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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e Diretor do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Vou-me embora

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publicado em 11/05/2021 às 07h22
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Tatá Werneck pediu desculpas aos seguidores e anunciou que dará uma pausa em suas redes sociais. A Tatá foi ridicularizada porque apareceu no velório do amigo ator, com duas máscaras e um face shield. Apesar de, segundo ela, haver pessoas muito lindas e carinhosas, há as que ridicularizem de sua autoproteção, do seu modo e de da sua roupa.
Essa semana, pensei muito no sítio em que nasci. Subi nos pés de goiaba. Fiquei tomando vento debaixo das enormes mangueiras. Chupei manga tirada do pé. Colhi seriguelas vermelhinhas. Cortei cacho de banana e fiz lambedor do mangará. Andei por aqueles pequenos caminhos. Lavei os pés no riacho . Ouvi trovões e me arrepiei com os relâmpagos daquelas chuvas torrenciais, que demoravam no máximo uma hora.
Olhei a paisagem lá de cima da serra, que, dali, era como eu pudesse ver o mundo inteiro. E era. O único mundo que meus olhos conseguiam alcançar. Fora do alcance dos olhos, somente figuras e coisas imaginadas pelas leituras que se faziam. Real, só meu chão. Tudo mais, fantasia.
Acho que Tatá se sentiu assim. Ela, é mãe, mulher na família, o medo de se contaminar e contaminar os outros. Ela é pequenininha e frágil. E sabe que a outra mulher, a humorista, a atriz é o que revelam de si as câmaras. É a fantasia. O que cada um pensa dela. O que cada um espera e quer que ela seja.
Eu também sou um. Há um outro que querem que eu seja, que eu demonstre. E quantas vezes não sou? Tatá quer se isolar um pouco para poder ser. Eu viajei para o passado, na esperança de fugir dessas controvérsias, por vezes fundamentais à sociedade; por outras, tolas, ridículas.
Voltei para o lugar onde, no passado, fui, que era uma tentativa de voltar a ser, a me pegar de carne osso, a me aceitar, medroso, destemido, forte e enfraquecido. Sair um pouco desse universo fantasioso, que tenho muito a enfrentar e a resolver com minhas próprias letras e orações.
Falar nisso, eu também atendo, Tatá, com duas máscaras e um face shield. Porque a máscara descartável, torna um pouco melhor o uso da outra, supostamente melhor, e fica mais higiênico. O face shield é prático para passar álcool sempre que necessitar. Nada estranho. Nada demais. É o cuidado comigo e o respeito aos meus pacientes. Para que eles se sintam seguros, e saibam que ali há cuidados quanto a possíveis contaminações.
E quando tudo parecia que estivesse acalmando, vem os alagados, as favelas da maré, do jacarezinho, pelas antenas de TV. Muito lá, um pouco cá, vivemos entre a dor e a arte. “A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê”. Vou-me embora. Vou com Tatá me recolher.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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