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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: reginarodriguez@uol.com.br

Educação ambiental em época de pandemia

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publicado em 30/07/2020 às 19h20
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O assunto é amplo e envolve questões fundamentais para que se compreenda melhor a educação e o ambiente – preservação e desenvolvimento. O que se entende por educação? Quais as relações entre educação e meio ambiente? Como prosseguir com o desenvolvimento e preservar o meio ambiente? Como vemos as interrogantes são abrangentes e demandaria análises técnico-científicas que não se esgotariam nessa abordagem. Nossa pretensão é tratá-las sinteticamente com o intuito de motivar reflexões nesse momento de pandemia diante do cotidiano de todos nós.

No primeiro momento enfatizamos a educação numa visão histórica-estrutural. A formação da sociedade brasileira, sedimentada historicamente, leva o homem a uma situação de penúria e miséria. Carência em todos os níveis econômico-social-político e educacional, não por culpa dele, como queiram alguns, mas devido a estrutura social a que ficaram condicionados e foram submetidos. A concentração de renda é o principal indicador dessa estrutura. Existem, portanto, aqueles que tem em abundância, estes por sua vez, têm acesso a todos os benefícios técnico-científicos proporcionados pelo desenvolvimento. Existem aqueles que tem o suficiente para viver ou sustentar-se, aqueles que quase nada têm e aqueles que não tem nada e que constituem a base da pirâmide da população brasileira. E agora? O que seria para maior parte desta população? A Educação nessa ótica epistemológica seria uma forma de dominação de uma classe sobre as outras. O fenômeno educativo é encarado, portanto, numa perspectiva de totalidade, que se torna factual no concreto de uma sociedade de classes. Estaria condicionada à transmissão ou ratificação de conhecimentos, valores, normas, hábitos etc, que sedimentariam a estrutura vigente. Esse processo, no entanto, não se verifica de forma mecânica, mas comporta tradição, fonte mesma do seu dinamismo.

O quadro pintado sobre o sistema educacional brasileiro é caótico, onde se pode visualizar, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo no Brasil passou de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O Brasil tem 11 milhões de analfabetos que são pessoas de 15 anos ou mais que, pelos critérios do (IBGE), não são capazes de ler e escrever nem ao menos um bilhete simples. O Nordeste apresenta-se como mais grave com a taxa de analfabetismo de 14,5% para pessoas com 15 anos ou mais de idade; ainda 38,6% da população de 60 anos ou mais não sabe ler. O número de crianças e jovens fora da escola é de 3,8 milhões, informação da ONG Todos pela educação e dentre estes, 19,4% são crianças na faixa etária de 4 a 5 anos. Agrava ainda a situação a escassez de recursos, má aplicação das verbas públicas, deficiência na formação dos docentes, violência e baixos salários, pois o piso nacional aprovado pela Lei nº 11.738, em seu artigo 5º, de 16 de julho de 2008, para o magistério público da educação básica, com formação de nível médio, modalidade normal, jornada de 40 horas semanais é de R$ 2.557,74. Situação que desestimula os jovens para ingressarem na carreira de magistério que tem hoje sua demanda reduzida. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que apenas 3% dos jovens se interessam pela carreira docente. Podíamos estender e aprofundar outros condicionantes e determinantes da problemática, mas não é esse o propósito.

Onde ficam o ambiente e a ecologia nessa história da Educação? Numa visão globalizante da Educação. O ambiente e a ecologia estão inseridos e imbricados no próprio desenvolvimento do processo educacional formal e informal do ser humano. Para melhor explicitar esse entendimento nos aportamos à teoria de Dermeval Saviani (2003) que, numa visão macro do ato educativo, procura vinculá-lo à sociedade enumerando cinco passos. O primeiro denomina-se de ponto de partida – prática social no contexto de todo processo educacional. Há os relacionamentos do homem com a natureza e com outros homens, e nesse complexo de relações, ocorre toda construção de sua formação: O id, ego e superego. A forma como ele se engaja no modo de produção condiciona e determina a maneira de pensar, sentir e agir. É a história de sua classe social. A vivência do dia a dia ratifica o aprendizado. O homem aprende a tratar do seu ambiente e usufruir dele os benefícios que pode oferecer. Nesse momento há articulações diferentes conhecimento de tudo que o cerca. Estabelece níveis de compreensão variados, vive experiências e constrói sua leitura do mundo que vem antes da escola. O segundo passo é a problematização. O homem já de posse da pratica social inicial e na interação com o meio ambiente conhece sua realidade, identifica as demandas e necessidades. Questiona. É o homem situado. O terceiro – é a instrumentalização. Cônscio dos problemas, cabe agora ao homem buscar as ferramentas do conhecimento para dominá-los e resolvê-los. A escola formal existe para ensinar crianças e adultos a compreender o que está ao seu entorno fornecendo conhecimentos e habilidade para que alcancem a solução dos impasses. A instituição de ensino pós-moderna adota conteúdos no seu currículo sobre ecologia. Utiliza métodos didáticos participativos para que os discentes tenham contato direto com a problemática ambiental, e assim estruturem a consciência sobre meio ambiente. Em João Pessoa, temos a Escola Municipal do Meio Ambiente; Escola Lubinska, em Recife; Escola Nova Lourenço Castanho, em São Paulo e outras escolas espalhadas em todo o Brasil. Temas ecológicos nas escolas são recentes. Na minha formação básica esses assuntos nunca foram estudados. O Brasil pós–moderno vem adotando estratégias pedagógicas para construir a consciência ecológica nos alunos. Nas Universidades isto acontece através dos cursos de graduação que incluem disciplinas sobre Ecologia e Meio Ambiente, entre eles o de Engenharia, Ciências exatas e da natureza, e outros.

O quarto é chamado de Catarse –que é a culminância do aprendizado em que o homem torna-se sujeito de sua própria história, sente-se liberto e é capaz de agir sobre sua realidade, nela interferindo. Os elementos culturais incorporados adquiridos fornecem outro olhar sobre as coisas, fatos e o mundo. O quinto passo chama-se “práxis “, agora, o que foi ponto de partida será também o ponto de chegada, só que a leitura feita é outra, completamente diferente daquela visão ingênua anterior. Há uma consciência coletiva estrutural e histórica na compreensão. Lembramos agora um exemplo que uma aluna de geografia deu-nos na sala de aula sobre este assunto. Disse: “Professora sou de Catolé do Rocha e sempre viajei de lá para cá e gosto de sentar à janela do ônibus, para apreciar a paisagem. Vim estudar aqui na capital e depois de seis meses fui ver os parentes que deixei lá no interior. Para surpresa minha sentei novamente à janela do ônibus. A paisagem era a mesma, não mudou, mas mudei minha visão, pois pude enxergar a mono cultura, a ocupação da terra e as questões urbanas, demográficas e outras”. Estavam na sua fala os conceitos da geografia física mas também da geografia crítica do cientista Milton Santos (1990).

O tratar com o meio ambiente exige uma construção de pensar que não nasce com o indivíduo, tem que ser aprendida. Envolve problemas macro-estruturais de ordem sobretudo política de caráter nacional e internacional. O mundo é globalizado e, como tal, um fato, coisa ou fenômeno acontecido em um lugar tem repercussão em todo o planeta. Para ilustrar, citamos o vírus Covid 19 que atinge a todos nós nesse instante. Um amigo mandou- nos uma postagem estarrecedora sobre o que está acontecendo, que diz: “O Homo sapiens – o maior predador e depredador do nosso Planeta Azul. A reportagem mostra em vídeo a poluição nos mares e praias com apetrechos de proteção individual contra o coronavirus: máscaras, luvas, lixo hospitalar estão ao redor do mundo. Nas ilhas de Soko, Hong Kong, Bósforo, na Turquia, Côte d’Azur-França, Londres, Reino Unido, mergulhadores mostram os oceanos falando o que acontece desde fevereiro quando a pandemia do coronavirus começou, elevando a poluição de modo assustador. 120 milhões de máscaras e 65 bilhões de luvas plásticas estão sendo descartadas com indiferença por mês no meio ambiente indo parar nos oceanos, o que causa a morte de animais marinhos com ação deletéria”. Cremos que o quadro descrito fala por si só, pois trata-se de primeiro mundo. O que dizer do Brasil?

Os desafios são enormes para solucionar a problemática. Políticas públicas deverão ser incrementadas por quem em última instância cabe decidir sobre o assunto. Congregar ações políticas com a ministração do ensino voltado para essa questão da consciência ambiental coletiva. Cremos que só assim teremos o planeta limpo e despoluído. Leis não faltam. A Constituição do Brasil incluiu o capítulo VI “ Do meio ambiente”. Está no seu artigo 225, “ verbis”: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

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