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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Paciente ou paciente

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publicado em 02/03/2021 às 06h21
atualizado em 02/03/2021 às 05h00
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Uma peça publicitária de Portugal me chega às mãos, com um chamado em vermelho: “Campanha do Governo de Portugal. Fantástica”. Uma gravura dividida em dois momentos. De um lado, um jovem com fone de ouvido, deitado em um sofá, bem acostado a uma almofada , ouve música ou assiste alguma coisa em seu smartphone. Do outro, o mesmo jovem num leito de hospital, supostamente entubado, sedado, como deve ser quem se encontra em estado grave da doença. Acima, em tipo menor, escrito: COVID-19. Logo abaixo, em tipo bem maior, num fundo vermelho e letras brancas e garrafais: A DECISÃO é TUA. E, em seguida, um trocadilho bem em cima de cada gravura: SER PACIENTE [ no sentido de ter paciência] OU SER PACIENTE [ no sentido de doente].

Pois eu vou contrariar o pensamento dos publicitários. Em termos de convencimento, você não convence com ameaças. Quando eu suscito uma situação boa e, em seguida, mostro uma que ameaça, eu aciono os mecanismos de defesa do ego, notadamente a negação. Então, é como se a ameaça anulasse a primeira mensagem. Ao invés de mostrar duas situações, uma boa e outra ameaçadora, eu mostraria só a primeira.

Quando alguém me diz: – A escolha é sua, é claro que jamais vou admitir que estou escolhendo morrer ou matar meus familiares. Eu me defendo do conflito negando a mensagem, porque se aceitasse, acenderia uma culpa em mim por agir mal. A recepção da mensagem será, portanto, perturbada. Você já viu um fumante deixar de fumar porque tem, na carteira, figuras dizendo que fumar dá câncer? Que fumar dá impotência? Porque o cardiologista disse: se não parar de fumar vai morrer. Deixa não!

Sabe qual a campanha de maior peso contra o tabaco? Foi o ataque aos “valores” que as propagandas atribuíam ao cigarro. Fumar era chique. Uma mulher fumando era apresentada como tendo charme. A masculinidade era associada a algumas marcas de cigarro. A campanha, apenas espalhou: fumar é brega. Ou seja, não ameaçou quem fumava, nem desqualificou os fumantes, apenas atacou a ilusão de poder, de beleza que, supostamente, o ato de fumar fazia nascer naquele sujeito.

Aprendi com Veikko Tähkä, um psicanalista finlandês, estudioso dos fenômenos comunicacionais entre médico e paciente, que a cada notícia ruim, dada ao doente, uma afirmativa positiva deve ser engendrada, para diminuir o impacto negativo que a má notícia gerará no estado emocional dele. Se descubro algo que assusta, posso dizer: foi bom porque, agora, começaremos a tratar. Mais ou menos assim.

Do mesmo modo que funciona dizer uma má notícia e alguma coisa positiva para amenizar o choque; dizer que a vida é boa, mas que tu vais morrer se aglomerar; é possível que o segundo enunciado, amorteça o primeiro e crie confusão na cabeça do interlocutor. Portanto, na publicidade portuguesa, ao invés de mandar o indivíduo escolher entre ser paciente (para viver bem) ou Paciente (doente); eu diria apenas. “ Covid-19 (foto)- Seja paciente. Falta pouco para nos livrar”. Claro que a frase não seria essa exatamente. Mas, com certeza, as duas mensagens seriam positivas.

Ameaçar, funciona em idosos, que chegam de olhos esbugalhados, assombrados, ansiosos e deprimidos. Funciona, também, para pessoas vulneráveis, com comorbidades, que chegam ao nível máximo do desespero. Ou para outras que sofrem de formas leves de transtornos mentais, e entram em pânico, desenvolvem TOC, tornam-se fóbicos. Além de não assustar nosso alvo, os que aglomeram, adoecemos quem poderia aguardar socorro com um pouco mais de conforto, apesar de todas as ameaças reais que estamos a sofrer.

Vamos parar de confrontar os outros. Poderemos convencê-los com informação, educação e civilidade. Não ligam? Nem todos irão ligar. Eu, desde o início, atendi aos apelos. Continuo isolado. Nem por isso, vou achar que todos suportam fazer o mesmo. A quem puder, convencerei. Eu não me tornei uma autoridade porque acho ( ou estou) pensando de forma correta. Cada um sabe onde o sapato aperta. Calça o teu como exemplo, e espalha por aí, que há outros sapatos para serem experimentados. Isso é bem mais forte que ameaçar.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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