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MaisPB entrevista

‘Gentinha’ é o novo livro do escritor Marcelo Moutinho

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publicado em 18/04/2026 ás 12h34
atualizado em 18/04/2026 ás 13h47

Kubitschek Pinheiro – MaisPB

O escritor carioca Marcelo Moutinho lançou seu 13º livro, com um título curioso e popularesco ´Gentinha´,  com selo da Record – uma coletânea com dezesseis histórias inéditas e incríveis –  arrancadas das suas andanças e do olhar grudado em vários cantos do Rio de Janeiro, da periferia aos bairros de classe média, do Leme ao Pontal e tal.

O  livro é muito bom, dividido entre esquinas, apartamentos, unguentos e corpos perfumados. Moutinho constrói os personagens do cotidiano de um país despedaçado entre janelas indiscretas de seres ou não seres que surgem em ritmo de cinema, gente comum, gente do meio, gente de risco, gente de riba e gente de baixo, gente pra frente, gente, muita gente.

Excelente contista, Moutinho foi premiado com ´Ferrugem´ (também com selo da Record) pela Fundação Biblioteca Nacional na categoria Conto e  seu livro ´A lua na caixa d’água (Malê, 2021) ganhou o Jabuti na categoria Crônica.

Moutinho é autor de outros livros ´Bens Culturais e Projetos Sociais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil´ (CPDOC) da FGV e especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio.

O autor conversou com o MaisPB e fala mais da obra – disse que já esteve na Paraíba e quer voltar para lançar ´Gentinha´ – “Para voltar à Paraíba, é só chamar e pôr a cerveja no gelo”.

Capa do livro “Gentinha”

MaisPB – “Gentinha” é incrível, que se costuma dizer no sertão, Gentalha – os contos parecem romances curtos com narrativas da banalidade do dia a dia. Estou certo?

Marcelo Moutinho – Sim, as 16 narrativas falam muito sobre a suposta banalidade do dia a dia, talvez mostrando que o cotidiano não é tão banal assim. Mas acho que, no caso do gênero conto, há um traço que em geral não está presente no romance. Me refiro à história oculta, que se desenvolve sob o relato sob o enredo mais evidente à vista do leitor. Gosto dessa característica do conto de estar sempre na tensão entre a linha e a entrelinha.

MaisPB – Aliás, o conteúdo e os personagens lembram a vida como ela é, de Nelson Rodrigues, né?

Marcelo Moutinho – Talvez isso se dê pela ambientação e pela caracterização dos protagonistas das histórias. Os contos de “Gentinha” estão centrados basicamente em personagens das classes menos favorecidas, ou de uma classe média que, em geral, se encontra fora das bolhas da elite cultural brasileira. São tipos para quem muitas vezes aqueles que se julgam mais progressistas olham com certo menosprezo, impingindo-lhes a pecha de “grosseiros” ou “cafonas”. Nelson tinha interesse pelo universo e o descreveu com sarcasmo e picardia. De minha parte, penso que há muita tensão, mas também humor nos 16 contos do livro.

 MaisPB – Engraçado é que os popularescos trazem uma riqueza  nas cenas, de histórias, e são tantos,  tantas, adorei Fatinha e o Carlos, que nunca foi Carlos…. bora falar sobre isso?

Marcelo Moutinho – Há uma ideia equivocada de que as pessoas não intelectualizadas não têm vidas ricas sob o ponto de vista da experiência cotidiana, das relações amorosas, do drama existencial. Isso porque, na verdade, o Brasil é muito fechado em bolhas; há pouco trânsito entre as classes sociais. Meu trabalho, tanto na crônica quanto no conto, é tentar desmontar essa ideia. Iluminar a dor e delícia de vidas aparentemente ordinárias, botar esses personagens sob o holofote principal, e não na posição de coadjuvante em que costumam ser colocados quando o relato não é sobre falta de recursos ou violência. Como bem observa o Geovani Martins na quarta capa do livro, “essa gentinha somos nós”.

MaisPB –  ´Gentinha´ mostra que a classe média tem seus momentos, rompantes e que apronta mais que a ralé que matou Cristo, não é?

Marcelo Moutinho – Com certeza. Parte do livro expõe as hipocrisias e o elitismo de parte dessa classe média. São histórias ficcionais, claro, mas que refletem um pouco da realidade urbana brasileira.

MaisPB – Outra coisa legal – nos contos muitos signos estão no contexto, como o flamengo, o embolado, tubaina, cosme e damião, papai noel e vieras grelhadas etc?

Marcelo Moutinho – Isso foi proposital. Por muito tempo houve, no Brasil uma clivagem sobre o que deveria e o que não deveria ser assunto para a literatura. O futebol mesmo, que é um fenômeno popular no país, demorou muito a aparecer com algum destaque em romances, contos e poemas. Levar para “Gentinha” a tubaína, o carnaval, a festa junina, os doces de Cosme e Damião é povoar o livro de brasilidade. Meu interesse é explodir as fronteiras entre os temas dito “sérios”, o “bom gosto”, o “descolado”, e esses signos tão presentes no dia a dia da absoluta maioria da população — aqueles que, vale dizer, são o alicerce da economia.

MaisPB – Legal o “Conto de Natal”, com expressões que escutamos no Brasil inteiro, que serviço de cu é rola

Marcelo Moutinho – Essa questão da linguagem está igualmente ligada à opção por personagens de fora das bolhas econômicas e culturais e por povoar o livro de signos populares. Busquei levar para os contos a fala da rua, aquela que ouvimos no bar, no ônibus, na fila do banco, no bordão do camelô. No caso do “Conto de Natal”, isso é levado ao paroxismo, já que os dois personagens principais, os que tentam assaltar a loja vestidos de Papai Noel, têm a dicção da malandragem contemporânea.

MaisPB –  Eu vou procurar seu livro “A lua na caixa d’água”, só pelo título, além  da exaltação ao samba e o saber das ruas, a referência a personagens como Dona Ivone Lara e Tia Maria do Jongo e dedicada a Aldir Blanc. Bora falar sobre isso?

Marcelo Moutinho – Bora. O título vem da crônica que abre o livro, uma homenagem ao Aldir Blanc. Na primeira parte, intitulada “Turbilhão de estrelas pequeninas”, estão os textos introspectivos, sobre a casa, o núcleo familiar. Na segunda, “Essa cidade pecaminosa e aflita”, as histórias tratam das esquinas, da cena urbana, e há um diálogo com cronistas de outrora, como Paulo Mendes Campos, Antônio Maria e Clarice Lispector. Diria que ´A lua na caixa d’água´ é um mosaico dos meus afetos. Traz o olhar para as coisas mínimas do cotidiano, o samba, o subúrbio, a boemia e, sobretudo, a paixão pela alma encantadora das ruas.

MaisPB –  Já veio ao Nordeste, conhece a Paraíba, venha lançar o Gentinha….

Marcelo Moutinho  – Do Nordeste, só não conheço o Maranhão. Em todos os outros estados, já estive pelo menos uma vez. E adoro. Para voltar à Paraíba, é só chamar e pôr a cerveja no gelo.