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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

O entrelugar da mãe

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publicado em 25/09/2021 às 08h25
atualizado em 25/09/2021 às 10h33
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Um prato cheio. Minha mãe não era uma peça, mas me obrigava a comer arroz doce. Era no jantar, servido às 17h. Eu tinha náusea, mas ainda não conhecia Sartre, nem sua mãe.

Uma mulher que pariu nove filhos e dizia com conhecimento de causa: “casamento é um inferno”. Ela era instigante e tentava globalizar.

Aliás, ao entrar na sabedoria dela, agradeço a meus pais por terem me engendrado na raspa do tacho do erotismo. Eu não explico, mas replico.

A dinâmica do discurso de minha mãe, que eu chamo de “descrição valiosa”, ou seja, uma interpretação de cada coisa presente à comunicação, do jeito dela, era como se ela tivesse estudado e lido bastante. Minha mãe não sabia ler.

Um texto publicado esta semana, do jornalista Silvio Osias, falando que quando ele era menino, perguntou à sua mãe o que era símbolo, me fez chorar diante do computador. A mãe de Osias, dona Hermengarda, disse que símbolos “eram coisas pequenas que falavam sobre coisas grandes”.

Nada complicado, pensei, mas segundo Osias “parecia complicado para o entendimento de uma criança”. A resposta ficou guardada na sua memória. “Símbolos. Coisas pequenas que falam sobre coisas grandes”.

Isso da mãe dele dizer coisas pequenas, coisas grandes, me fez lembrar quando minha mãe mandava eu ir levar uma vasilha (de leite) pequena, numa casa grande (de gente rica). Ela dizia: “agradeça e volte imediatamente. Vou cuspir no chão”.

Embora com pontos análogos, a situação da minha mãe era bem diferente da mãe de Silvio e da mãe de Gorki cujo romance  “A mãe”  foi inspirado em acontecimentos reais. Esqueçam.

Minha mãe era bonita e solitária. Dizia que em boca fechada não entra mosca – que era melhor que eu ouvisse mais e falasse menos. Ela era simbólica e severa, talvez, por eu ser o caçula e ela já estava cansada de viver. Minha mãe jamais saberia me dizer o que é um símbolo.

Com ela ou acertava na mosca, ou errava na sopa. Minha mãe tinha razão, quando pensava e falava pouco, quase nada, fugindo da miserável “tagarelice” – o suficiente para flanar e se defender sobre o básico da existência. Não é fácil viver.

A questão símbolos e suas mensagens diferentes, copiar e colar em Whatsapp, Instagram, Facebook, a besta fera, setas e etc parece relacionada a tagarelice mundial sem criatividade. Bem longe de um plus criativo que encanta e aproxima, – mas aí já  são signos, outras figuras de linguagem.

Estirar los dedos para alguém, o tema principal do texto de Silvio Osias, não é um mero símbolo, é feio, falta de respeito. E quando bota a mãe no meio e bota a mãe no meio, sai de perto, que eu sou um temporão, nunca cobaia. Na verdade, meu nome é Adriano e Marguerite Yourcenar (foto) é a minha verdadeira mãe. Até.

Kapetadas

  • Céus. Nunca se mentiu tanto, para tantos, e em tão pouco tempo.
  • Eu estava pensando – se eliminarem do léxico as palavras “gente” “galera” e “pessoal” acabam as redes sociais.
  • Som na caixa: “Mamãe estou tão feliz/Por que voltei pra você”, Cesare Andrea Bixio / Bruno Cherubini / Geraldo Figueiredo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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