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Foto – Cris Nienkötter
Com pouco mais de setenta páginas, ´Madame Psicose´ é um assombro brasileiro, mas caberá ao leitor a tarefa de identificar seus labirintos ficcionais e não-ficcionais. Tipo assim – um personagem puto da vida, cocainômano e em constante crise existencial e em abstinência aponta para tudo e todos. Loucura total.
O personagem cospe impropérios contra a academia, contra o trabalhador fodido, contra o patrão que fode com o funcionário, contra o lumpen proletariado que fode com seu colega, contra intelectuais de butique, contra a classe artística de Curitiba, contra os políticos, contra quem escreve, contra quem não escreve, e o resultado é uma prosa absolutamente vertiginosa, forte, lírica, repleta de referências que vão das fine arts à cultura pop, perversa e, claro, com um trabalho de linguagem impressionante. Tem que ler.
Um dos pontos altos de ´Madame Psicose é o fato de a narrativa não se limitar a si própria, quer dizer, não sabemos se é uma novela, um relato autobiográfico e aqui podemos pensar em Dusi, como Karl Ove Knausgard, o norueguês que frequentemente era (de forma equivocada) comparado a Proust, e que em seis volumes escreveu sobre suas experiências próprias, com nomes verdadeiros e acontecimentos reais. O que lhe custou um divórcio e vários outros rompimentos com a família.
Seu terceiro livro, ´Provocações: entrevistas – João Lucas Dusi´ em homenagem ao lendário programa do Antônio Abujamra (1932-2015), com 23 entrevistas de diferentes profissionais ligados às letras. André Sant’Anna, Reinaldo Moraes, Caetano Galindo, Luci Collin, Giovana Madalosso e Márcia Barbieri são alguns nomes que participam do conjunto
João Lucas Dusi é escritor e editor. Publicou o romance O diabo na rua (2022) e os contos de O grito da borboleta (2019); organizou Provocações (2024), em homenagem ao lendário programa do Antônio Abujamra (1932-2015), com 23 entrevistas de diferentes profissionais ligados às letras. André Sant’Anna, Reinaldo Moraes, Caetano Galindo, Luci Collin, Giovana Madalosso e Márcia Barbieri são alguns nomes que participaram do conjunto Trabalhou por anos nos jornais de literatura Cândido e Rascunho. Vive em Curitiba, Paraná. O cara é foda.

Capa do livro Madame Psicose
Em conversa com o MaisPB, João Lucas Dusi conta mais desse relacionamento tumultuado, letrado, mas resolvido, porém com ´culpa no cartório´
MaisPB – “Psicose Madame”, ou vice-versa, já é um bom tema, né?
João Lucas Dusi – O tema da psicose abre muitas portas; como se trata de um descolamento da realidade, o autor ganha um relativo passe livre para constituir um universo ficcional com maior liberdade, sem muito apego à concretude dos fatos. É claro que, mesmo investindo em uma diegese maluca, é preciso trabalhar com uma lógica interna bem elaborada para dar vazão apropriada à maluquice. Na literatura, o caos deve ser organizado; na boa ficção, a desorganização é meticulosa. No caso do meu livro mais recente, Madame Psicose, o narrador utiliza o espaço para montar um mosaico existencialista por meio de diferentes histórias breves e reflexões histriônicas, à moda de Thomas Bernhard; no final, espero, o leitor tem um recorte de uma existência complexa – que, em muitos trechos, acaba sendo planificada por conta de um discurso propositalmente unilateral, histérico, asqueroso. Enquanto autor, a escrita desse livro – ocorrida há mais de cinco anos – me serviu como base para o que viria a ser a dicção do protagonista do meu romance de estreia, O diabo na rua. De qualquer forma, minha ideia é que Madame Psicose, que tem mais a ver com psicose do que com madame, funcione por conta própria e seja uma leitura incômoda.
MaisPB – Podemos pensar que a madame é a psicose do autor?
João Lucas Dusi – O nome do livro, que é também o nome da minha editora, foi “emprestado” de uma personagem do romance Graça infinita, do David Foster Wallace. De forma metafórica, acho que a madame enquanto psicose do autor funciona melhor para meu livro anterior, O diabo na rua, que traz um personagem cuja identidade é dual. Para este livro mais recente, Madame Psicose, funciona como um nome sonoro e justifica, de alguma forma, a histeria do registro narrativo – é tudo muito urgente, assertivo, odioso; e esse verniz busca esconder, na verdade, uma voz escrava de traumas.
MaisPB – Geralmente os livros trazem realidades do autor, o cotidiano. A parte ficcional é um recheio, concorda?
João Lucas Dusi – A experiência pessoal, quando se trata de ficção urbana, conta muito; do contrário, o relato tende a ser asséptico – alguém fingindo vivências, o que acaba resultando em um esquete humorístico do Casseta & Planeta. Agora, um relato puramente pessoal se transforma num “querido diário”. Na literatura, é preciso estar atento à linguagem, e a construção do universo ficcional precisa seguir uma lógica interna para funcionar direito. O ideal é que a vivência, sujeita às limitações da realidade, seja apimentada pela liberdade da ficção sempre que necessário para a boa condução da história.
MaisPB – Madame Psicose traz tudo, né?, o que existe de bom e ruim nesse Brasil com ares cosmopolitas.
João Lucas Dusi – Como se trata de uma narrativa em primeira pessoa, com ares de diário e uma “pegada” deturpadamente filosófica, o registro é necessariamente enviesado. A busca não é por abarcar a totalidade de um país tão complexo quanto o Brasil, e nem pretende ser um manual edificante (como vem acontecendo muito nas letras nacionais), mas cavar a complexidade de uma existência individual inserida no rico contexto da América Latina. Por isso, apesar de haver muito de brasilidade na voz narrativa, com regionalismos e palavrões dividindo espaço com conceitos cabeçudos da teoria literária, existem inúmeras referências internacionais – da “alta cultura”, seja lá que merda isso significa, às referências populares, seja lá que merda isso significa.
MaisPB – Esse negócio “patrão pau no cu” e o “trabalhador fudido” é uma cena interminável, né?
João Lucas Dusi – No Brasil, especialmente, sem dúvida. Não é à toa que é um país reconhecido por processos trabalhistas; as condições de trabalho costumam ser doentias, com salários de fome e patrões, encarregados, enfeitiçados pela vertigem do pequeno poder. Mas, ironicamente, é também um país capturado pela ilusão de que Elon Musk é um gênio que trabalha 23h por dia e dorme numa saleta com pulgas, tomando água suja da torneira e comendo cream cracker, ao lado da sede da SpaceX. Nessa loucura generalizada, em que todos os fodidos estão em busca de soluções fáceis para ganhar um bilhão de reais (e, por consequência, tratar seus subalternos de forma tão horrível quanto foram tratados), é necessário continuar sempre refletindo sobre a vida como ela é – afogada em relações de micropoder, em que o menos fodido fode o mais fodido ad infinitum. Em Madame Psicose, dou umas pinceladas nesse tema por meio de uma voz babando ódio. É a única forma adequada.
MaisPB – Madame Psicose está em todo canto? Nas livrarias gerais?
João Lucas Dusi – O livro está disponível no site da editora (www.madamepsicose.com) e, em breve, estará em todos os grandes marketplaces, com foco na Amazon, via UmLivro. A relação com livrarias, para editoras pequenas, é impossível; há taxas enormes, fretes, meses para receber acertos. E, como é sabido, lê-se muito pouco neste país, caindo aos pedaços. Para uma editora independente, toda venda conta – e, mesmo assim, não é possível sobreviver somente pela venda de livros. É preciso se virar em dez, e as livrarias estão longe de se encaixarem nessa equação.
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