retrovisor. Um século depois de tanta evolução científica e tecnológica não podemos aceitar a obscura repetição daquele passado. O presente está dando a chance de imunização contra a sensação de vergonha no futuro.

MaisPB

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