João Pessoa, 25 de junho de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
Vivemos num tempo em que falar é fácil, mas se expressar com consciência é raro. Basta olhar para os conflitos diários: palavras atravessadas, brigas por mal-entendidos, gestos impensados que deixam rastros. Muitas vezes, não é o que foi dito, mas o jeito como foi dito. A verdade é que, por trás de quase toda comunicação truncada, há uma emoção mal cuidada. E quando deixamos que a emoção fale mais alto sem filtro, o risco de arrependimento é grande.
A raiva, por exemplo, costuma ser a vilã das relações. No ambiente de trabalho, ela é temida e, muitas vezes, reprimida. Mas a raiva em si não é negativa. Ela é uma emoção básica, natural, que sinaliza que algo nos incomoda e pede ação. O problema está em como escolhemos lidar com ela. Se deixamos que ela nos comande, respondemos de forma explosiva. Se fingimos que ela não existe, ela fermenta e vira ressentimento. A saída está em acolher o que sentimos, respirar fundo e transformar esse impulso em posicionamento claro e respeitoso.
A alegria, ao contrário, é expansiva. Ela nos move para o outro, nos convida ao encontro, à partilha. É por isso que o riso contagia. Quando estamos alegres, naturalmente queremos nos conectar. Por isso, em equipes de trabalho, momentos de alegria fortalecem os vínculos. O mesmo vale para amizades e relacionamentos amorosos. A alegria não se explica, se vive. E quanto mais a gente a cultiva, mais ela cresce. Mas para isso, é preciso espaço. E muita gente se sabota por acreditar que não pode se permitir sentir.
Outra emoção mal compreendida é o medo. Ele protege, alerta, antecipa riscos. Medo de ser assaltado, medo de um acidente, medo de doenças tudo isso nos leva a tomar precauções. Mas o medo também pode paralisar, especialmente quando não é racional. Medo de não ser aceito, de não agradar, de ser rejeitado. Medos assim pedem outro tipo de resposta: não a fuga, mas o autoconhecimento. É preciso entender o que está por trás desses receios para conseguir seguir em frente com mais segurança.
A tristeza, por sua vez, é a mais mal vista das emoções. Dizem por aí que precisamos ser fortes, sorrir sempre, superar tudo. Só que a tristeza tem um papel essencial: nos levar à reflexão. É ela que nos faz parar, pensar, rever o que importa. Fingir que não está triste é mentir para si mesmo. E a verdade é que, quando acolhemos a tristeza com gentileza, ela passa mais rápido. Ela só dói tanto quando precisa gritar para ser ouvida.
Outro ponto importante é saber diferenciar emoção de sentimento. Emoção é impulso, é biológico, é aquilo que vem antes de pensarmos. Sentimento é o significado que damos àquela emoção. É o que construímos a partir do que sentimos. O ciúme, por exemplo, pode vir de uma mistura de medo e raiva. O amor é um sentimento que nasce da repetição de emoções boas. E assim vamos compondo, a partir das emoções básicas, o nosso universo afetivo.
Ignorar o que sentimos é como tentar dirigir com o tanque vazio. As emoções são combustíveis. E cada uma tem uma mensagem. Não ouvi-las é desperdiçar pistas valiosas sobre nós mesmos. A psicologia já reconhece que pessoas emocionalmente inteligentes não são as que evitam sentir, mas aquelas que sabem nomear, entender e canalizar o que sentem de forma saudável.
No fim das contas, a comunicação verdadeira exige presença. É preciso estar inteiro na conversa, conectado com o que se sente e com o que se deseja transmitir. Quando isso acontece, nossas palavras não ferem, transformam. Elas deixam de ser armas e viram pontes. Pontes entre você e o outro. Entre o que você sente e o que quer dizer. Entre o que você vive e o que deseja viver.
A pergunta é simples, mas poderosa: da próxima vez que for falar, você estará reagindo ou se expressando? A diferença entre uma coisa e outra pode mudar a qualidade da sua vida inteira.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 27/08/2025