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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

O choro de Antônia

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publicado em 11/01/2022 às 06h41
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Antônia chegou em minha casa no início da vida adulta. Sua mãe havia trabalhado na casa de uma amiga aparentada. Quando chegou, tínhamos acabado de chegar ao Engenheiro Antônio Lyra, prédio no Expedicionários, vizinho à Epitácio Pessoa.

Apaixonou-se por um rapaz. Engravidou. Teve uma filha que hoje já está casada. Camila lhe deu uma neta. Pois é, já é avó. Depois, casou-se com um rapaz que bebia muito, deixou de trabalhar conosco porque havia dias que o sujeito não a deixava sair de casa. Antônia era mulher prisioneira, dessas tantas que tem por aí.

Viúva, já com quatro filhas, voltou para nosso convívio. É a paciência em pessoa. Fala muito pouco. E como quase não falamos, tem vezes que se você entrar aqui vai encontrar um vazio de vozes.

Um dia lhe perguntei. Quantas vezes você já se sentiu discriminada por conta de sua cor? Ela pensou e disse calmamente: – Fui sempre bem atendida. Não lembro de haver sido discriminada. Você duvida que ela tenha sido? É que sua bondade não a deixou enxergar a maldade de quem discrimina os outros pela cor preta.

Estava a tomar café, quando Matheus entra na cozinha com Mariana e lhe entregam o convite do casamento. Antônia dispara num choro contido, no seu estilo.  E como foi a primeira vez que a vi chorar, guardei a pergunta para fazer depois. Por que você chorou, Antônia?

Ontem, conversamos. Perguntei a Antônia o que significava aquele convite que a fez chorar. Ela riu. E disse: “É uma sensação sem explicação. É uma emoção que você não sabe como explicar. É uma pessoa que eu cuidei de pequeno e ser chamada para o casamento dele[…]. Ser convidada para uma data tão importante.” Pergunto mais: – Você não esperava ser convidada? – Não. Não esperava. – Por quê? E ela: – Jamais esperei que ele tivesse um amor. A consideração, para eu estar presente nessa data. […] Depois me senti muito feliz. E Jamile (filha de 12 anos) mais ainda.

Essa semana, Antônia saiu mais cedo. Iria alugar o vestido de Jamile para o casamento do filho. Falei filho? É assim que ela se sente. Matheus não é filho de patrões, é seu filho. E já sei, desde sempre, que se ele voltar de São Paulo, ela vai morar com ele.

Pois é. Vou perder Antônia: “Antônia preta. Antônia boa. Antônia sempre de bom humor”. E não terei o cafezinho que ela me traz quando me ponho a estudar. De tanto amar, vou perder Antônia, para seu único amor, depois de suas filhas. Um amor de gente boa, essa filha mais velha que passou a viver conosco. Não se surpreenda novamente, Antônia, mas vou lhe confessar: Você nunca saiu do nosso coração. E nem invente de chorar outra vez!

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