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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

A linguagem de Luíza

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publicado em 16/06/2020 às 09h34
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A grande sacada dos seres inteligentes, foi o acesso ao universo simbólico, que nos permitiu a linguagem. A possibilidade de uma coisa representar outra, ou um ajuntamento de letras me comunicar sobre algo, me faz diferente. Letras e palavra que geram um sentido, definem um objeto, seja lá de que matéria for. Ou mesmo que o seja abstrato, incolor. Para Luiza, não é bem assim. O que mais lhe confunde é a linguagem não verbal. De onde, possivelmente, surgiu seu último amor. A mesmas linguagens sem letras, desconhecida e hostil; que lhe faz insinuações, que gera expressões não faladas, e se insere, como se fora um cacto entre pedras, nos acontecimentos do seu mundo exterior. Foi daí que lhe chegou o último amor; como também, o não amor que lhe persegue, e o desamor, de onde tudo começou. Frases não ditas, inseridas no jornal, insinuações, entrelinhas e figurinhas. E, justamente, nessa linguagem não verbal, é onde tudo se esconde para ela.

É verdade. A comunicação não verbal se manifesta, essencialmente, nas expressões corporais do sujeito, nos gestos, códigos sonoros, sinais, expressões faciais, imagens e códigos em geral. Está nos símbolos do fascismo, ou no braço erguidos e punho serrado do movimento operário internacional. Mas aí, eles são quase corpóreos e mantêm os significados. Luiza vê símbolos escorregadios, que mudam de sentido e significado, agridem ou emitem mensagens que somente ela é capaz de traduzir.

De Luíza, vem a incerteza do nosso olhar. Como entendemos as coisas, além do verbo? Será que olhamos, em seu redor, outras sensações que não as palavras que inundam as rotinas modernas? Já vimos por aí, pessoas de máscaras, face shield e roupas de proteção. Como as vimos? Vejo-as simples e medrosas, nos seus simbolismos de doação, a fazer trocas de ar solidárias, no leito de UTI, dando aos vulneráveis aroma e esperança de vida.

Nas imagens, por que só vemos barrigas trincadas, bumbuns salientes, músculos hipertrofiados, como elementos sensuais, que, de tão exibidos, esconde-lhes as manchas, descobertas e transformações? E por que não veneramos corpos envelhecidos, nem condenamos crianças esquálidas, que se nos apresentam para além da estética venal?

Por que nunca olhamos na direção Oriente, nem vemos o simbolismo, na imagem do Kirin ( foto), animal mítico, que representa a bondade e a paz? Será que já vimos bondade e beleza nas mãos frágeis de irmã Dulce? E na face engelhada de Thereza de Calcutá? E como seria, se encontrassem Luíza pela rua? Não lhe ofereceriam um sonho de valsa, um bem casado? Um doce abraço de amor, talvez, que pudesse acordar Luíza dos seus sinais não verbais; como tradução de um gesto sincero e libertador, o qual nunca sabemos de onde, nem quando virá. Quem viver, verá.

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