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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: [email protected]

Os aviões voltaram

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publicado em 29/03/2022 às 07h00
atualizado em 28/03/2022 às 17h52

Os aviões voltaram. Na análise, eles se esconderam. Recolheram-se no hangar da bisonhice.  Cederam lugar aos eventos que sucediam sem trégua, mas cresceram.  Como o musgo na pedra. “Como el musguito en la piedra, sí”.

Os aviões voltaram na chacina de um filho contra sua família. Bem ali na  terra que me fez nascer. De onde tirava os personagens e imagens que, filtrados no dia, vinham no meio da noite de espera.

Voltaram na fumaça do trem, no apito estridente, madrugada vazia adentro. Viajando pelo corpo em veias e artérias inocentes e mostrando sua capilaridade.

Aparecem ao longe. Como se não houvesse ameaça ao nosso quintal. Aproximam-se em movimentos circulares, voando sobre nossas cabeças. Não um. Diversos. Perversos. Assustadores. Ora como espiões, achegam-se perigosamente às minhas janelas. Fecho os olhos. E me entram pelos ouvidos.

Para onde tinham viajado os aviões que me seguiam? Em que desatinos roncavam com suas turbinas de guerra.  Um antigo De Havilland Hornet F1 ou um F-22 Raptor. Não importa. São tão horríveis quanto um Gripen e cospem misseis.

Eles voltaram. E com aquele barulho sangrento, roubam meu sono e podam as minhas asas, impedem-me de voar. Voltaram quando o ninho onde me escondia, está devassado por instrumentos de leitura à distância e uma rede mundial que nos tornam tão próximos, quanto eram meus irmãos antigamente.

Não importa onde eles apareçam. Na Ucrânia, no Iraque, no Golfo, ao redor da minha casa; são do mesmo jeito:  destemidos, atemorizantes e iluminam a belicosidade do olhar de alucinados pelo poder.

Os aviões voltaram a me visitar. Voltaram, de outra forma, a destruir casas, vidas, futuros de milhares, ali do lado ucraniano da divisa entre a Rússia e o resto da civilização.

Colo, cobertores e proteção para aquela gente que vive do outro lado de nós. A mim, um consolo. Os aviões me assustam, mas não arrancam blocos de cimento do prédio em que moro, quando passam rasantes por cima de nossas cabeças. Eles voltaram como antes.  Os aviões voltaram!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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