João Pessoa, 21 de setembro de 2014 | --ºC / --ºC
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Com inflação mais alta, crédito restrito, juros maiores e piora do mercado de trabalho, o consumo dessa, que sustentou a economia nos últimos anos,perde o fôlego e tende a declinar ainda mais nos próximos meses.
A nova realidade mostra queda de 15% (acima da média) das vendas de carros populares e redução de 4,5% no valor das recargas de celulares pré-pagos da TIM no segundo semestre –operadora líder nesse segmento.
Movido pela ascensão da classe C, até 2012 o mercado de higiene e beleza crescia a dois dígitos, ritmo que começou a mudar em 2013. Dados mais recentes da Nielsen mostram que as vendas do setor nos supermercados cresceram 4,8% no segundo trimestre deste ano, abaixo dos 6,4% do primeiro trimestre.
"O esforço tem sido maior para manter vendas", diz Cesar Tsukuda, diretor da Beauty Fair, feira anual do setor.
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, "não há mais espaço para os fortes ganhos de renda que tivemos no passado".
"Não há mais tanto espaço para o desemprego para cair. A formalidade parou de subir e o salário mínimo não tem margem para elevações tão significativas como as dos últimos anos."
CARRO – Na casa da empregada doméstica Maria Elizabeth de Morais, 55, chegaram nos últimos anos geladeira, TV, micro-ondas e guarda-roupas.
"Fui comprando uma coisa por vez. Tudo parcelado."
Neste ano, recebeu uma herança e planejou a compra do carro com o recurso, que adicionaria ao décimo terceiro salário e às férias.
Ao fazer as contas, porém, concluiu que a despesa que passaria a ter com IPVA, seguro e combustível não era compatível com o dinheiro que sobra no fim do mês.
Hoje, supermercado, feira e farmácia consomem parte considerável da renda mensal, restando pouco para o supérfluo. Até o crédito do celular pré-pago foi racionado.
"Diminuí o plano. Pagava R$ 25 e agora só ponho R$ 15."
CELULAR – Item considerado de primeira necessidade para a secretária Maria do Socorro da Silva, 30, o celular foi trocado com frequência nos últimos anos. "Tive muitos celulares, acho que uns dez nos últimos três anos. Sempre queria o melhor, mas agora só comprei porque fui roubada no caminho do trabalho."
O mercado de eletroeletrônicos, que também se beneficiou da avidez da classe média, já registra queda, segundo a Eletros (associação do setor). A entidade não segmenta resultados por classe social, mas indica que a venda da linha branca (refrigeradores, lavadoras e fogões) caiu 5% no primeiro semestre ante igual período de 2013.
O universitário Felipe Ribeiro, 21, sentiu o ritmo mais lento da economia quando seu contrato de estágio acabou há quatro meses. Ainda não conseguiu se recolocar.
Suspendeu a primeira viagem à Europa e a compra do carro: "Financiar ficou difícil com os juros altos". Na vida noturna, menos bares.
Ribeiro relata que a família freou o consumo. "As lojas de eletrodomésticos têm dado incentivo com promoções, mas agora não é hora. Vamos esperar passar a recessão para voltar a comprar."
Folha
TV NORTE PARAÍBA - 30/04/2026