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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

A cadeira de Michel

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publicado em 02/02/2021 às 06h11
atualizado em 02/02/2021 às 03h53
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Li de 2 fôlegos “O Tribunal da Quinta-Feira”, (Companhia das Letras) de Michel Laub. Me parece que o autor já viveu a morte antes de viver a vida. Isso deve ser uma coisa fantástica. Ou todos nós já passamos ou ainda estamos nas mil e uma noite das redes sociais.

A novidade não é coisa de gênio. A inteligência e a beleza da escrita de Laub estão além de motivos de exaltação. Eu não conhecia esse escritor. Foi Jória Guerreiro que me apresentou, num jantar virtual.

No romance “O Tribunal da Quinta-Feira”, quem está no banco dos réus somos todos nós, além, claro, da personagem José Victor, um jovem publicitário, que vê sua vida passar na timeline dos outros, entre conversas eletrônicas com seu melhor amigo Walter, que são expostas de forma inescrupulosa. Ou teria outra palavra?

As mensagens vazadas focam no sexo, relacionamentos, traições e não pasmem, hábitos estomacais, em meio a ofensivas terrivelmente preconceituosas e humilhações. Tudo acontece na Estação do metrô Internet. Michel está sentado em sua cadeira e nos convida para assistir o julgamento de José Victor.

Parece (a)normal, para quem está do lado de fora do tribunal, atacar com veemência o publicitário misógino José Victor. A reflexão que Laub exibe é um linchamento virtual quando a proteção seria o anonimato.

Resumo da primeira pancada – “Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, entre meia dúzia de atos entre os milhares praticados ao longo de quarenta e três anos, para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis”.

O tribunal aí é a metáfora no qual o autor nos coloca diante de João Victor num quebra cabeça em que faltam e sobram peças. É o paradoxo dançando um tango com a loucura brasileira, mas poderia ser em Paris, já que rola tudo, menos a cena da margarina. Ou é da manteiga?

Passamos a vida a traduzir o que são relacionamentos, histórias, mentiras, prestigio e as reputações que necessariamente ou não, são destruídas num piscar de olho. E o contraditório?

Esqueçam a ficção. Os exemplos de pessoas reais que são atacadas por postagens de conteúdo ofensivo, não cabem na cadeira de Michel, que nesse livro retoma vários temas, como a AIDS e seus rastos.

Segunda pancada

Lembrei de Van Gogh numa postagem do médico Saulo Londres. Eu já tinha colocado o título do meu texto catando palavras no laptop do meu filho, já que meu computador estava no hospital.

Há quem diga, que no ventre da mãe, Van Gogh já sentia sua angústia. A obra do artista mostra vestígios, retratos, orelhas cortadas, tragédias e sensibilidades nos mais estranhos retratos da natureza, para não dizer que não falei dos girassóis. Van Gogh nunca morreu.

É sempre bom conter e organizar as nossas memórias. Não é fácil!

O que Michel Laub tem a ver com Van Gogh? A cadeira, certamente.

Kapetadas

1 – Eu soube que a felicidade pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la.
2 – Amor não é fogo que arde sem se ver, o nome disso é gastrite.
3 – Som na caixa – “A verdadeira natureza interior”, Gil e Dominguinhos

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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