João Pessoa, 17 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC
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Por vezes, temos cerca de dois minutos, não mais que isso, pouco mais que isso, e mesmo se fossem semanas ou meses, estes minutos não seriam o suficiente para mostrar a cara aborrecida, diante de uma cena, um drama na calçada do poder.
Vem uma falsa sensação de profundidade, reparamos nas coisas escritas mas logo tudo se desfoca e estraga. Uma mulher se agarra comigo na frente do palácio, me chamando de Ariano Aroeira, disse que me conhece das redes sociais e me entrega seu livro, “Manquitolava infelicidade” – adorei o título. Na capa, um corvo numa ilha perdida.
Uma escritora idosa, apressada, com olhos da cobiça, me comia da cabeça aos pés da Santa Cruz. Cruz, credo! Não sei se é pior o que fiz ou o que faria se me dessem mais tempo. Abri o livro, um livro espesso, cheio anotações sobre a infelicidade, procurei um sexto e não encontrei.
Segui a fila para visitar pela segunda vez o Museu de História da Paraíba, um museu que não tem lá muitas novidades. O livro pesava na minha mão, tive medo da ler, da lesão do esforço repetitivo e pensei em colocar a obra em cima da mesa onde despachava o governador, mas tive medo de estar sendo filmado.
Venho a lugares destes pela história, mas não estava nos planos, no pingo do meio dia, entrar novamente no museu, mas fiz para fugir da conversa comprida da escritora, pela forma como por aqui estamos entre os deuses e os blefes.
Na terceira sala, onde nasceu Ariano Suassuna, dou de cara a autora do livro “Manquitolava infelicidade” que estava em minhas costas e vi que ela tinha um sutil bigode e eu queria estar invisível na impossível cena. “capriche no texto, sobre meu livro”, disse ela. Eu balancei a cabeça, me fazendo de lagartixa. Desagrada-me o gosto irremediável da escrita da senhora escritora, mas não disse.
Lembrei de Ascendino Leite, onde lhe importava mais as cartas que os remetentes. Na mão, o livro parecia uma rapadura.
O mais longe possível, que queria estar do gosto irremediável das criaturas, que insistem mergulhar no raso da literatura. No Salão Nobre, tratei de zarpar pela escada principal do antigo palácio, e nem perguntei o resultado do futebol.
Não sei se verei outra vez a escritora, o livro dei de presente ao policial, que agradeceu profundamente.
Eu não sei mais o que dizer.
Em casa, voltei a ler “Eu mataria o presidente” de Adelaide Carraro.
Kapetadas
1 – Burro é aquele a quem pedem uma Coca-cola e ele traz a geladeira.
2 – Aqui eu só falo do que não entendo. Ou seja, quase tudo.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 12/03/2026