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Magistrado, colaborador do Diário de Pernambuco, leitor semiótico, vivendo num mundo de discos, livros e livre pensar. E-mail: adhailtonlacet123@gmail.com

As traduções de Ulisses

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publicado em 07/04/2022 às 06h32
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Existem livros bastante conhecidos e que pouca gente leu. Geralmente são clássicos famosos. Um exemplo é o Ulisses, escrito pelo irlandês James Joyce e publicado no ano de 1922. Aqui no Brasil temos três traduções. A primeira feita por Antonio Houaiss; a segunda por Bernardina da Silva Pinheiro e a terceira e mais recente por Caetano W. Galindo. Alguns leitores e críticos atribuem a este último a mais “legível” das traduções.

Dizem os entendidos que o primeiro parágrafo de um romance prende, de logo, a atenção do leitor. Vejamos como cada um dos tradutores cuidou dessas primeiras linhas do romance. Antonio Houaiss: “Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã. Elevou o vaso e entoou:

                            – Introibo ad altare Dei”.

                            Já a professora Bernardina da Silveira Pinheiro lançou esta tradução: “Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhorar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:

 Introibo ad altare Dei”.

                            Por fim, o mais jovem dos três tradutores Caetano W. Galindo, assim traduziu: “Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo souto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Elevou a vasilha e entoou:

 Introibo ad altare Dei”.

                            O leitor não precisa ir ao altar de Deus para identificar a tradução que melhor faz fluir a leitura desse majestoso romance. O polêmico e encrenqueiro jornalista Paulo Francis implicava com a tradução do filólogo Antonio Houaiss, a quem chamava com ironia de “Antonio Uai”, mas nunca justificou convincentemente o motivo dessa implicância.

Para quem quiser enfrentar a leitura de quase oitocentas páginas do centenário romance joyceano, temos  um livro escrito por Caetano Galindo, intitulado “Sim, eu digo sim. Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce” (Cia. Das Letras, 2016). Na tradução de Galindo ele manteve Ulisses com “Y” do original.

Como todos sabem, todo o enredo se passa num único dia: 16 de junho de 1904 (data esta festejada em quase todo o  mundo todo por leitores e admiradores de Joyce, o Bloomsday, referência ao personagem  Leopold Bloom).

Como poderíamos resumir o livro Ulisses, sem dar spoiler? Vejamos o que se pode fazer com poucas palavras: Buck concelebra. Stephen educa. Stephen cogita. Bloom evacua. Bloom esfolia. Bloom comisera. Crawford prevarica. Bloom mastiga. Stephen explica. Duplin perambula. Boylan adultera. O cidadão cogita. Gerty deleita. Mina parturia. Um marinheiro exagera. Nossos heróis urinam. Molly menstrua.

Escolha a tradução preferida, prenda a respiração e mergulhe fundo nesse romance de águas profundas e magistralmente bem urdido.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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