João Pessoa, 26 de setembro de 2014 | --ºC / --ºC
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Considerada um dos maiores parques gráficos do país, a Secretaria Especial de Editoração e Publicações, conhecida nacionalmente como Gráfica do Senado, tornou-se alvo de uma ação trabalhista de 2,7 milhões de reais. Vinte e três servidores terceirizados acusam formalmente a instituição de usar, ao longo de décadas, gasolina, querosene e até chumbo na preparação de linotipos e tintas para chapas de impressão offset. Os gráficos afirmam que, encerrado o trabalho, são obrigados a limpar os equipamentos com pistolas de solventes semelhantes às que são usadas em lava-jatos. A rotina dessa labuta insalubre resultou na contaminação de mais de uma centena de funcionários, conforme laudos médicos anexados ao processo.
Dos 23 profissionais que fazem a acusação, nove contrataram o renomado escritório do advogado Luís Felipe Belmonte. Na semana passada, eles entraram com uma ação contra o Senado, mantenedor da gráfica, no Tribunal de Justiça do Trabalho. Cada um pede 300 000 reais de indenização. Os outros catorze envolvidos ainda preparam provas para formalizar novas ações judiciais. O maior trunfo dos servidores está em diversos exames de sangue e urina que comprovam a contaminação. Tais laudos são assinados pelo toxicologista Otávio Américo Brasil, contratado pelo próprio Senado para fazer a perícia após uma queixa na década de 90. Em um dos documentos, o médico classifica como “gravíssima” a situação dos profissionais que trabalham na linha de produção. “Todos os funcionários do parque gráfico apresentam altíssimos níveis de chumbo, benzeno, álcool isopropílico e outros agentes tóxicos e cancerígenos no sangue e na urina”, atesta o médico.
Um dos autores da ação, o gráfico Francisco Augusto Raulino manuseia solventes nas máquinas que opera há dezoito anos. Ele, que ganha 1 800 reais por mês, usa material inflamável para limpar a tinta das bobinas sempre que inicia uma nova impressão e quando encerra o expediente. De acordo com laudo do médico Jorge Mesquita Machado, o servidor tem comprometimento das funções cardíacas e intoxicação crônica provocada por solventes orgânicos. “Todas as vezes que limpo o maquinário com esses produtos, fico com dor de cabeça e fraqueza”, queixa-se.
Procurado por VEJA BRASÍLIA, o Senado não se pronunciou sobre o caso. A advogada que defende as vítimas, Luiza Mascarin, já avisou aos gráficos que a ação deve se arrastar por uma década. “Temos imagens fortes que mostram o uso de solventes sem nenhum equipamento de proteção”, afirma a advogada, que poderá se tornar uma espécie de Erin Brockovich do cerrado.
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TV NORTE PARAÍBA - 30/04/2026