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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Podres delícias

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publicado em 27/07/2021 às 08h22
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Voltei a caminhar na praia. Eu esperei por esse momento. Tinha medo, ainda tenho. Vou pela calçada das casas como fazia quando era menino, com o dedo riscando as paredes.

Diria até que eu faço questão de fazer esse caminho, só que agora às seis horas, não mais desvirginando a madrugada. E, mesmo assim, ainda encontro muitas janelas fechadas e muita gente sem máscara.

Sobre minha cabeça pensamentos antigos, gente que não vejo mais. Saudade de WG e WP.

Simples, vou declamando baixinhos poemas de Bandeira ou Drummond. Às vezes do Cabral de Melo Neto. Converso sozinho e falo com Deus. E canto: “Farolito que alumbras apenas mi calle desierta/Cuantas noches me has visto llorando llamar a su puerta”, pensando em João Gilberto.

Vejo homens, mulheres e meninos geralmente pretos que ainda dormem embaixo das marquises. São os filhos das ruas. Não tem contas para pagar. Deve ser muito triste adormecer nas ruas. Já viver, nem se fala.

Meus olhos espiam desejos: sou de carne e osso, com todo o gosto que me traz a testosterona.

Ditaria milhares de textos fosse como fosse, nessas caminhadas. Me sinto livre novamente.

Às vezes fico pensando porque escrevo tanto, se tantos não leem o que eu escrevo. Escrevo pra mim? Não, mas admito que uma coisa puxa a outra. Estou lendo e já penso em escrever, principalmente sobre esse esplendor da manhã.

Face do deslumbramento paro em frente à Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe e ali novamente converso com Deus. Acho que Ele não aguenta mais minhas ligações, já os deuses e semideuses, geralmente não dão retorno.

Nada se sabe, este percalço não me amofina. Até me deleito. Por alguma razão os livros que ando lendo me trazem o mundo lá de fora e eu me contento.

Foi Sartre quem disse que não conseguia olhar para uma pilha de papel em branco sem querer escrever alguma coisa ali. Lá vou eu.

Não tenho dinheiro para ficar viajando. Não conheço Nova Iorque, mas já pisei em Jerusalém, amo os maracatus, Belém e a Galileia.

Não sou mal agradecido. Tenho serviços prestados, o esclarecimento que me é devido, está pago, ainda que a custo da minha ingenuidade.

Não deixa de ser apaixonante a ideia de voltar a caminhar no mar. Já pensou quantos gostariam de caminhar cedinho no mar?

Quantos moram em Brasília focados na grana, um lugar sem mar. Tem lago, mas logo, não me lembra riomar.

Penso em Shakespeare e nas delícias do litoral. Às vezes ainda vejo a Estrela Dalva!

De resto, não há desespero. A melhor coisa que podia ter acontecido comigo foi quando troquei o sertão pelo mar.

Estou a pensar no tempo de antes de eu nascer.

Kapetadas

1 – Só queria saber quem inventou acordar cedo. Eu mesmo.
2 – Estátuas não choram. Selvageria no Brasil.
3 – Som na caixa: “Voltei a cantar/Porque senti saudade/Do tempo em que eu andava na cidade/Com sustenidos e bemóis/Desenhados na minha voz”, Lamartine Babo

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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