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Paraíba tem 160 mil empreendedoras e mais da metade delas são chefes de família

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publicado em 05/03/2026 ás 16h53
atualizado em 05/03/2026 ás 16h59

Mulheres que se dividem entre cuidar do negócio e da família. Assim é a realidade de metade das empreendedoras do país. De acordo com dados do Sebrae/PB, no Brasil 52,5% das donas do próprio negócio também são chefes do domicílio. Na Paraíba, o percentual sobe para 53,6%. Ainda conforme os dados da instituição, referentes a 2025, o estado somava 160 mil mulheres empreendedoras, o que corresponde a 35% dos empreendedores no estado. Em todo o país, são 10,4 milhões de empresárias.

Cuidar dos negócios e da família, e ainda administrar um tempo para cuidar de si, tornam a jornada empreendedora ainda mais desafiadora para as mulheres. Ainda assim, elas seguem no propósito de mudar as suas realidades e também serem protagonistas da economia e mudar a vida, inclusive de outras mulheres, onde residem. É o caso da empresária Wyama Medeiros, que tem uma loja de calçados no município de Pombal, no sertão paraibano.

“O maior desafio é carregar responsabilidades, financeira, emocional, estratégica, e ainda manter o sorriso e a confiança. Mas aprendi que o segredo não é ser forte o tempo todo. É ser resiliente. Conciliar empresa e vida pessoal exige organização, mas principalmente maturidade. Eu entendi que preciso cuidar de mim para cuidar do meu negócio”, conta a empreendedora.

Ela explica que a ideia de ter o próprio negócio surgiu de inquietações e da busca por produtos que unissem conforto, beleza e preço justo. Observava essa mesma dificuldade entre as amigas e familiares. Foi assim que surgiu a Pezzato. “Eu não queria apenas vender sapatos e bolsas. Eu queria oferecer autoestima. Queria que cada mulher que entrasse na loja se sentisse confiante, valorizada e capaz, tendo um espaço de escuta. Foi aí que decidi transformar essa necessidade em oportunidade. Comecei com a loja Pezatto, entendendo o comportamento das clientes, estudando tendências e construindo relacionamento”, revela Wyama.

A inspiração para a criação da empresa foi e continua sendo as mulheres que empreendem, que deixam os medos de lado e encaram os desafios do mundo empresarial. “Minha maior inspiração sempre foi a mulher empreendedora que constrói seu próprio caminho — e também a realidade da nossa região, que precisa de negócios fortes, profissionais e visionários”, acrescenta.

Força feminina – Com esse pensamento inovador e de fortalecer negócios femininos, Wyama Medeiros criou a Associação Sertanejas em Rede, sediada também em Pombal. Ela conta que ao participar da Associação Rede Delas, no município de Monteiro, no cariri paraibano, identificou a necessidade de criar um grupo forte e empenhado em crescer na sua cidade.

“Eu percebi que quando uma mulher empreende isolada, ela enfrenta mais medo. Mas quando ela empreende em rede, ela encontra força. Apoiar outras mulheres é algo que toca profundamente meu coração. Porque sei o quanto o apoio certo pode mudar uma história. Quando uma mulher cresce no seu negócio, ela transforma sua família, sua autoestima e sua comunidade. Para mim, sucesso de verdade é quando crescemos juntas”, frisou.

Um recomeço – Na outra ponta da Paraíba, no sítio Mucatu, em Pitimbu, litoral sul do estado, outra empreendedora vem transformando sua realidade e a de outras mulheres, gerando emprego e renda. Josefa Almeida, que passou mais de 40 anos vivendo da agricultura, viu no empreendedorismo um recomeço profissional.

Além de conhecer a terra como ninguém, ela tem outra habilidade: caprichar na cozinha, em especial, no preparo da tradicional galinha guisada, prato típico do Nordeste. A ideia de criar o restaurante surgiu após Josefa assistir uma reportagem na TV, que mostrava uma história semelhante à sua.

“Chegou um tempo que não pude mais trabalhar e vi uma reportagem na TV. Aquilo me incentivou a colocar um negócio e uma pessoa uma vez tinha dito para eu vender a galinha guisada. Eu tinha uma pequena economia e comecei, em 2019. No final, o restaurante nem terminou de ficar organizado, o dinheiro acabou. E aí recebi ajuda de uma pessoa para abrir”, relembra a proprietária da Chácara Cozinha da Roça.

Mesmo morando distante da cidade e em uma área rural, Josefa não desistiu do negócio. Enfrentou a pandemia da Covid, vendendo os pratos para retirada, e foi conquistando cada vez mais clientes. Hoje, com o negócio ela emprega mais sete mulheres, além de abrir espaço no restaurante para artesãs da região exporem seus produtos uma vez ao mês.

“Eu comecei a minha vida novamente com 51 anos e ninguém aqui achava que iria dar certo. E como mulher, o que me motivou, foi porque uma porta que achei para não ficar sem trabalhar. Graças a Deus que deu certo. Digo para as mulheres: não desistam de nada. A gente pode tudo”, reforça a empreendedora.

Desafios e avanços – Entre os desafios do empreendedorismo feminino estão a conciliação das jornadas, pessoal e profissional, que as mulheres encaram, além de também ter o próprio negócio por necessidade, como ocorre com a maior parte dos pequenos negócios no país. Um dos impactos disso é a informalidade. No caso dos negócios liderados por mulheres na Paraíba, a taxa é de 70,5%.

“São mulheres que têm dupla ou tripla jornada e que, por outras questões, não se preparam para ter o seu próprio negócio. Têm dificuldade de conciliar a vida pessoal com a profissional, muitas vezes, porque a vida pessoal exige muito dela, enquanto mãe e esposa. Mas, ao mesmo tempo, ela enxerga o empreender como uma forma de se empoderar e se posicionar na sociedade”, explica a gerente da Unidade de Educação Empreendedora do Sebrae/PB, Humara Medeiros.

Para a gerente, mesmo diante das dificuldades no próprio negócio, as mulheres têm encontrado seus espaços e lugar de fala. “Cada vez mais as mulheres têm voz para falar sobre suas necessidades, dores e seus avanços e conquistas. A gente percebe que as mulheres têm ocupado um lugar de destaque na sociedade. Porém, a gente precisa conquistar ainda mais espaços, porque existe uma diferenciação para várias ações. Temos que celebrar as conquistas que tivemos até aqui, mas não perder de vista o que ainda está por vir”, acrescenta Humara Medeiros.

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