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Paulo Galvão Júnior é economista, escritor, palestrante e professor de Economia e de Economia Brasileira no Uniesp

Um olhar crítico sobre a situação socioeconômica na Argentina

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publicado em 22/08/2021 às 08h31
atualizado em 22/08/2021 às 05h52
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Recentemente, milhares de argentinos foram às ruas de Buenos Aires para protestar contra o desemprego e a pobreza na Argentina. O presente artigo visa analisar os principais indicadores econômicos e sociais na atualidade, com um olhar crítico sobre a situação socioeconômica em plena pandemia da COVID-19.

A Argentina é o segundo maior país da América do Sul e a oitava maior nação do mundo, com mais de 2,7 milhões de quilômetros quadrados. A população total da Argentina é de 45,8 milhões de habitantes, o terceiro país sul-americano mais populoso, segundo as estatísticas oficiais do site do Instituto Nacional de Estadística y Censos de La República Argentina (INDEC).

A Argentina tem 42% da população vivendo na pobreza, ou seja, 12 milhões de pobres no segundo semestre de 2020 (INDEC). Quatro em cada dez argentinos estão na pobreza absoluta. Seis em cada dez crianças argentinas são pobres. E as principais causas para o aumento da pobreza são a elevada taxa de desemprego, a alta taxa de inflação e a diminuição da renda.

O novo salário mínimo da Argentina foi fixado em 29.160 pesos argentinos, mas só alcançará seu valor firmado em fevereiro de 2022, foi um ajuste salarial de 35% e que cobre 54% da cesta básica total (bens e serviços básicos) de 54.000 pesos argentinos, conforme dados calculados pelo INDEC. O atual salário mínimo é de 21.600 pesos argentinos, o que cobre apenas a cesta básica alimentar (conjunto de alimentos e bebidas que satisfazem os requisitos nutricionais, calóricos e proteicos) de uma família com três integrantes. A cesta com 30 produtos básicos custava, em novembro de 2020, cerca de 7.000 pesos argentinos, para uma pessoa.

O índice de indigência na Argentina já alcançou 10,5% da população total (INDEC). Logo, são 3 milhões de pessoas indigentes, na pobreza extrema, passando fome nas 23 províncias argentinas e na Cidade Autônoma de Buenos Aires, com os atuais 13,6 milhões de habitantes. É preciso destacar que na Argentina, as famílias que não possuem renda suficiente para pagar a cesta básica total são pobres, já as que não conseguem comprar a cesta básica alimentar estão na pobreza extrema (INDEC).

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) argentino a preços correntes é de US$ 418,1 bilhões em abril de 2021. A Argentina é uma grande produtora de petróleo, gás natural, minérios, carne bovina, soja, trigo, milho, limão, uva, maçã, algodão, erva mate, produtos orgânicos, produtos lácteos, lã e vinhos. A Argentina é a terceira maior economia da América Latina, atrás apenas do Brasil e do México.

A Argentina é um país emergente com uma dívida externa atual de US$ 66 bilhões. A Argentina tem dívidas com o FMI (empréstimo de US$ 44,5 bilhões em 2018) e o Clube de Paris (empréstimo de US$ 2,4 bilhões em 2014). A dívida externa do país provoca o aumento da informalidade, que já chegou ao patamar de 34% da população economicamente ativa (PEA) e afugenta a entrada de novos investimentos diretos externos (IDEs). A PEA na Argentina é de aproximadamente 11 milhões de pessoas.

A taxa de desemprego na Argentina já alcançou 10,2% da PEA no primeiro trimestre de 2021 (INDEC). Podemos apontar várias causas do elevado desemprego nos dias atuais, entre elas, a crise econômica, a pandemia da COVID-19, a desindustrialização, a baixa produtividade, a corrupção e os elevados tributos. Na Argentina o contingente de desempregados é de 1,3 milhão de pessoas e só aumenta a cada mês por causa da pandemia do novo coronavírus. A falência de mais de 42 mil pequenas e médias empresas e a baixa atividade econômica no setor industrial agravaram o desemprego no país.

A taxa de inflação anual já alcançou 63% em julho de 2021 (INDEC). A Argentina foi a terceira nação com a mais alta inflação no mundo, atrás apenas da Venezuela e do Zimbabué, no ano de 2020. Com a elevada inflação ocorre uma grande queda do poder aquisitivo das classes econômicas. Cerca de 73% das famílias de classe média têm alguma dívida, 22 milhões de pessoas recebem um ingresso familiar de emergência (IFE) por mês no valor de 10.000 pesos argentinos e mais de 1 milhão de jovens não estudam e nem trabalham.

A Argentina junto com o Brasil, o Paraguai e o Uruguai desde 26 de março de 1991 é um país membro do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). São trinta anos de exportações argentinas para os parceiros do MERCOSUL e para o resto do mundo, além de importações argentinas, utilizando a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), a Tarifa Externa Comum (TEC) e a logística internacional dos transportes rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo. Recentemente, nove companhias aéreas abandonaram a Argentina por causa da atual política econômica e do lockdown, entre elas, a Latam, Qatar Airways, Air New Zealand, Norwegian, Emirates, Ethiopian Airlines, Alitalia, Gol e Air Canada.

O peso argentino em 2020 foi a quarta moeda mais desvalorizada em relação ao dólar americano, atrás apenas do bolívar soberano (Venezuela), da rúpia (Seychelles) e kwacha zambiana (Zâmbia), de acordo com a Austin Rating. Hoje, um dólar americano equivale a 97,15 pesos argentinos. Revelamos que a Argentina a partir da luta pela independência política da Espanha, desde 25 de maio de 1810 até os dias de hoje, já teve várias moedas como o real argentino (1813-1881), o peso da moeda nacional (1881-1969), o peso ley (1970-1983), o peso argentino (1983-1985), o austral (1985-1991) e a partir de 1992 surgiu o peso conversível, em relação ao dólar na taxa de câmbio fixa de 1 pra 1, e finalmente, em 2002 até os dias atuais, o peso argentino, em uma taxa de câmbio flexível.

A recessão econômica na Argentina foi de 9,9% no ano de 2020, a pior retração do Grupo dos Vinte (G-20), seguida do Reino Unido com 9,8%. A dívida pública bruta foi de 89% do PIB em 2020. A previsão para o ano de 2021 é um crescimento econômico em torno de 6,3%, de acordo com os economistas independentes e consultados mensalmente pelo Banco Central da República Argentina (BCRA). Segundo o FMI, a taxa de crescimento real do PIB argentino foi de 5,8% em abril de 2021, atualmente, ocorre uma retomada lenta da economia argentina.

Revelamos também que nos últimos 60 anos, a Argentina passou por 15 recessões econômicas não consecutivas desde 1960, de acordo com os dados oficiais da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Lamentavelmente, a crise econômica provoca o desabastecimento, a vulnerabilidade social, a imigração de jovens, o divórcio e o suicídio. Destacamos que a taxa básica de juros na Argentina já alcançou 28% ao ano em 1 de agosto e as reservas cambias foram de US$ 39 bilhões em 2020 (BCRA, 2021).

Diante da crise sanitária que assola a Argentina, a população sofre com a segunda onda da pandemia da COVID-19, com mais de 5,1 milhões de casos e mais de 110 mil mortos, de acordo com a Johns Hopkins University. O SARS-CoV-2, o lockdown e a variante Delta impossibilitam atrair os milhões de turistas estrangeiros para desfrutar dos belos pontos turísticos da Argentina como o Obelisco, a Plaza de Mayo, o Caminito, a Floralis Genérica, a cidade mais austral do mundo, as Cataratas do Iguazú ou a Patagônia.

É fundamental repensar o combate à desigualdade na Argentina, pois a pandemia do novo coronavírus exacerbou ainda mais as desigualdades sociais e afetou o desenvolvimento humano do país. O índice de desenvolvimento humano (IDH) é de 0,845 em 2019, o segundo IDH mais alto da América do Sul, atrás apenas do Chile. Mas, o IDH argentino cairá muito com a futura divulgação do Relatório do Desenvolvimento Humano 2021, com os dados de 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Segundo o PNUD, a esperança de vida ao nascer da Argentina foi de 76,7 anos e a média de anos de escolaridade foi de 10,9 anos em 2019. Enfim, a situação socioeconômica da Argentina é extremamente preocupante. O desemprego é a principal causa da pobreza na Argentina, a cada ano o país fica mais pobre e diariamente mais pessoas entram na linha da pobreza. A Argentina precisa escapar do círculo vicioso da pobreza, buscando um crescimento econômico com inclusão social e preservação ambiental.

Nota: O artigo foi elaborado a quatro mãos, pelo professor de Economia e de Economia Brasileira no UNIESP, Paulo Galvão Júnior, em parceria com a estudante do Curso de Administração no UNIESP, Talyta Oliveira Andrade Rocha, no período diurno

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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