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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: [email protected]

O Encontro com Cristo

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publicado em 28/08/2025 ás 20h56

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AS igrejas cristãs há algum tempo realizam reuniões de grupos para congregar a comunidade cristã em todos os seus segmentos; casais, jovens e crianças. O propósito aqui é analisar o Encontro de jovens com Cristo (EJC). Observo que esses encontros são uma forma de abordar os problemas das pessoas e ajustá-las dentro dos princípios cristãos de que estão desviadas.

O Encontro de Jovens com Cristo (EJC): “ é um movimento de evangelização da Igreja Católica destinado a jovens, com o objetivo de proporcionar um encontro pessoal com Jesus Cristo, fortalecer a fé e promover a vivência comunitária na igreja. Descobrir e oportunizar que os jovens se tornem líderes e que possam assumir pastorais e evangelização em suas paróquias. Destinado a jovens de 18 a 28 anos, é um retiro, geralmente com duração de um final de semana, onde os jovens participam de atividades, palestras, dinâmicas e momentos de reflexão para aprofundar sua relação com Deus e com a comunidade”.

Como acontece? Os jovens vão vivenciar uma experiência pessoal com Cristo, que os levará a despertar a consciência para a fé, através de momentos de oração e meditação para o seguimento do Evangelho. O desenvolvimento do EJC ocorre através de conferências de pessoas convidadas que abordam a fé, a vida cristã e as vicissitudes e a problemática que muitas vezes são enfrentadas pela juventude. Chama a atenção para que vivam sua fé de forma mais profunda, com o intuito de prepará-los a enfrentarem os desafios da juventude e vivenciar os valores do Evangelho, participando das promoções pastorais e movimentos da igreja, integrando-os na vida da comunidade paroquial, uma vez que a iniciativa do encontro é proporcionada por cada paróquia, particularmente, ao mesmo tempo em que fortalece os laços de amizade e fraternidade entre eles. Isto é incentivado por dinâmicas em grupo que buscam promover integração, discussões e troca de experiências com os demais participantes.

Quando ocorre? Geralmente aos finais de semana, onde os jovens se despojam de todas suas ocupações para dedicar-se inteiramente aquele tempo a Deus, com orações que podem ser individuais ou comunitárias. O jovem poderá ser convidado ou ele mesmo demostre a vontade de inscrever-se.

Fiz este preâmbulo para contextualizar a história que vou abordar que se refere a um casal amigo que é muito atuante e engajado nos movimentos da Igreja Católica com relação aos Encontros de Casais com Cristo. Conversando com Marina ela contou-me que esta semana havia ocorrido um fato que parecia que era coisa de Deus. E relatou.

Pedro e Marina, recebem um telefonema da amiga Magali convidando para participar, como casal pai de um jovem no EJC que ia haver em sua paróquia. O número de jovens estava grande, todos os casais haviam já se comprometido com os jovens inscritos e tinha sobrado um que faltava o casal para adotá-lo e, se não fosse encontrado, iria ficar de fora do evento. Diante da situação Magali lembrou-se dos amigos Marina e Pedro. Mesmo pertencente a outra paroquia o casal poderia fazê-lo, se assim aceitasse o convite, e Sergio seria integrado ao encontro.  A princípio, Marina relutou porque na sua paroquia já assumira bastante encargo e que também dependia da resolução de seu esposo, que se encontrava atarefado.  Magali garantiu a Marina que falaria com Pedro e na certeza que ele aceitaria. Pedro, apesar de ponderar sua participação terminou cedendo à pressão de Magali que era uma amiga querida de várias décadas. Decidiram então participar.

Tomaram, então, a iniciativa de ligar para a mãe de Sergio. Ao falar com dona Laura perceberam que estava sempre preocupada em dizer que era uma pessoa simples, humilde e que não se admirassem. Eles respondiam “não se preocupe, não, que nós também somos simples”. Terminou que combinaram para se encontrar no domingo, dia dos pais, porque no próximo final de semana tinham viagem programada e no final da semana seguinte já seria realizado o encontro.  Assim, rumaram para a casa de Sergio que já os esperava. No caminho, Pedro e Marina foram resmungando e arrependidos em ter aceitado, pois seriam gastos que não estavam programados e o encontro sempre requer despesas com gasolina, taxas do encontro, lembrancinhas e lanches e quem banca é o casal que assumiu a adoção do jovem. Ao se aproximar do bairro ficaram a perguntar onde era aquele endereço que tinham em mão. Foram informados e ao se depararem ficaram chocados com a pobreza do lugar. A casa do rapaz ficava numa entoca, mal dava para passar o carro. Nesse contexto Pedro já fala para Marina: veja onde nós viemos nos meter? Saltaram do carro e se dirigiram a casa e realmente constataram um ambiente muito pobre, e segundo Marina, que era acostumada a frequentar as casas de jovens pobres, que realizavam encontros, disse que nunca tinha se deparado com tanta carência. A primeira coisa que lhe chamou atenção foi o que existia sobre a mesa: um pedaço de bolo baeta, dois pães, um pouco de queijo mozzarella, uma garrafa de café e uma jarra de suco. A mesa, de plástico, já envelhecida, continha quatro cadeiras. Não havia portas, mas, sim, cortinas de cetim. Apesar de chamar atenção tanta pobreza, mas, ao mesmo tempo, pareciam pessoas felizes e muito acolhedoras, a todo tempo muito receptivos. Uma coisa ficou evidente durante a permanência na casa: a afluência dos vizinhos no entra e sai para ver quem era aquele casal que chegou naquele carro, davam bom-dia cumprimentavam-se e D. Laura, os apresentava, saiam, entravam outros e assim foi durante a permanência do casal na casa. Constataram que eles consideravam a sua presença como muito importante.

A visita que sempre costumavam fazer nunca excedia a 15 minutos, mas nessa passaram mais de 40 minutos, isto devido ao ambiente acolhedor. Durante os diálogos foram surgindo questionamentos, esclarecimentos, explicações esclarecedoras para que se conhecessem melhor. Marina perguntou: Por que Sergio preferiu paroquia tão distante da casa dele? Uma vez que era perceptível a diferença da classe social.  Sergio respondeu que foi um amigo que fez a inscrição dele e sempre sentiu vontade de realizar o EJC e tanto é que tinha se inscrito em mais de três paroquias.  E sempre se inscrevia, mas nunca havia sido chamado, tanto que ele ficou surpreso quando recebeu o telefonema de Marina comunicando o seu aceite da inscrição. Diz ele que pensou que ia acontecer como havia ocorrido outras vezes. Quando isto foi colocado pensamos, avaliando: Se tivéssemos dado o não, mais uma vez este jovem não teria oportunidade de realizá-lo. Disse-me Marina que no coração bateu aquele arrependimento, pareceu que este fato veio como resposta ao pensar de ter dado o não como pretendiam e não tivessem ido buscar este jovem?

Durante o desenrolar dessa conversa Laura colocou as dificuldades que enfrenta. No momento não trabalha, está tentando se “encostar” porque encontra-se com um problema de coluna muito sério. Isto resultado de muita batalha que encarou toda vida para criar os três filhos.  O mais velho, que é Sergio, seu pai o havia abandonado quando ainda estava no seu ventre. Era alcoólatra contumaz e alegava que Sergio não era seu filho. Nunca assumiu sua paternidade e ela criou-o sozinha. Agora, com esse encontro, surgia a oportunidade de ter os pais adotivos que tanto sonhou. Falou ainda Laura que quando Sergio tinha quatro anos de idade ela conheceu o pai dos outros dois irmãos dele. Com o pai dos irmãos viveu 12 anos, porém ele também era alcoólatra e a agredia fisicamente. Esta situação era vivenciada por Sergio que ao fazer 16 anos arranjou um emprego numa barbearia, pois tinha feito um curso no SENAC e se encontrava habilitado para assumir o trabalho. E já empregado, ganhando dinheiro, deu apoio a mãe incentivando-a para que deixasse o seu marido, prometendo que ia trabalhar e nunca mais iria faltar nada em sua casa.  E assim ela conseguiu forças para se separar do marido. Sergio, a partir daquele momento, assumiu a casa ajudando a mãe e os irmãos e até hoje, já com 21 anos, sustenta a casa e ajuda a mãe.

Na sexta-feira à noite Marina e Pedro foram apanhá-lo para levá-lo ao local do evento. Encontraram-no ansioso, naquela expectativa, curioso para ver o que iria acontecer. A noite da sexta feira é mais para o contato e aclimatar o jovem nas reuniões, familiarizando-o com o grupo a que iria integrar-se. No dia seguinte é que iniciaram os trabalhos de reflexão e oração. Às 22:30, durante a volta para casa, começaram a conversar   e ele relatava que paga a casa, a luz e a feira; é quem banca a casa. O casal teve a impressão que Sergio era um rapaz bom, lutador, calmo, educado e sonha vencer na vida. Comovente o seu viver. Eles incentivaram a continuar os estudos, pois ele só tem o segundo grau e os estudos iriam oferecer mais condições. Todavia justificou que essa situação de pobreza foi que fez ele com 16 anos, engajar-se no mercado de trabalho. Pensa colocar uma barbearia no mesmo bairro, porque é o oficio que domina e está apto a exercê-lo.

No sábado, às 7 horas, Marina e Pedro estavam pegando Sergio para levar para o encontro. Eles disseram que percebiam a alegria e satisfação que irradiava em estar participando desse evento. Na conversa no carro ele ia desnudando a vida dura que tinha. Marina e esposo aproveitavam para reforçar a importância do estudo na sua vida e isto seria condição indispensável para poder provocar as mudanças que tanto desejava. Enquanto Sergio ficou no encontro Marina elaborou um álbum que marcava a trajetória de sua vida até aquele momento. Embora extremamente pobre, percebe-se que a mãe é dotada de princípios que durante o seu desenvolvimento procurou educá-lo na religião, cumprindo os preceitos e sacramentos. Batizou, fez a primeira comunhão, frequenta a missa, e constata-se o respeito e a educação no trato. Tem uma namorada e pretendem casar quando tiverem condições. No bate-papo com alguns vizinhos pudera observar a admiração e o bom conceito emitido por eles a seu respeito, como pessoas que o conheceram desde criança.

Noite do domingo, às 22 horas, os familiares o receberam com um lanche oferecido pelos parentes, amigos e os pais adotivos em Cristo. A casa encontrava-se em festa, toda enfeitada, com bolas e cartazes receptivos de boas-vindas, expressando amor que tinham por ele. Na recepção estava um casal que foi vizinho e que hoje mora em outro bairro e o conhecia desde criança, sua namorada, a família e um tio que também mora com eles e os irmãos. Durante a simples cerimonia Sergio proferiu algumas palavras dizendo de sua felicidade em poder ter participado daquele evento e estava muito agradecido a seus pais adotivos em Cristo, pela sensibilidade neles existente, o desprendimento em darem assistência e a dedicação do casal Marina e Pedro. Com esse acontecimento pôde realizar o sonho que era alimentado por toda sua vida. O EJC levou-o a profundas reflexões, mexeu com sua alma e com o mais íntimo que havia em seu âmago. Meditou sobre sua vida e as ligações que tem com Deus como um braço forte a sustentá-lo. Escutou a voz de Deus e uma coisa que mais o tocou no fundo do coração foi o gesto do perdão, já que guardava no seu âmago revolta e ressentimento, principalmente de seu genitor que o tinha abandonado quando ainda nem havia   nascido. Na conversa mais profunda que manteve consigo mesmo, naquela solidão íntima da meditação com Deus, viu que Ele mostrava os caminhos que deveriam ser seguidos e os equívocos cometidos que nortearam as suas ações e estava pronto a despojar-se e jogar fora suas mágoas do passado com relação a seu pai e encontrava-se disposto a recebê-lo de braços abertos para que pudesse dar início a construção de uma nova história em sua vida. Disse ainda: o EJC irá constituir um marco e um momento único que nunca irá se repetir. Apesar dos participantes não o conhecerem, foi bem acolhido por todos que lá se encontravam e que faziam brotar gestos de carinho e amor que tinham pelas pessoas e ele se sentiu amado, levando consigo vários propósitos a serem seguidos em busca da perfeição humana e isto lhe faz muito feliz e a palavra que tem para todos é Gratidão!

Mais uma vez vemos um jovem buscar consolidar-se no caminho do bem e verifica-se que são poucas as oportunidades que encontra. A religião católica, como outras evangélicas, nesse momento que vivemos, tentam atrair os jovens procurando dar um encaminhamento para que possam fugir da perversão e da bandidagem, já que, são incentivados para as drogas e caminhos mais fáceis de serem percorridos. Isto enfeitiçados pela propaganda enganosa do ganhar fácil e tudo é resolvido, sem que se empregue nenhum esforço e nem o suor do rosto para adquiri-lo. Por notícias, conceitos, princípios, modas e valores tão diversos e contraditórios que acabam paralisando por não saberem o que optar. “Pode mais quem tem mais, não interessa os meios para se chegar ao êxito”.

Cremos que esses EJC se constituem numa ferramenta utilizada pelas religiões no sentido de direcionar e dar outro rumo aos jovens, chegando mesmo a completar a ação educacional da família, que, devido ao labutar da vida, deixa lacunas que estão sendo preenchidas pela Igreja. Mantêm esses jovens integrados e ocupados com ações coletivas sadias, movimentos pastorais e de grupos onde são incentivados à prática do bem, criar uma consciência sobre a necessidade de preparo individual para o enfrentamento de temáticas próprias do tempo da juventude, como: drogas, prostituição, corrupção, violência, namoro e sexualidade, conflitos na convivência familiar, dentre outros.

A igreja, no meu entender, está exercendo um papel importantíssimo na formação dos jovens na sociedade contemporânea, contribuindo para a transformação e solução da problemática. Nesse mundo pós-moderno vemos proclamado a toda hora que os jovens estão perdidos, sem rumo e desencontrados nessa loucura onde se buscam referências e parâmetros sociais de comportamento a serem seguidos. “Quem ama cuida” dizia Lya Luft. Outros EJC devem ser incentivados. Parabéns às Igrejas Cristãs!

Profª. Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP

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