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Médico. Psicoterapeuta. Doutor em Psiquiatria e coordenador do Curso de Medicina da UFPB. Contato: givaldomedeiros@uol.com.br

Violências ilógicas

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publicado em 25/08/2020 às 07h00
atualizado em 24/08/2020 às 16h33
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Não sei se vocês sabiam. Entre 6 e 10 anos, a criança não é capaz de compreender o significado das coisas ou dos fenômenos. Nessa idade , ainda não há um pensamento o “pensamento operatório formal,” que é lógico e capaz de fazer raciocínios dedutivos. A criança utiliza operações concretas de classificações, de números, mas não é capaz de utilizar suas capacidades cognitivas num sistema fundido único e total que lhe possibilite usar lógica, formular um pensamento dedutivo e chegar à conclusão. Ela não é capaz de compreender o sentido da morte, por exemplo. Não como nós a compreendemos.

Do mesmo modo, jamais compreenderá o sentido de um abuso sexual, embora possa ter alguma sensação de que aquilo está errado; mas não será capaz de , mesmo com ameaças agressor, romper aquela prisão, denunciá-la ou utilizar alguma estratégia para dela se livrar. Isso não é opinião. É o desenvolvimento psicológico do ser humano.

Diante disso, abominei tudo que ocorreu em volta de um caso recente. Para quem não sabe, o direito ao aborto está no código penal de 1940 e já foi utilizado milhares de vezes. Portanto, se uma criança, ou uma mulher adulta, foi violentada, ela tem o direito de realizar a retirada do embrião ou do feto decorrente do ato de violência. Há serviços públicos preparados para fazerem isso de forma correta e silenciosa.

Eu não saberia contar quantos nessa história violentaram a vítima. A começar por membros do Conselho Tutelar ou de quem recebeu a denúncia e deixou escapar. A lei protege, no sentido que não seja dito o nome do menor. No entanto, o que vocês acham, de divulgar o nome, a fotografia do violentador, tio, que mora numa pequena cidade? Seria algo difícil identificar de quem se trata? De saber sobre o tio, a avó, a mãe e, por aí, ter todos os dados sobre ela? Alguém foi violento ao vazar informações.

Aqueles que deram destaque ao fato, cometeram violência explícita. Principalmente, quando deram visibilidade a “opiniões” um tanto quanto idiotas. Violaram quando fizeram o maior festival, diante da impossibilidade técnica do hospital realizar o procedimento legal. Colocaram como uma recusa. Eu não acredito que nenhuma instituição de saúde se recuse a realizar procedimentos legais, seja de que natureza for. Ressalte-se aqui, que médicos, individualmente, pode fazê-lo, se achar que o procedimento não condiz com sua consciência. A instituição, não.

Grupos estúpidos que se colocaram diante do hospital que faria o procedimento, violentaram a menor. Eu entendo que se faz manifestação a favor ou contra uma lei que esteja em discussão. Mas, contra algo que é legal há oitenta anos? Não é em nome de Deus. Até movimentos feministas que, se estavam com toda a razão, não deveriam ter ido ocupar o lugar dos ignorantes. Fosse a uma delegacia denunciar a violência contra pacientes de um hospital.

Não vi lógica nos “protestos”. Para mim, deveria existir apenas o respeito ao posicionamento da justiça, a avaliação e decisões médicas, zelar pelo direito do anonimato da vítima e, principalmente, do seu bem-estar. Isso é apoiar. Berrar em redes sociais não tem mérito nenhum. E assim, mesmo aqueles que pensavam apoiar, cometeram violência. A tranquilidade, o apoio, o respeito que vítima e familiares precisam em momentos de sofrimento, foram atropelados por um monte de violências ilógicas, em nome da arrogância do que pensa cada um.

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