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Música: um catalisador de bem-estar

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publicado em 06/11/2023 ás 07h00
atualizado em 05/11/2023 ás 08h46

O grande filósofo Platão já havia registrado que a música é um meio poderoso, cuja harmonia está sediada na alma, como elemento que ilumina a verdadeira educação.

Como sinônimo para as questões gerais, a palavra harmonia traz a ideia de paz, de concórdia, de sensação agradável e confortável. Aplicada ao estudo da música, essa condição ocorre quando uma ou várias notas são tocadas simultaneamente nas gradações individuais dos tipos distintos de acordes, cujo arranjo proporciona deleite aos ouvintes.

É fato já comprovado que a música pode transformar a emoção humana e possui o condão de modelar sensações, sentimentos e o humor. Quantas vezes uma pessoa foi tocada pelo som musical e nele se inebriou de tranquilidade, de conforto ou de paz? Por outro lado, ritmos frenéticos podem levar a uma comoção ou potencializar um estado de irritabilidade.

Estudos recentes apontam que algumas músicas clássicas, dada a sua grande harmonia entre as notas, tons e semitons, podem levar à cura de males para o corpo humano, para animais e plantas. Desde o ano de 2011 tem sido divulgado, a partir de um estudo científico na UFRJ iniciado em 2010, que a quinta sinfonia de Beethoven é capaz de fazer regredir em 20% células cancerígenas e de proporcionar diminuição considerável do tamanho de tumores malignos (Nota 1).

Lembro aqui um trecho da “Canção de Protesto”, cuja composição é de Caetano Veloso, que assevera: “… sei que só sei viver de amor e música”. É do filósofo alemão Nietzsche, a sentença de que “Sem a música a vida seria um erro.” Outro filósofo alemão, Schopenhauer, enfatiza que “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende.” Já o dramaturgo inglês, Shakespeare, é contundente ao afirmar que “O homem [ser humano] que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas.”

É a música, o elemento que tem a capacidade de nos alinhar e nos inspirar, trazer a alegria para a vida, mais tranquilidade para o dia a dia, mais disposição e maior capacidade de bem-aventurança.

Pessoalmente, eu ouço música todos os dias: ao acordar, ao estar no volante de um veículo, nos momentos de trabalho doméstico e manuais, nas horas de contemplação, ao ir dormir. Na minha mente há música como pano de fundo para a vida.

Durante décadas um hábito foi sagrado: a minha presença semanal em concertos, ora da Orquestra Sinfônica da Paraíba, ora da Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa, que ocorriam sempre às quintas-feiras no Espaço Cultural da cidade, ou em outros dias da semana no conservatório de música com a apresentação de quartetos ou de um grupo de violoncelistas. O meu primeiro contato com o concerto sinfônico ao vivo foi no Teatro Santa Roza, o terceiro mais antigo da Paraíba, inaugurado em 1889, todo revestido internamente de madeira nobre de pinho de riga (que antigamente se usava para móveis de luxo por ser um material raro e durável). Eu tinha, na época, quase 17 anos de idade. Mas, antes disso, desde a pré-adolescência, eu ouvia música clássica em discos de vinil e o som me trazia uma enorme sensação de paz e tranquilidade.

Atualmente, na maturidade, os ritmos que costumo escolher, variam de acordo com o estado de espírito desejado: música alegre para manter a alegria ou para não permitir que qualquer desânimo se instale, música sacra ou instrumental suave para os momentos de meditação, para dormir ou para acionar processos criativos, e, sons com acordes associados à percussão adequada com vistas a equilibrar e calibrar todos os órgãos do corpo, manter o bem-estar, o equilíbrio e a disposição.

Li em alguns textos que a música de tradição devocional indiana, se utiliza de instrumentos como o harmônio (piano de fole portátil com o som semelhante ao da sanfona ou acordeão – órgão de fole), a mridanga (ou tabla, tambor) e as karatalas (par de címbalos), porque eles auxiliam no alinhamento e harmonização dos centros de energia no corpo humano, chamados de “chakras” (Nota 2).

A música é um elemento mágico, que faz as pessoas buscarem dentro de si, as memórias que consideram maravilhosas, as lembranças boas e os momentos da vida que foram significativos. Ela é capaz também de evocar sentimentos e de transportar a pessoa para além da imaginação, para aquelas recordações marcantes de felicidade, e até mesmo, para as idealizações que ainda não se concretizaram.

Os contos de fadas retratados no cinema usam o poder da música. Os filmes em geral também marcam profundamente ritmos e melodias que muitas vezes se eternizam no imaginário coletivo. Lembremos as trilhas sonoras que mais nos tocam e que resgatam as mesmas sensações sentidas quando ouvidas pela primeira vez.

Ao apreciar essas músicas, é possível voar na imaginação. É nesse processo que o corpo humano responde às recordações e aciona sua química interna: os bons sentimentos e sensações produzem hormônios saudáveis ao bom humor, à alegria, à vitalidade, aos atos suaves e equilibrados, à serenidade da alma que se faz presente no corpo e na emoção.  Essas músicas evitam ou eliminam o estresse e a ansiedade, podendo ainda, promover um estado de felicidade, que traz brilho à vida e aos olhos.

A medida hertz (Hz), do Sistema Internacional (SI), mede a frequência rítmica de ciclos por segundo e guarda relação estreita com a música, com a vibração. Foi verificado que a afinação musical na frequência 432 Hz está em harmonia com o universo e por isso, promoveria o equilíbrio e a consequente cura do ouvinte.

A música comumente tocada na atualidade está para a afinação de 440 Hz. Entretanto, muitos músicos já optam por finalizar suas canções na afinação de frequência 432 Hz, porque isso proporciona um estado de bem-estar a seu público.

A arte e a cultura precisam ser valorizadas e levadas para todos, principalmente porque promove os potenciais criativos, trazendo à luz talentos e obras que brindam e celebram essa bela capacidade humana.

Um repertório diversificado requer ouvintes que se aprimoram e desenvolvem uma sensibilidade refinada em relação à harmonia e à beleza das vibrações sonoras.

Nota 1

Trata-se da pesquisa do “Programa de Oncobiologia da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro”, que realiza experimentos desde 2010, tendo observado que ao som da “Quinta Sinfonia” de Ludwig van Beethoven, seria capaz eliminar o número de células tumorais cancerígenas e de reduzir o tamanho de tumores.

Nota 2

A imagem que abre o presente texto retrata três instrumentos: o harmônio (órgão de fole), o mridanga (tambor) e as karatalas (par de címbalos).