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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Perdido em ilusões

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publicado em 01/12/2020 às 06h50
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Se fiquei triste com a partida de Dom Diego? Muito! Um argentino? Sim. Gosto desde o nome, que é o mesmo do Zorro, meu filme predileto de garoto. De garoto, não. Faz não muitos anos, descobri que, meia noite, passava o Zorro em um canal que não lembro mais. Pois eu não ia dormir sem assistir. Fazia-me bem. As mesmas cenas. Os mesmos episódios. O mesmo Sargento Garcia. O mesmo fim: “Z” fugindo em seu cavalo, depois de haver vencido adversários em luta de espada. Eu dormia criança outra vez. Isso tem explicação? Tem. É o meu coração. Ele guarda coisas que nunca se apagam.

Assim é o outro Diego. O jogador maravilhoso. O ator de grandes espetáculos de futebol. Nunca soube quem ele era. De onde vinha. Os jogadores, especialmente de futebol, mais ainda na América do Sul, têm histórias muito parecidas. De pobreza extrema. De sofrimentos. De carências e necessidades. Vindos de arredores. Todos se assemelham no sonho de jogar como profissional. Talvez, até lhes pareça mais fácil: Se jogo bem, serei famoso. O preço é alto, entretanto. Requer dedicação, preparo físico e técnico. Tudo, aparentemente, depende só de si. A gente sabe que não é bem assim. Dependerá de muitas coisas. De sorte. De talento. De oportunidades. De condições para mudar de cidade. De irreverência para passar num teste de um clube que os ensine a jogar. Muita luta. Muita humilhação.

Conheci o futebol de Diego na copa de 1986; que, antes, a gente não via os campeonatos do mundo pela televisão. E mesmo que passasse, eu não teria tempo de assisti-los. E futebol, afora suas polêmicas, me exercia um certo fascínio. Não torcia por times. Torci por pessoas. Por jogadores. Por alguns injustiçados. Torço pelo belo, pela plástica; se me permitirem, pela arte. E Diego em campo, como nosso Gaúcho, era menino fazendo arte. Com bola!

Os argentinos lhe devem uma copa. Contra a Inglaterra, saiu do meio do campo, driblou todos que estavam no caminho. Driblou o goleiro. Goooool! Vingou ali, todos os tiros que os ingleses deram no massacre das Malvinas. Foi ele quem ganhou a copa, e “los hermanos” sabem disso. Em sua homenagem, fundaram uma igreja em Rosário. O endeusaram como podiam. Os brasileiros se dividem. Como em tudo. Uns gostam porque Diego era comprometido com muitas causas. Sabidamente de esquerda, exibia o amigo Che tatuado em seu braço. Outros o rejeitam por isso. Ou por ser argentino. Ou por ter tido uma vida torta. Eu torcia por Diego. Por seus dribles. Por suas diabruras. Pelo seu lindo futebol. Os gestos dos argentinos, na despedida, mostram que eles o amavam e que ele, Diego, os unia, os fazia mais fortes. Era, para eles, sinônimo de força e vitórias.

Diego era um menino pobre. Que amava seu povo. Que no espaço da ilusão, entre o menino pobre e o astro do futebol, tentou preencher vazios com cocaína. E onde a cocaína não cabia, enchia com álcool. Como fez nosso “pernas tortas”, Garrincha. Diego arrefeceu tanto seu coração que o paralisou. Paralisou a si mesmo, e a si abateu. Sua maior luta foi consigo mesmo. Ensinou-nos, que dinheiro nenhum, nem fama, são capazes de preencher os espaços vazios do Ser. Nem de amortecer o que nos restou de ilusão. Para mim, você foi tudo pelos dribles e encantos que deixou. Um Dom Quixote, com seus moinhos de tentos. Um Dom Diego (foto). Para você, daqui do terreiro do samba, mando dizer, em recado eterno, que todo menino é um Rei. E que você, pobre menino Diego, para mim, também foi um Rei, embora perdido em ilusões. .

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