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Rômulo Halysson Santos de Oliveira é advogado e analista político, graduando em economia pela UFPB, empreendedor cultural e escreve semanalmente coluna de análise política com o título “Olhares Líquidos”.

Coringa: perturbador e genial

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publicado em 12/10/2019 às 14h46

Ontem, fui ao cinema assistir o Coringa de Todd Phillips e sai de lá atordoado.

Todd faz uma mescla entre suas referências no cinema com o que de melhor pode capturar do universo D.C. Comics para a construção do seu Coringa.

Aquela Gothan caótica, suja e violenta vomita a Nova Iorque dos final dos anos 70, início dos 80 de “Táxi Driver”, demonstrando a sua reverência a Martin Scorcese.
Quanto ao seu “Joker”, ali tem dois dos melhores HQs do Batman e, claro, Christopher Nollan.

Phillips foi buscar no HQ “Batman: A piada mortal”, a carreira malfadada de Arthur Fleck como comediante. Já a cena do talk-show do Murray, veio de uma adaptação muito bem pensada do HQ “Cavaleiro das Trevas”. Quanto a personalidade, Phoenix, sem dúvida, faz um tributo ao amigo Ledger. A imagem do vilão detido assistindo ao caos de dentro da viatura, lembra os cabelos ao vento de Heath. Muito bom!

De Arthur Fleck ao Coringa, Todd sintetiza a ideia do mito que surge do fracasso, da negação, do sofrimento.

Fleck sofre de Epilepsia Gelástica, que provoca risos inapropriados e sem controle, além de ter alucinações frequentes. É fruto de uma criação violenta e da ausência da figura paterna. Renegado em seu trabalho, não é um produto da sociedade propriamente dito, ele se amolda a ela. Violento e quase sem empatia.

A conversão de Arthur em Coringa deixa a impressão de ele não tinha escolha, não é verdade. Poderia não ter aceitado a arma do “colega” trapaceiro. Aceitou. Poderia não tê-la levado ao hospital. Levou. De modo que, ao permitir ser conduzido pelas circunstâncias, liberou de si a vingança narcisista presente em sua personalidade: “basta um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático”. O Coringa de Todd e de Phoenix é um escape. Uma bomba que está prestes a explodir e que está ao seu lado. Passa do por você e você não enxerga. Fala com você, mas você não ouve. São os invisíveis que suplicam – sem necessariamente falar – pela própria existência.

Ontem, por várias vezes no cinema levantei e olhei para trás para observar as pessoas. O filme me deixou atordoado pela impressão que passa: há sempre um Coringa por perto.

O Coringa é tão perturbador, quanto é genial.

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