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Fotos – Eduardo da Matta
Em 2025, o cantor ZéVitor conversou com o MaisPB sobre seu quarto álbum “Imago Mundi”, que traz entre os destaques a reflexiva a canção “Deixe-me Ir”. Com dez faixas, o álbum de estúdio do artista marca uma fase que mistura influências regionais, medievais e universais, buscando raízes brasileiras com inovações musicais.
Em abril deste ZéVitor lançou o single ´Deixe-me Ir´ com Xande de Pilares, que você pode conferir aqui. As canções do álbum completo e outros trabalhos estão disponíveis nas principais plataformas de streaming.

Na nova gravação de “Deixe-me Ir” percebe-se, além da de Xande de Pilares — um bamba do samba da atualidade –, toda sua potência vocal, quando vira um interlocutor que canta pelo cessar da violência.
A produção é de Áureo Gandur, responsável ainda pelos arranjos, ao lado de Iuri Nascimento e ZéVitor, que deixaram a música como um maxixe moderno. Em termos sonoros, percebe-se um oficleide — instrumento da família dos sopros que parou de ser fabricado em 1900 — dialogando com uma viola nordestina e percussões variadas.
Tudo coeso e fundamental. O artista é filho do ator Jackson Antunes.

MaisPB – cara, nunca mais tinha visto um single assim, atual, os versos, os mísseis, o nosso destino feroz e a canção busca a velha libertação. Bora começar por aqui?
ZéVitor – Você foi certeiro em dizer sobre a “velha libertação”… deve ser síndrome do ser humano que vive a vida preso numa bola flutuante no espaço, preso dentro do corpo, das limitações impostas pela natureza e pela realidade… de fato, nem o tema da liberdade nem das guerras são novos… mas é inegável perceber como desde a pandemia o mundo se tornou um pouco menos diplomático do que fingia ser… eu infelizmente acho que essa canção é uma narrativa crua dos nossos tempos contemporâneos onde é o sonho no bolso, a bandeira na mão e não ter tez de paz…
MaisPB – Como aconteceu a construção dessa canção – por ali, acolá?
ZéVitor – Por ali veio a necessidade de dar voz à angústia bélica e por lá a sorte das palavras dizerem o que incomoda ao coração… essa música passou por transformações ao longo do processo de feitura até achar a melodia ideal em suas frases. Eu queria muito quando comecei a esboçar primariamente sozinho essa canção, que pudesse acontecer um filme com a escuta… que essas frases pouco a pouco desvelassem a visão para as cenas narradas e que toda violência pudesse parecer uma escolha equivocada… a súplica “deixe-me ir” se repete na exaustão de quem sabe que não adianta gritar pois ninguém socorre.
MaisPB – Sim, é uma canção política que o mundo inteiro precisa ouvir, estou certo?
ZéVitor – Eu tenho afeição por canções de protesto, que tentam dizer algo que está na nossa cara demais para ser visto e já se tornou normal o suficiente pra não parecer absurdo… a nossa herança musical está repleta de canções que possuíam papel social e político além de filosófico… tenho a convicção de que a música não existe exclusiva ao divertimento, acredito que ela se faz necessária quando arauta de transformações: diz o que pode não ser tão popular num piscar de olhos… mas se faz jornalística ao futuro, narra um retrato e um estado da sociedade… e às vezes por sorte ou destino faz algum movimento imediato.
MaisPB – O videoclipe é emocionante, em preto e branco e parece um filme, cenas fortes. Vamos falar dessa arte misturada aos personagens, as pancadas e cobranças da sua música?
ZéVitor – Eu queria que isso parecesse um filme descoberto em mau estado, que parecesse que foi desenterrado e recuperado… e ali se descobrisse algo… imagens de um afeto, uma lembrança de meu pai no estúdio comigo, de minha mãe… de tudo isso que o tempo leva… dos meus amigos/irmãos que dividem música comigo… do encontro generoso com um artista gigante como Xande, que carrega em sua voz raiz de tantas outras… a intenção foi fazer essa memória em cápsula de vídeo… quem sabe um dia descobrirão no futuro… Desde Imago Mundi venho trabalhando com essa equipe que tem sensibilidade de sobra, foi dirigido e montado por Marcus Ramos Frota, com direção de fotografia de Eduardo da Matta e imagens de Mateus Cony e Gabriel Pamplona.
MaisPB – Como aconteceu o convite para Xande de Pilares participar deste single ´Deixe-me Ir´?
ZéVitor – Eu tive o privilégio do Xande ouvir o meu disco Imago Mundi, e a alegria maior ainda de escutá-lo num áudio cantarolando a música deixe-me ir… ali foi-me impossível por toda felicidade não imaginar instantaneamente a possibilidade de uma versão dividida com ele… o disco estava para completar um ano e mesmo julgando cedo para uma versão, as circunstâncias não me deixaram outra ação, senão erguer todo esse novo conceito para fazer um convite mais que especial.
MaisPB – A faixa foi composta antes da guerra da Ucrânia e o mundo está em guerra… O que ZéVitor poderia comentar sobre esse tempo tempestuoso?
ZéVitor – Kubi se eu posso ser sincero com você, eu tenho dificuldade de acreditar que exista um paraíso externo possível nesses nossos tempos modernos, com muito custo se é possível ter um pouco de paz interior… que logo se vê abalada pelas crises da vida… eu quando ouço as passagens do Srimad Bhagavatam e os problemas dessa era que vivemos de Kali Yuga não consigo deixar de admirar a sabedoria dos antigos… diz-se sobre a nossa época que: “só a riqueza será considerada sinal de bom nascimento e que a lei e a justiça serão aplicadas com base no poder do indivíduo… que as atrações serão superficiais e o sucesso no negócio dependerá de fraudes para prosperar… a posição espiritual será determinada somente por símbolos externos e considerar-se-á um intelectual erudito quem for muito esperto em malabarismo verbal… a pessoa será profana se não tiver dinheiro e a hipocrisia será aceita como virtude…” quando nas leituras me dou de frente com essas palavras penso que vivemos tempos perigosos nesse planeta.
MaisPB – Esse single saiu do repertório de seu novo disco Imago Mundi? Conta pra gente…
ZéVitor – Eu sou suspeito de falar das canções desse disco, eu já gostava muito da versão original… Fiquei curioso sobre como poderíamos fazer isso… sigo trabalhando com o Aureo Gandur que é meu parceiro de composição nessa música e foi produtor dessas duas versões… tivemos a companhia ainda de Iuri Nascimento na elaboração do arranjo e Ian Moreira nas percussões… Não queria fazer um samba como quem tenta parecer que pertence a um lugar que não pertence, então a escolha dos instrumentos foi um dos primeiros filtros para delimitar um lugar para se trabalhar, queríamos encontrar esse passado se precipitando pro futuro… Trazer o Oficleide (instrumento da família dos sopros – séc. XIX) gravado por Everson Moraes para dialogar com uma viola nordestina na tentativa de um “maxixe moderno” (nomenclatura puramente afetuosa) onde ainda se somam o Violão Tenor (eternizado por Garoto e Zé Menezes) e um violão dinâmico da Del Vecchio feito em 1930 o qual tem registros de ter sido usado pelo Exército em missões brasileiras. Esses timbres por si só já começaram a desenhar uma paisagem sonora para a música, o Ian também gravou uma cápsula de bala ponto 40 e um capacete da Segunda Guerra quando estava construindo os arranjos conosco, então incluímos essas curiosidades subvertendo suas funções primárias para uma salvação musical… ouvir o Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga pôde nos dar o refresco da modernidade que precisávamos, provando que o nosso passado musical é uma fonte da mais pura água cristalina.
MaisPB – Soube que está chegando o Vinil…
ZéVitor – Chegou. Uma felicidade, o meu primeiro vinil! Essa oportunidade de escutar com calma, sem todas as compressões do digital… uma outra experiência, de novo eu sou suspeito, mas acho que tudo do álbum está soando melhor no vinil. Me interesso muito por esse outro tempo de contato, me parece uma contracultura diante dos 3 segundos de atenção nas pequenas telas.
MaisPB
BOLETIM DA REDAÇÃO - 08/05/2026