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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Clementino, de claríssima luz

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publicado em 02/09/2020 às 07h00
atualizado em 02/09/2020 às 04h40
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O nome do pai dele era Claro, e isso me impressionou. O nome da mãe, Maria. O nome dele, Francisco Clementino de Carvalho, que partiu domingo, quando o sol já mostrava os raios. Um homem de claríssima luz, sob a ternura do tempo, quase um tempo sem fim, um homem que não perdeu sua viagem, de uma lealdade fraternal.

Clementino que amou e viveu, não partiu (avançou) no seu próprio jogo. Pôs-se a caminho para enlear a sua sombra. E deixou-nos no nosso trivial remanso tropical.

Nunca mais tinha visto Dr. Clementino e vê-lo morto, não me demorei. A casa do Bairro dos Estados estava em silêncio. Olhei mais para o tempo, do que para ele.

A vida é sempre parecida com a morte. A morte já é a vida. Somos resultados e lições – nada mais. Melhor que tudo, é a memória. Muitas vidas teve Clementino!

Muito anos para chegar a isto sem morrer, sem querer desagradar ninguém, mas apaziguar. O correr do seu espaço, nada haveria de interromper. Tempo há de haver. Haverá. Existiu.

O tempo distante que o conheci, na década de 70, ele um médico de todos, para dizer o chavão “médico dos pobres”. Fui vê-lo inicialmente nas escadarias do antigo Ipase (centro de João Pessoa) e depois no “Samdu” de Jaguaribe. Eu pedia para ele atender as pessoas doentes, que meu pai mandava do sertão e Clementino dizia que atenderia sempre. Isso dele dizer sempre ficou no vácuo. Sua casa na avenida Camilo de Holanda era tão bonita. Foi lá que Nely me apresentou os discos de Egberto Gismonti

Fui vê-lo na casa do Bairro dos Estados. E até me perdi, achava que eles moravam na Avenida São Paulo, mas é na Avenida Goiás, 805. Como eu fui esquecer a casa de Nely e Clementino? Nada me parecia triste nem bucólico.
Ainda assim, sobreviveu minha emoção inalterada na agonia dessa pandemia. A contar, havia o que acontece longe do figurativo. Provavelmente nada de novo: a morte é mesmo uma percepção de que o que vemos não é uma pessoa sem vida, mas uma pessoa que viveu, trazendo à tona sobretudo quem vê.

O que vi não foi um desenho de Clementino, no eco destes dias, com a vida lá fora verde e azul, entre acantos e prédios. Reencontro inesperado no meio do tempo. Um aqui, um além. Já não demoramos mais a buscar explicações sobre a morte. Subi no primeiro andar e vi sua mulher Nely e a filha Ana Claudia, certamente, semeadas pela ventania dominante da perda ou da libertação do marido e do pai. Fui lá para falar do mar, que Nely tanto gosta. Na sala grande, o filho Léo. Não vi Francisco Aurélio, o outro filho.

Clementino de claríssima luz, foi o que muitos sonham, um homem bom.

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