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Formado em Psicologia e Especialista em Psicopatologia Psicanalítica Contemporânea pela Universidade Federal da Paraíba. Atuou na área clínica, na saúde mental e hospitalar. Exerceu o mandato de Vereador em João Pessoa por duas legislaturas e atualmente é Secretário de Transparência Pública da Prefeitura Municipal de João Pessoa.

13 ReasonsWhy e o Suicídio como Entretenimento

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publicado em 07/05/2017 às 08h12

Temos percebido ultimamente uma certa perplexidade que tem ganhado as ruas, as redes sociais e os veículos de comunicação de massa em relação ao suicídio, principalmente entre adolescentes e jovens. Para além do fato, fica evidente a limitação na qual o assunto é debatido e encarado pelas instituições da nossa sociedade, principalmente a escola e o ambiente familiar.

Apesar de um fenômeno milenar, o suicídio ganha contornos diferenciados pelo advento de novas configurações que têm caracterizado a nossa contemporaneidade, com mudanças substanciais nas formas de gozo e na ordenação simbólica que outrora sustentou as relações dos sujeitos na cultura, arenúnciapulsionalnecessária para a vida em sociedade e até mesmo o papel regulatório das instituições mais tradicionais no cotidiano das pessoas.

Em O Mal Estar na Civilização, texto de 1930, Freud já contextualizara a intenção humana aliada ao avanço da ciência de sempre produzir objetos que estivessem ao alcance dos seus ideais. Ele também trata da eterna busca pela felicidade como ideal, que aponta sempre para a inalcançável completude dos sujeitos. A avassaladora e instantânea primazia dos instrumentos tecnológicos, as intervenções no corpo para enquadramento em padrões estéticos eo aumento assustador do consumo de psicofármacos,são contornos deste cotidiano no qual emerge o sujeito contemporâneo eque parece já nos dizer ou sinalizar para este cenário mal(dito) já preconizado anteriormente. Um cenário onde a cena sempre parece ser mais protagonista do que os sujeitos nela envolvidos.

É neste palco que a estreia da primeira temporada da série “13 ReasonsWhy” se dissemina. Produção do Netflix, que se baseou no livro de Jay Asher e lançada mundialmente no final de março, a série tem gerado muita polêmica e já é considerada um dos grandes sucessos do serviço de streaming, que é detentor de uma fiel clientela de quase 100 milhões de assinantes em todo mundo.

A série aborda o suicídio de Hannah Baker, uma garota de 17 anos, vítima de bullying, assédio e abuso sexual, praticados sempre em ambiente escolar ou derivado deste. Antes da passagem ao ato, a vítima grava 13 fitas cassetes, cada uma direcionada a alguém que teria tido responsabilidade direta no acúmulo de frustrações e abusos sofridos ao longo do conturbado período de adaptação na nova escola. A narrativa tem continuidade com a teatralização quase paranoica da responsabilização do outro, apesar de claramente Hannah se afastar de um quadro psicótico ou de um aparente transtorno depressivo. Mesmo não se furtando de expor cenas fortes e impactantes, em alguns momentos, a série parece tratar o suicídio como entretenimento e a suposta motivação como um jogo de enigmas que, não fosse um cadáver rondando o ambiente da escola, poderia ser confundida com mais uma série de mistérios que envolvem jovens e adolescentes envoltos com a descoberta do mundo e das suas sexualidades.

Mas a série impressiona sob outros aspectos que demonstram a incidência do uso abusivo de álcool e outras drogas entre os adolescentes, o bullyng virtual que expõe a intimidade da vítima e inicia o seu drama pessoal, pouco compartilhado em vida e menos ainda absorvida pela escola, pela família ou por qualquer outra instituição ou profissional que a acolha no decorrer da trama. Além disso, um fato que tem se destacado menos nas críticas, nos comentários e na repercussão da série, mas não menos importante nos desfechos: duas das principais adolescentes protagonistas, Hannah Baker e Jessica Daves, são estupradas por um dos colegas de escola. A liderança, a hierarquia, a popularidade, o acesso fácil às drogas, o alto poder aquisitivo, se incorporam na figura fálica do agressor que parece silenciar quase que totalmente os que o rodeiam.

Este silêncio é apenas interrompido epicamente e a posteriori pelo grito da suicida que em tom de denúncia, busca fazer o efeito que fora direcionado como última tentativa e negligenciado pelo setor de aconselhamento da escola. Nesta cena, Hannah Baker parece pôr à prova aquilo que escapa da sua subjetividade e a consequente insuficiência da instituição. Ou seria das instituições?  Para construir a sua certezaeexcluir qualquer mal entendido, esta é a única passagem das 13 fitas cassetes em que se pode ouvir uma outra voz, a voz da recusa que simboliza o declínio da instituição educacional.

Também é simbólico notar, que em um cenário rodeado de impactos dos novos tempos, a protagonista devastada pelo sofrimento, pelo insulto e pelos abusos, escolha exatamente a mais arcaica ou talvez tradicional forma de falar e ser escutada através de fitas cassetes, guardadas em uma velha caixa de sapato. A fala,a voz, sufocada por algum tempo, não direcionada em vida e trazendo efeito apenas a posteriori, apesar defazer parte da narrativa, aponta ainda para um caminho que deveria ser percorrido e sinaliza para uma saída possibilitada pela implicação da fala da sua singularidade. Quando em poucos momentosexiste o endereçamento, não existe compreensão da dimensão do que é trazido, levando Hannah Baker à concretização do ato de suicídio.

Um fato curioso é que das 13 fitas gravadas, cada uma endereçada a alguém do círculo de convivência de Hannah Baker, nenhuma delas se dirige aos pais da adolescente, que se surpreendem com o ato da filha e sequer direito ao deciframento do enigma tiveram. Mesmo não demonstrando ter uma relação conflituosa, a adolescente prescinde dos pais, que somente começam a saber da verdade de Hannah na sala do Tribunal, já no final do último capítulo da temporada, quando também se noticia uma tentativa de suicídio, vitimando gravemente um dos colegas,destinatário de uma das fitas.

Para além da audiência da série, as estatísticas de suicídio são alarmantes em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a cada ano, 800 mil pessoas cometem suicídio e o Brasil responde com mais de 10 mil casos anuais. Na faixa etária de 15 a 19 anos, se registrou no nosso país entre 2000 e 2012 um aumento significativo de mortes, que chegaram a triplicarse compararmos à média nacional geral. O fato é que o suicídio já ganha contornos de epidemia, sendo a segunda maior causa de mortes no mundo se ampliarmos a faixa etária para pessoas dos 15 aos 29 anos.

Mas há que se diferenciar o que se repete nas estatísticas,da forma quase que romantizada do suicídio abordado pela Netflix na série. Em torno de 90% das pessoas que cometem suicídio, este se caracteriza como uma passagem ao ato decorrente de uma urgência subjetiva gerada por transtornos mentais, que apesar de incertos em seus diagnósticos, trazem um despedaçamento psíquico e uma devastação muitas vezes depreciativa do sujeito. Não se deve negligenciar, muito menos parametrizar os graus de sofrimento singular de cada um, mas é sempre importante marcar esta diferença.

Por fim, podemos dar um sentido, ou mais de 13 razões ou porquês ao que é trazido pela série. O psicanalista Jorge Forbes, em um esforço de compreensão do universo do jovem contemporâneo,afirma que a lógica do diálogo, do entendimento racional está dando lugar aos monólogos articulados, conectados à outra ordem. Sejamos capazes então de ouvir estes monólogos e não deixar escapar, nos façamos endereçar, sob pena de perdermos para um gravador de fitas cassetes.

Ubiratan Pereira de Oliveira

Psicólogo

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