João Pessoa, 31 de março de 2014 | --ºC / --ºC
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Em Cité Soleil, ou Cidade do Sol, crianças e porcos disputam espaço na mesma montanha de lixo. O cenário, da miséria em seu nível extremo, compõe a realidade do local de trabalho de militares de Campinas (SP), que foram incumbidos de fazer a segurança na região mais crítica do Haiti, segundo a Missão das Nações Unidas no país (Minustah). A pedido do G1, um dos 700 soldados que viajaram da cidade paulista para o país caribenho registrou e narrou com uma câmera o dia a dia do pelotão, desde os momentos de descontração na base até a ligação que eles estabelecem com o local e a população nativa. O resultado (veja acima) é a primeira reportagem de uma série sobre as relações entre Campinas e o Haiti, que será publicada a partir desta segunda-feira (31).
Com 200 mil habitantes, Cité Soleil é uma espécie de cidade-satélite, ou distrito, da capital Porto Príncipe. Pelas ruelas daquela região, é possível conhecer a pobreza em escala ainda não experimentada pelas populações mais miseráveis do Brasil, por exemplo.
“Existem situações, particularmente na capital, que são de miséria, mas não só isso. É uma situação de precariedade, muito superior à de qualquer outro país da América Latina. Em alguns bairros da capital, isso fica muito claro. É uma população que há anos está entregue a uma noção de ‘degaje nou’, que quer dizer ‘a gente se vira’. E isso é muito precário”, afirma Omar Ribeiro Thomaz, sociólogo da Unicamp, que estuda há 16 anos o Haiti.
O brasileiro Manoel Felix da Cruz Neto conheceu e tem vivido de perto esta realidade ( veja o vídeo acima). Com o codinome “Cabo Félix”, ele escuta há 4 meses, enquanto percorre as ruas de Cité Soleil, os chamados das crianças haitianas, apelidadas por ele e pelos colegas de “petit”.
“Hey, you! Chocolat! Hey, you! Chocolat!”, gritam repetidas vezes durante o patrulhamento dos militares, na esperança de ganharem um doce, como lhes ensinaram os soldados estadunidenses. Acabam por se contentar com um colo, um afago ou o cumprimento de batidas de mãos, já que os brasileiros são proibidos de alimentar a população fora das atividades sociais específicas para este fim.
Rotina
A base militar da Cidade do Sol, composta em sua maioria por militares de Campinas, possui quatro pelotões, que se revezam nas atividades internas e no patrulhamento. De acordo com o comandante da companhia, o capitão Márcio Rodrigo Ribas, a patrulha pelas ruas é feita aproximadamente seis vezes por dias, cada uma com duração de duas a quatro horas.
“Sem dúvida nenhuma, no Haiti como um todo, esta é a área com maior criminalidade. A gente observa por aqui confrontos entre gangues e sempre com política envolvida. Isso porque, se um político dominar certa região, ele tem voto para ele. Então, ele financia o chefe da gangue e eles tentam conquistar votos e poder naquela região, por meio do uso da força.”, afirma.
Segundo o próprio Exército brasileiro, os três últimos incidentes criminosos de maior proporção registrados naquela região até a visita da reportagem, há um mês, ocorreram em agosto, janeiro e fevereiro, ou seja, três em um intervalo de sete meses.
Sem perspectiva do início da retirada das tropas antes de 2015, cabo Félix e seus colegas seguem na rotina de carregar mais de 20 quilos de equipamentos, entre colete, capacete e armamento, enquanto vigiam Cité Soleil. “A patrulha dura três horas e, nesse período, a gente roda o bairro de diferentes maneiras. É muito calor, o sol sempre está forte, o equipamento também é muito quente e pesado”, conta.
Os haitianos
O comportamento da população durante a passagem dos fardados pelas ruas e vielas varia entre a indiferença, a desconfiança, o apoio e a euforia – esta última, sobretudo dos “petit”, que nascidos há menos de 10 anos, ou seja, depois que a Minustah foi criada, cresceram acostumados à presença de fuzis e roupa camuflada.
Neste dia, no entanto, uma “arma” diferente arrancou sorrisos e gritaria durante a patrulha dos campineiros pelas ruas de Cité Soleil. Os pequenos pareciam não acreditar no que viam no visor do celular empunhado por Félix: eles próprios. Com a câmera voltada para eles, a patrulha virou, para aquelas crianças, uma festa.
Para o comandante do atual contingente brasileiro no Haiti, o coronel Anísio David de Oliveira Junior, a proximidade do contingente com a população é positiva, embora ele admita a dificuldade em estabelecer um limite entre este envolvimento e o distanciamento necessário para o cumprimento de algumas atividades.
“A nossa ideia é buscar a maior aproximação possível. Eu dei uma determinação que cada comandante de companhia traga pelo menos três líderes comunitários para almoçar comigo e conhecer a base. Nosso objetivo é realmente conhecer muito o pessoal. Eu realmente não consegui visualizar qual o limite que eu tenho que ter. Porque eu acredito que esta proximidade não tira o respeito. Na hora que eu tiver que impor a ordem, que eu tenho que fazer uma ação mais dura, eu vou fazer”, defendeu.
G1
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