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Clara Velloso Borges é poeta, escritora e professora de Literatura, com graduação em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. É também concluinte do bacharelado em Direito. E-mail: claravellosob@gmail.com

Criadoras e criatura

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publicado em 13/08/2021 às 07h25
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Em tempos de Covid-19 e de altos índices de desemprego, talvez a criatura inventada pelo médico Victor Frankenstein não assuste mais ninguém. Contudo, sua presença cultural é inquestionável, tendo inspirado inúmeras adaptações e influenciado produções originais, como o filme Edward Mãos de Tesoura (1990). Tão interessante quanto a criatura ficcional é a história por trás dela.

Embora muitas estratégias de leitura priorizem a relação do texto com a percepção do leitor, em detrimento das curiosidades que conectam autor e obra, é impossível não falar de Mary Shelley quando falamos de Frankenstein. (foto)

Criada por seu pai, um intelectual relevante, a autora fugiu com Percy Shelley quando o pai não abençoou seu relacionamento amoroso. Encontrava-se com Percy em cemitérios, onde recitavam poemas juntos. Nem Lygia Fagundes Telles, em Venha ver o pôr do sol, pensou em um cenário de amor tão macabro. Em dias de condições climáticas tenebrosas, quando não podiam sair de casa, Mary e Percy foram desafiados pelo poeta Lord Byron: deveriam escrever uma história de horror. O resultado da escritora, hoje, é um clássico.

Também não é possível falar de Mary Shelley sem falar de sua mãe, Mary Wollstonecraft. Ainda no século XVIII, escreveu Reivindicação dos Direitos da Mulher, uma denúncia das leis injustas e dos preconceitos que podavam a vida das mulheres na época. Wollstonecraft foi corajosa e revolucionária, deixando como legado seus argumentos escritos e seu DNA inscrito nas veias de sua filha. Não conviveram por muito tempo, porque Wollstonecraft faleceu dias após o nascimento da menina, devido a complicações no parto. A história das duas, mãe e filha, é trazida em capítulos intercalados na interessante biografia Mulheres extraordinárias, de Charlotte Gordon.

Quando pais e filhos enveredam pelo mesmo caminho profissional, o senso comum prega que o filho será apagado pelo pioneirismo do pai ou da mãe. Shelley e Wollstonecraft nos provam o contrário. Enquanto a mãe se destacou pela busca por igualdade de gênero, a filha desenhou uma narrativa sobre um homem que afronta a natureza humana. As duas foram eternizadas por suas Literaturas.

Shelley foi influenciada pelas ideias da mãe, mas não ofuscada. Para o universo literário, são elas, Shelley e Wollstonecreaft, criadoras fascinantes.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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