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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Empatia: sem outra palavra (I)

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publicado em 21/07/2020 às 06h35
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Quer destruir uma palavra? Repita-a quantas vezes puder. E como ela está em evidência, façamos que a repitam também. Com um certo tempo, ela perde seu sentido original e não nos diz, absolutamente, mais nada. Fake News foi utilizada, na campanha presidencial americana, para se referir a mentiras, jogadas nas redes sociais, para denegrir o candidato opositor. Dois anos depois, no curso da eleição presidencial brasileira, ela aparece, mais ou menos com o mesmo sentido. Não demorou muito, todos estavam acusando outros de espalharem Fake News. Ela se generalizou. Veículos oficiais, que atribuíam as fakes às redes sociais, também passaram a ser acusados de mandarem fake News para seus leitores. Atualmente, não há afirmação sobre quem quer que seja, para os comentaristas não a denominarem fake News. Ou seja, tudo é fake, tudo é falso, tudo é mentira nessa nova ordem. Virou um xingamento e perdeu o sentido de designar matérias realmente falsas, por acaso, divulgadas. Apenas uma palavra, que nada  nos comunica, e que perdeu, por completo, o seu sentido original e específico.

Não é de fake que vou falar. Meu objetivo é esclarecer sobre outra palavra repetida, a cada minuto, por muita gente: empatia. Vou partir de um conceito comum, numa busca aleatória ao Google. Diz lá: “Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar, de forma objetiva e racional, o que sente outro indivíduo”.

Veja que a primeira frase diz que é uma capacidade psicológica de sentir o que você sentiria se estivesse no lugar da outra pessoa. Primeiro, ninguém consegue fazer esse exercício por completo. E, caso tente fazer, fará de uma forma não verdadeira. Eu posso me colocar no lugar de alguém que está a morrer de um câncer terminal? Difícil.  Meus mecanismos de defesa, contra a angústia da morte, não deixam. Posso me colocar no lugar de uma pessoa que acabou de sentir na pele uma situação vexaminosa de preconceito? Não. Só se eu fosse preta como ela, ou travesti como ela, e trouxesse meus sentimentos já sensibilizados, anteriormente, por outras situações por elas vividas.

Eu posso me colocar no lugar de um filho que está entre a vida e a morte? Sim. Mas aí, eu faço uma identificação afetiva (IA) com ele e sofro, tanto quanto ou mais do que ele está a sofrer. Pois: IA é diferente de empatia. É uma identificação maciça, que envolve afetos com alguém com quem tenho uma ligação forte. Nessa situação, eu sofro junto; é algo bem mais intenso que ser empático. Acho que chega mais próximo de compaixão.

Ademais, existem muitos sentimentos que pouco se fala: Altruísmo, Respeito, Compaixão (compadecer-se do outro), Amor, Solidariedade, Generosidade, Lealdade, Tristeza, Caridade, Comiseração, Comoção, e outros tantos que desenvolvemos, e que poderiam ser utilizados na maioria das situações.  A empatia pode ser despertada por esses sentimentos, mas ela não se traduz apenas em palavras, ela é também gesto e atitude. É uma habilidade que preciso desenvolver. Tenho ouvido repetirem que faltou empatia, quando há, na nossa língua, palavras que, para aquela situação, comunicariam muito melhor o que, de fato, se quis dizer. Como, então, posso ser empático diante de dificuldades ou sofrimentos dos nossos semelhantes?  Na próxima, vamos compreender a empatia no seu conceito e aplicação mais precisos. Até terça-feira.

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