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Francisco Leite Duarte é Mestre e Doutorando em Direito pela UFPB. É professor da Universidade Estadual da Paraíba, Jurista, Escritor, Palestrante e Auditor Fiscal. Prêmio nacional de educação fiscal 2016 e prêmio estadual e nacional de educação fiscal 2019. Na literatura, publicou o romance “O pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de Agosto” e uma coletânea de prosa poética (este em parceria com Cavichioli), chamada “Decifra-me ou te devorarei

A tentação de Jesus no Distrito Federal

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publicado em 09/07/2021 às 07h25
atualizado em 09/07/2021 às 04h27
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Não foi por querer. Jesus jamais se misturaria, de propósito, com aquele tipo de gente, muito embora contestasse qualquer forma de preconceito (João, 4:7). E aquele ambiente tão falso era bastante estranho. Mas cumpria vontade paterna (Marcos, 11:13) à semelhança do que fizera há muitos anos quando, possesso, expulsou os vendilhões do templo (João, 2:14 a 17).
Agora estava ali. O vento frio de Brasília açoitava seus cabelos desgrenhados e sua pele escura ardia, pois estava vestido apenas com uma bata vermelha muito longa e uma capa azul sobre ela (Êxodo 22, 26-27).Uma das tiras da sola de couro que protegia seus pés magros e compridos se torara quando ele fugira com medo da repressão governamental aos manifestantes famintos que naqueles dias resolverem acampar de frente ao palácio do Planalto e reivindicar comida e respeito.

Também pudera. Estava magérrimo e comera naquela tarde afobada apenas uma banda de um de pão dormido de dois dias. A outra, dividiu com um mendigo com cara de “noiado” que ele encontrou aos pés da torre de TV digital no Eixo monumental (Mateus, 11:28-30), que, por sua vez, dividiu com Madalena, uma mocinha magrinha que se perdera na boca da fome pelo mundo afora e desde então morava na rua como se fosse uma perdida, mas não era. Fora achada por Jesus na rodoviária da cidade caída ao vento da desventura (João,20:18).

É claro que aquele pão seco não matou a fome de Jesus e tampouco a sede do mendigo, dado que a precisão do marginal, como assim fora chamado uma vez na tela da TV , era de outra natureza e desgraça, apesar do frio que não se desmanchava em água de beber ou de cheirar.

Jesus não se parecia com um deputado nem com esses homens brancos, de olhos azuis, cabelos lisos, escovados e quengo putrefato de moralidade falsa que chamam as mulheres de vadias e os homossexuais de nojentos e raça desgraçada. Jesus era o oposto. Sua pele tinha o mesmo tom da pele do povo, parecido com um daqueles apóstolos das antigas, ou com João Batista e sua sina era a de amparar os necessitados, porque assim estava escrito: Jesus trouxe Boas Novas de salvação aos pobres (Isaías, 61:1-3; Mateus, 11:4-5).

Tampouco Jesus se parecia com um homem de negócios, desses que financiam projetos autoritários de poder, visto que o céu do filho de Maria – Maria da Cruz, sua verdadeira mãe – não tinha nada a ver com o CEO dessas grandes empresas capitalistas que saltam de galho em galho em busca do dinheiro fácil subtraído institucionalmente do esforço das tíbias finas das canelas dos pobres, ou das suas mãos calejadas, feias, enrugadas e sebentas.

Não somente por isso. Outras razões existiam para Jesus se dizer de outro mundo (João, 18:36). O seu cheiro. Adocicado, pendido para o salgado, cheiro de peixe dos lagos periféricos ao Lago Paranoá (Lucas, 5:4,5), agridoce, a marca da humanidade, essa ventania em forma de carne e osso comida pelas razões de outra humanidade, um tipo de gente que se diz dona de tudo.

Agruras da infelicidade puxam outras infelicidades. Para completar a repulsa que os ricos e bem nascidos sentia, por ele, Jesus inventara de salpicar por trás das orelhas que eram compridas e bicudas, dois pingos de Acapulco, o perfume de Dimas. A mistura do suor de pobre com o perfume barato do bom ladrão (Lucas, 23:42) e a verdade que exalava da sua boca (João: 14, 6) fê-lo ser afugentado por um grupo de pastores empreendedores dos pés do Tabernáculo do Poder, a versão barata de templo de Salomão que ficava no Cruzeiro do Sul e não no luxo da capital paulista.
Mas, falam as más línguas que o real motivo da expulsão de Jesus do Tabernáculo do Poder foi outro. Filho de um carpinteiro que morava na comunidade Sol Nascente, ali pertinho da Praça dos Três poderes (Mateus, 13:55), Jesus era um indivíduo pobre (Mateus, 6:19;21), esquisito, eloquente, livre como uma pluma solta ao ar e muito sabido, daí que teria recusado a oferta feita por um sujeito muito bem vestido que consagrava urina de gato e envazava tudo em um tubinho de vidro colorido e o vendia a um preço injusto contra as dores da e alma e as impurezas do corpo. Jesus não quis comprar, pagou caro, expulso da comunidade.

Então Jesus se viu sem tudo e por isso pôs em ação o plano “B”. Aquele homem que falava sozinho, que praguejava contra a injustiça social, que andava com gente fedida e barulhenta havia se convertido em humanidade e experimentara, para melhor compreender o processo eleitoral do Brasil, uma candidatura a deputado distrital. Tudo ilusão. Décima quinta eleição de que participara sem ganhar nenhuma delas, eis que o discurso e a ação de bondade não se converteram em votos, principalmente junto àqueles que, pondo Deus acima de todos, enalteciam a família, a pátria e os bons costumes que, paradoxalmente, apoiavam sempre os arrogantes, prepotentes e canalhas.

Eis que das crateras abissais do inferno bradou o grito de Satanás (Lucas, 4,1, 13): Compre votos, empregue parentes e divida com eles os vencimentos, minta, agrida as pessoas quando elas contrapuserem alguma verdade e se for mulher ou gay aumente o tom e os insulte. Vire um mito.
Foi aí que Jesus, senhor da sua verdade, fitou os céus e de dentro das labaredas de um ígneo fogo azul, o Pai eterno se manifestou com as barbas crepitando de tanta raiva: pule fora, homem de Deus (João 1:49).
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