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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

A sinfonia número K

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publicado em 24/10/2020 às 08h42
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Fui pedalar ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven, pensando na performance assombrosa do maestro Karajan (foto), regendo a Berlim Filarmônica. Como explicar hoje Beethoven às pessoas? Isto é sequer possível? A outra sacada é a “Carta à Amada Imortal”, despedida de uma das mulheres com quem B tivera contato nessa época, em Teblitz. Ela não foi enviada, mas existe como documento. A Nona é um parto.

Pertinho da Casa de ZéAmérico, uma bela mulher sem máscara, me reconheceu. Ouvi ela me chamar de Acácio: “Deixa de ser orgulhoso, Acácio”. Isso dela dizer orgulhoso, me lembrou gente besta. No osso, bati pino. Eu não sou Acácio, mas se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem não. Uma pessoa não é uma coisa só, em sua curta vida. Uma pessoa não é só o nome, nem a profissão.

Uma pessoa, eu, não é outra, nem para outra. O outro não é para uma pessoa. Uma pessoa é para si, para o mundo. Tentei voltar e dizer que a mulher que eu não sou Acácio, mas se acaso me quiseres… Não fui, a pandemia não deixou. Só ando com a “Camisinha-de-Marte”. Muita gente zarpou da pandemia. Salve-se quem puder!
Uma pessoa existe além da outra. Uma pessoa, o Pessoa, não é qualquer um. A minha sinfonia é um pote até que aqui de versos. Eu adorava tomar água de pote, até que chegou a Brastemp.

Uma pessoa nem tudo recebe, tal pessoa não é um vaso que tudo despeja. Ou despejam nele. Não um “vazo ruim”, que não se quebra. Uma pessoa existe. Resiste. Mesmo que não pense, mesmo se só sente, uma pessoa poderá ser maravilhosa…

Não há nada a se fazer quando tal pessoa que nos confunde no lugar de outra pessoa. Não há como aceitar ser outra pessoa. Longe é por dentro da gente, um lugar que não se chega, por mais que eu me alarde, por mais que azule, por mais que eu me avexe, mas não se avexe não que tudo é pra ontem.

Por mais que eu siga toda ciclovia, a “ciclovida” é um infinito indo e vindo, um espaço claro e escuro. Às vezes tem o escuro que assusta e tem a claridade que traz saúde, e outras vezes, a áspera luz que cega, quando a gente deixa de perguntar pra onde vai a estrada.

Encandeado, longe de muita gente, às vezes quem está do lado é bem ali, como a mulher que me confundiu com Acácio. Se pelo menos fosse o ocaso, ou por acaso, um caso, mas só ficou nisso. Antes tinha me chamado de orgulhoso. Uma linda mulher e um velho com cabelos nas narinas. Não faço favor nenhum em gostar da Nona Sinfonia de Beethoven.

Falar por falar, cumprimentar, alisar, olhar por cima do imediato e, evidentemente, ouvir a voz de alguém. Como essa mulher criou condições em mim que eu não possa resistir ou responder, que sim, eu sou Acácio e não estou fugindo dela? A paisagem do mar é uma aurora. Chego a ter delírios.

Nas veredas tenho visto coisa à toa, uns bocados, que não me deixam mentir. Como pode querer que a mulher que me chamou de Acácio, vá viver sem se confundir?

Pois ela mexeu na fogueira e eu ainda ardo e não tardo, sem nunca ser, o Seu Acácio. O que é uma coisa bela? A Nona de Beethoven.

Kapetadas
1 – Cedo. Verbo ou advérbio, cada um tem sua vez. Mas nunca é tarde.
2 – Nunca ninguém viu o futuro, nem ele topa acareação.
3 – Som na caixa: “E a linda mulata/ Com rendas do Alentejo/ De quem numa bravata/ Arrebato um beijo”, Chico Buarque.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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