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Entrevista: Tom Zé 85+ lança ‘Língua Brasileira’ em formato digital e físico

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publicado em 30/07/2022 às 12h07
atualizado em 30/07/2022 às 11h28

Kubitschek Pinheiro MaisPB

Fotos – Matheus José Maria e Fernando Laszio

Tom Zé não para. Depois de seu trabalho mais recente, “Sem Você Não A”, com letras de Elifas Andreato, Tom Zé está lançando um novo disco, “Língua Brasileira”, cheio de signos e descobertas. O disco já está nas plataformas digitais desde 24 de junho, além do formato físico, em CD. O selo é Sesc Digital.

As músicas foram feitas para um espetáculo teatral de mesmo nome, dirigido por Felipe Hirsch, que estreou em janeiro no Sesc Consolação. Hirsch assina também a direção artística do álbum, que tem como produtores Daniel Ganjaman e Daniel Maia.

É um disco bem construído – traz um repertório que reflete a pesquisa do compositor. “Hy-BrasilTerra Sem Mal”, a música que abre o álbum, é algo inusitado: “Hy-Brasil ilha maravilha, naquele norte gelado, ela brilha. “Hy, hy. Hy Brasil, uma ilha sem fuzil, sem ba-ba-ba-ba-bala civil” A seguinte canção, “Pompéia – “Piche no Muro Nu”, surgiu de seu espanto com a descoberta dos registros de pichações em latim vulgar nas paredes da cidade de Pompeia, na Itália. Daí vem “Língua Brasileira”, “Unimultiplicidade”, “Gênesis Guarani”,“Metro Guide”,“Índio Desliga Jaraguá”, “A Língua Prova Que”, “San Pablo, San Pavlov”, “SanPaulandia”, “Clarice” e “Os Clarins da Coragem”.

Mais Tom Zé

Antônio José Santana Martins nasceu em Irará, sertão baiano, no dia 11 de outubro de 1936, É casado com Neusa Martins, contadora e eterna fã, sua segunda mulher, desde 1971, com quem mora no bairro de Perdizes, em São Paulo. Com a primeira, Yeda Machado, teve o único filho, o médico oncologista Everton Pontes.

Ao MaisPB Tom Zé falou detalhes desse trabalho, sua paixão pelo idioma e manda um recado para os paraibanos: “Antes de tudo, quero ressaltar que na Paraíba e, principalmente, em João Pessoa, tenho vários contatos que me proporcionaram não só alegria como geraram trabalhos aí, onde conheci grupos de alunos da Universidade. São pessoas que, para muita admiração minha, me mostraram textos de pós-graduação significativos, que chegaram a influenciar meu pensamento e o próprio sentimento de responsabilidade que tenho para com minha profissão”.

MaisPB – Tom Zé esse disco é foda. A nossa língua é nossa pátria, é nossa arma verbal e tudo mais, né?

Tom Zé – Pelo menos ela tem em sua história episódios dessa ordem. Comecemos pelo começo: Felipe Hirsch, o conceituado diretor teatral, me consultou sobre fazermos um espetáculo com músicas minhas. Mandei-lhe o disco “Estudando a Bossa” talvez o mais sofisticado que realizei. Algum tempo depois, Felipe me procurou para dizer que tinha descoberto, num disco mais antigo, “Imprensa Cantada”, a música “Língua Brasileira” que, disse-me ele: “Tem muito mais a ver com o tipo de assunto que estou habituado a levar ao teatro e, no presente momento, estou em contato com diversos especialistas na história da língua brasileira, como Caetano Galindo, da Universidade do Paraná, Eduardo Navarro, da USP, especialista no tupi-guarani do qual elaborou dois dicionários, um de tupi antigo e o outro de tupi moderno. E Yeda Pessoa de Castro, cuja história de vida é muito interessante. Ela nasceu naquela região pobre da Baixa do Sapateiro, em Salvador. Quando criança, caminho da escola, observava em uma ou outra esquina grupos de negros falando uma língua que ela, apesar de achar bonita, não entendia”.

MaisPB – Boa história da Yeda Pessoa..

Tom Zé – Sim. Depois de se formar na Universidade da Bahia, Yeda manifestou a seus professores a intenção de se especializar naquela língua que a memória da infância lhe trazia. Juntavam-se diversos ramos de idiomas africanos falados na Bahia, disseminados pela grande popularidade do candomblé e de manifestações da tradição iorubá. Os professores foram contrários, argumentando que o tema não trazia nenhum interesse cultural, que essas línguas já tinham sido suficientemente estudadas nos anos 20. Mas, para felicidade da cultura brasileira e de nosso idioma, ela se obstinou em trabalhar nesse ramo linguístico e nele se especializou, tanto no Brasil quanto na Universidade do Congo. Veio a vivenciar profissionalmente a situação inusitada de ser a única no mundo a pós-graduar-se em uma língua em dois continentes.

MaisPB – Nossa língua é musical, é Tom Zé?

Tom Zé – Evidente. Felipe Hirsch, depois de minha aprovação, começou a me mandar episódios fantásticos e curiosos do percurso seguido pela língua brasileira, convertendo-se numa prosa cantábile, prazerosa de falar e de ouvir, tanto que, quando europeus nos ouvem conversar, comentam: “Nossa, essa língua é tão musical e bonita!, diferente daquela falada na Europa, na qual as consoantes tendem a atropelar-se”. Lembremos aqui as narrativas sobre a influência árabe na Península Ibérica. Falemos do século 8, com a invasão árabe, quando a Europa tinha sido derrotada militarmente pelos bárbaros cristãos… Olhe, há certa semelhança com o Brasil atual, onde toda a cultura é desprestigiada: os bárbaros eram verdadeiros e apaixonados divulgadores do analfabetismo. Essa invasão árabe da Europa botou a história da Península Ibérica de cabeça pra baixo: naquele momento aquele era o povo mais culto do planeta, o que trouxe diversas consequências para a língua e a história de Portugal e Espanha.

MaisPB – E as influências indígenas?

Tom Zé – Com a orientação de Eduardo Navarro, vemos também a influência que recebemos dos indígenas que habitavam nosso País, notadamente dos que habitavam o litoral. Nos seus mitos de criação não havia um céu depois da morte: durante a própria vida diziam existir uma terra paradisíaca, chamada Terra sem Mal. Nela não era absolutamente necessário trabalhar: a lavoura nascia por si, a flecha caçava sozinha e restava aos privilegiados daquele mundo a diversão de beber e dançar. E como dançar, para eles, é uma purificação, naquela Terra Sem Mal, em plena vida terrena, o índio se tornava imortal. Felipe Hirsch começou a me enviar calhamaços de episódios da história surpreendente de nosso idioma, do dia a dia de sua formação.

MaisPB– E a peça?

Tom Zé – A pandemia impediu a estreia da peça “Língua Brasileira”, inicialmente marcada para 22 de março de 2020. Com a interrupção, eu recebia notícias e documentos dos episódios históricos, tanto de procedência africana, do candomblé, iorubá, como sobre a influência moçárabe durante 8 séculos na Península Ibérica, e sobre as nossas tradições indígenas. A interrupção me deu tempo de preparar as 10 canções inéditas, que formam o disco “Língua Brasileira”.

MaisPB – Abre o disco cantando “Hy-Brasil Terra sem Mal”, uma ilha, às vezes maravilha, às vezes inundada do mal. Nesta canção você nos leva a todas as navegações, cheia de signos e uma coro genial. Vamos falar dessa canção que acorda o Brasil, essa ilha sem fuzil, onde os índios imortais viviam felizes?

Tom Zé – “Hy Brasil” contém um desses episódios. O nome Brasil aparece porque a ilha assim nomeada não tinha noite, não tinha inverno, seu clima era completamente tropical, diferente daquele mundo gelado. Essa ilha lendária fugia quando uma embarcação se aproximava e realizava outras peripécias fabulosas.

MaisPB – A capa do disco é bem moderna, com um tubo mágico. Genial essa sacada.

Tom Zé – Essa capa foi uma grande sacada do artista gráfico André Vallias, poeta, tradutor de Brecht, de Heine. É um intelectual muito conceituado.

MaisPB – A segunda faixa mostra a velha Pompéia, chique e muito piche. E ainda traz o Carcará de João do Vale, que dessa vez não mata, amassa e some. Aliás, desgraçado de quem não ama, né Tom Zé?

Tom Zé – Depois da erupção vulcânica que destruiu a cidade romana de Pompeia, esta foi escavada e pesquisada. No latim vulgar, que tão fortemente influenciou nosso idioma, foi encontrada num muro a seguinte inscrição: Quis amat valeat/]Pereat qui nescit amare/Bis tanti pereat/Quisquis amare vetat (Viva quem ama/Morte para quem não ama/E que morra duas vezes/Quem proíbe o amor)

MaisPB – A terceira faixa que dá nome ao disco “Língua Brasileira”, é um jogo de palavras, e cabem tudo e todos, vivos e fodidos, fantástica a cena da cartomante abrindo o baralho. Como você consegue ser tão atual, desde sempre?

Tom Zé – Naquela canção “Língua Brasileira” que eu tinha feito anos atrás, havia, por acaso, o que me causou admiração, a citação de episódios históricos e lendários. E a letra contém alguns dos melhores versos que fiz em minha vida, como: mares-algarismos/onde um seu piloto/rouba do ignoto/almas e abismos/língua das correntes/com seu candeeiro/todo marinheiro/caça continentes, etc.

MaisPB – A música “Unimultiplicidade” ( quarta faixa) parece uma canção antiga e, claro, tem a casa da humanidade no refrão. Tom Zé essa canção mostra a felicidade como um feitiço, que aparece e some nas estradas de Dante, passamos pelo inferno, pelo purgatório e talvez… o paraíso?

Tom Zé – É verdade. “Unimultiplicidade” é uma canção antiga. Mas foi aprumada para entrar no corpo desse esqueleto linguístico. Nas pesquisas que me mandaram, eram enumeradas artes inventadas pelo negro africano. Ele inventou a filosofia, a religião. A língua, a escrita, a poesia. O que eu, nem ninguém sabíamos e nem poderíamos imaginar.

MaisPB – As intervenções de Maria Beraldo na faixa que intitula o álbum e em outras, são necessárias, né?

Tom Zé – Maria Beraldo pegou as músicas em certa altura da composição, quando ainda não estavam realmente prontas. E fez um trabalho muito criativo, tanto que tentei usar certas soluções de arranjos que ela praticou. Quanto à faixa que ela canta comigo, a própria canção-título, foi uma colaboração realmente muito boa.

MaisPB – A quinta faixa “Gênesis Guarani” é a nossa cara. E tem uma batida boa, que dá vontade de dançar. Vamos dançar o amor, Tom Zé?

Tom Zé – “Gênesis Guarani” é a nossa cara, principalmente minha mesmo, com a presença daquelas concentrações rítmicas de contrabaixo, sílabas cortadas e reaprumadas e outras manhas.

MaisPB – Você ouviu “Meu Coco”, o novo disco de Caetano Veloso? Gostou?

Tom Zé – Ouvi, sim, o disco de Caetano “Meu Coco” que, o que não foi surpresa, me deixou completamente maravilhado. Eu me lembro de que no início, para poder compreender em que mundo sonoro e poético eu estava, tive de ouvir cada faixa repetidamente, meia dúzia de vezes. É uma das maravilhas que Caetano botou no mundo. Não reluto em usar essa frase para um objeto tão rico.

MaisPB – “Metro Guide” (sexta faixa) é genial, fala aí…

Tom Zé– “Metro-Guide” é um guia que o metrô distribui em Nova York. Eu estava procurando justamente algo assim para compor. Algo com que que o nova-iorquino tivesse contato todo o dia sem nunca ter imaginado que poderia virar letra de canção. Aproveitei o ensejo para cantar os telefones úteis de Irará, minha cidade natal na Bahia, para transformar a parte anterior num exemplo da tão comum invasão de nossa língua pelo inglês, principalmente depois do aparecimento da Internet.

MaisPB – O que Tom Zé diria do músico paraibano Jarbas Mariz, que toca nesse disco?

Tom Zé – Jarbas, se afastou por motivo de trabalho, que não tem lhe dado tempo nem pra respirar. Ele foi sempre uma pessoa inestimável e inesquecível na banda. No dia que veio me avisar que se afastaria, chegou comovido, perto das lágrimas, trazendo consigo Daniel Maia, como se não pudesse carregar sozinho o peso do assunto. O choro foi coletivo. Temos nos falado constantemente e agora ele está aí em João Pessoa, está de férias.

MaisPB – Ainda sobre a quinta faixa, a gente pensa que tem uma sanfona, uma percussão boa demais, e é uma canção bilíngue e esses números úteis da maternidade, do Sus, Samu etc?

Tom Zé – Sim, em “Metro-Guide” eu queria um ritmo e um tipo de arranjo bem brasileiro, como o povo da Europa e dos EUA, está acostumado a encontrar/gostar de, em meu trabalho.

MaisPB – A canção que dá vida ao índio, é forte, detonadora. E São Paulo é o cu do Judas, que maravilha. Fala aí dessa canção?

Tom Zé – É, a ideia de fazer a canção sobre a invasão do Jaraguá pelos indígenas… Foi um incidente que aconteceu depois de o governo estadual ter feito a maior festa pública para entregar aos indígenas aquele e outros sítios vizinhos e, a seguir, sem quê nem pra que, “como o homem branco não tem lisura”, ter tomado a terra deles. Os autóctones reagiram promovendo a invasão, até noticiada pela imprensa, com a intenção de desligar as torres de televisão, de rádio, de telefones e o que mais houvesse por lá. São Paulo, subtraída de tudo isso, passaria, de uma supercivilização, para um verdadeiro “cu-do-juda”.

MaisPB – Tom Zé, a sexta faixa “A Língua Prova Que” sem o idioma não seriamos nada, né? Essa canção traz muitos orixás e muitos seres inteligentes…

Tom Zé – É uma opereta. “A Língua Prova Que” é uma opereta contando a história do mundo segundo os orixás. São 10 minutos de música e, para manter a atenção do ouvinte, recorro a todo o repertório de artifícios chamados ff, pianíssimos, crescendo, diminuindo e um Deus nos acuda, para escapar do tédio a que eu tenho ojeriza.

MaisPB – A canção “Clarice” (Lispector) que a nova faixa, mostra que ela está voltando para esclarecer?

Tom Zé – A vida de Clarice Lispector, que curiosamente (refiro-me ao momento presente) era ucraniana, em tantos lugares tinha a vida ameaçada por ter nascido judia, no princípio do século 20 pré-hitlerista. Como a colônia judaica no Brasil tinha alguma organização, ela veio para cá e, depois de passar algum tempo em Alagoas, foi para Pernambuco, onde a estrutura da etnia era mais estabelecida. Posteriormente mudou-se para o Rio de Janeiro. Transformei esse trajeto num périplo que só teve algum repouso quando lhe foi oferecida a língua brasileira.

MaisPB – Estamos todos nesse disco, nordestinos e árabes, os conflitos que emergem na trilíngue “San Pablo, San Pavlov, San Paulandia”, a nona faixa. Isso é modernidade, viu TZ?

Tom Zé – São Pablo San Pavlov ou San Paulândia é violenta e curiosa. Volta-se para essa língua que todos nós falamos quando em outros países da América Latina, o portunhol.

MaisPB – Quem é Antônio José Santana Martins, que está perto dos 90 anos e vamos celebrar os cem?

Tom Zé – Se for por mim, célebre até os duzentos.

Confira a canção Os Clarins da Coragem

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