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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

A mercê da própria sorte

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publicado em 26/05/2020 às 10h49
atualizado em 26/05/2020 às 08h02
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Existe a coisa e a sensação em relação à coisa. Existe a segurança real e existe a sensação de segurança que a pessoa sente. Nessa região próxima ao Shopping, que envolve parte de Manaíra e Aeroclube, muitos celulares foram roubados, muitos pequenos assaltos ocorrem. Foi só botarem dois policiais num postinho desse de polícia, ali na praça do skate, e a nossa sensação de segurança aumentou. Passamos a nos sentir protegidos quando, de fato, a insegurança é a mesma. Aquele soldado sentado num tamborete dá conta do terreiro e do quintal do seu posto avançado.

É assim na pandemia. O risco de morrer, não é tão alto estatisticamente. Estatística é bom quando diz respeito a dados gerais que não nos dizem respeito. Porém, quando contam comigo, 1% será sentido como altíssimo. Ora, se em cada cem um morre, quem me garante que não seja eu. Vade retro! Falei por mim, não que seja mais medroso que você ou qualquer outro. A sensação do perigo é bem maior para todos.

Mortes vêm ocorrendo em todos os lugares, uns mais, outros menos. Uns com mais assistência, outros com menos. Mas a sensação de perigo do brasileiro tem batido recordes. Também pudera. Poderes da República em conflito aberto. Interesses políticos acima dos sanitários. Falta de unidade, de confiança nas ações governamentais. Tudo concorre para que fiquemos a mercê de ninguém, torna-nos cidadãos em estado de desamparo. O faça, não faça. O fique, não fique. São exemplos de erros crassos que atingem a sensação de proteção das pessoas. O nível de estresse aumenta. A intemperança de quem comanda, responde em nós como descontrole de emoções. Pânico, fobias, “manias” de limpeza e depressões estão emergindo a todo instante. Inacreditável que um presidente, sem formação alguma, anuncie ou defenda um determinado medicamento. Por que não chamar cientistas ou médicos para anunciar? Ao fazê-lo em voz e pessoa, atribui uma qualidade “política” a um medicamento, que é sim proposto por alguns e condenado por outros. Tomo ou não tomo? Morro de Covid 19 ou de Cloroquina?

Como fica a sensação de cada pessoa dessa pátria? Eu não me sinto seguro, nem você, com nenhuma medida que é tomada. Primeiro porque somos, reconhecidamente, gambiarreiros. Segundo, porque o interesse no nosso bem-estar, por parte dos governantes, não nos parece genuíno. Tudo tem um quê, uma intenção não dita. Portanto, imaginem, em meio à mais terrível pandemia que já vivenciamos, um país em conflito político e em recessão econômica. A Saúde sem Ministro. Sem um líder que se imponha, e nos leve à tão badalada descida da linha que representa o achatamento da curva. Ficamos, então, sob a guia de 5570 prefeitos e 26 governadores. Estamos ou não estamos à mercê de nossa própria sorte?

MaisPB

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