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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: marcos@piresbezerra.com.br

O fim da boate Passargada.

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publicado em 28/11/2020 às 08h34
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Como tudo se acaba, a Passargada também acabou, exatamente na data planejada e anunciada no dia da sua inauguração. Já dizia um grande amigo, ninguém pode ser feliz a vida toda; um dia vai casar. Mesmo sabendo que haveria um final com data marcada, aquele momento dilacerou minha alma sonhadora. Mal comparando, cada tábua que caía, doía no coração. Parti para outros caminhos sem sequer guardar uma única fotografia. Só ficaram as maravilhosas recordações das noites de festa e muito namoro.

Já antes da criação da Passargada era nossa intenção construir naquela área um edifício que depois de pronto perpetuou o nome da boate. Tanto que a genialidade do projeto não se resumiu à maravilhosa criação arquitetônica e aos recursos ainda inexistentes na região à época, como sua pista de dança de vidro montada sobre um lago e arrodeada de uma cachoeira ou seu teto que tinha uma parte de vidro e permitia vermos a lua e as estrelas. Tudo era removível e foi vendido aos pedaços. Ganhamos muita grana posteriormente na venda dos apartamentos do prédio que construímos, mas nada que cobrisse o prejuízo com os vales que os clientes deixaram sem pagar no caixa da Passargada.

Brincadeira!

Um sonho com data certa para iniciar e terminar. Um sonho que muitos sonhamos. Uma época de doce alegria e absoluta inexistência de qualquer violência.

Hoje, mais de 40 anos depois ainda sinto o cheiro do ambiente quando ouço as músicas que tocavam lá. O prazer de encontrar qualquer dos frequentadores e trocar figurinhas, recordando as cenas: “- Você lembra daquele dia que fulano tomou a namorada de sicrano? Eles casaram, não foi?”. Foi sim, mas depois separaram e ela voltou com o antigo namorado. São felizes até hoje. Ou então “- O que você fez depois da Passargada?”. Alisei. Passei muitos anos pobre e depois Deus me deu uma segunda oportunidade. A mais recorrente, entretanto, é a grande questão: “- Marcão, é verdade que você ainda guarda os vales que os maus pagadores assinavam nos fins das noites e jamais voltavam para pagar? É verdade que você vai publicar um livro com aqueles vales e os nomes dos pirangueiros?”.

Ora se eu não guardei sequer as fotos da boate nem a grana que ganhei lá, por que iria guardar vales? Guardei sim lembranças incríveis e a certeza de que vivi juntamente com meus amigos alguns dos melhores dias de nossas vidas. Afinal, aquela era a Passargada, sonhada por ninguém menos do que o genial Manuel Bandeira (foto) quando compôs o poema.

Ali os meus amigos eram amigos do rei.

Eu? Eu era o rei, né?

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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