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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: kubipinheiro@yahoo.com.br

Sertão de não terminar

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publicado em 25/08/2020 às 07h00
atualizado em 25/08/2020 às 05h35
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Expectativa. Realidade. Vamos falar do que realmente interessa? Vamos falar daquela jovem ruiva com vestido de noite? Qual? De Modigliani? Não, ele era mais bonita ela, mas beleza não põe mais mesa. Ou beleza não se põe à mesa? Deixa que eu tomo conta da garrafa. Uma moça do litoral enlouqueceu e disse que roubaram sua garrafa de Dom Perignon. Não fui eu.

Vamos ao sertão? Quando eu era pequeno gostava de ir ao Bairro de São Sebastião olhar para Jesus. Eu queria vê-lo, tocá-lo. Ano após ano, tinha as missões de Frei Damião e, naquele tempo, as pessoas diziam que se furasse o Frei com uma agulha, não sairia sangue. Hosana nas Alturas.

Numa velocidade estonteante, quando era padre, o professor Antônio de Souza Sobrinho, nos contava histórias surreais, que previamente tratavam das boas vindas da cultura e do alojamento de conhecimentos no nosso cérebro. Era um homem incrível, que teve a coragem de largar a batina e adentrar o universo feminino. É natural que um padre sinta vontade casar e construir uma família. Jesus tinha seu bando.

Um dos lados da nave principal da Igreja São José (foto de Marconi Cruz), do sertão Jatobá, o que me chamava atenção, não era o sermão relâmpago de Padre Levy, mas o som do órgão (que não me lembro quem tocava), que enchia o templo de sons gregorianos.

Aquele som de alguma forma acelerava a frequência das batidas do meu coração vagabundo. Eu não vivo sem música. Eu adorava ver as garotas entrar na igreja dia de domingo à noite, cada um mais bela que a outra. Um baile perfumado.

Eu venho de um céu azul que povoava os dias da minha vida sertaneja. A lua mais bonita, quase uma mãe. Não era a Mama África de Chico César. O artista de Catolé é chato, se acha. Outro dia eu vi um um menino e um miojo triste.
Cenas fotografadas pelos meus olhos: Dona Zita numa calçada, Maria Bala na outra. Já perto da igreja, doutor Oséas, o médico que um dia fora atacado por Geraldim de Tia Jael.

Era um dia de feira e Geraldim adentrou um bar nas imediações da casa de Expedito Holanda e, com uma faca de mesa, tentou entrar para a história. Veio a cidade inteira olhar a cena, o padeiro, o coveiro carregando uma cruz, um burrito sem dono, manso e submisso, guiado pela preta Auri, que se mantinha de olhos arregalados. Veio Seu Moisés, Seu Papata, o delegado, meu Padim Fuenga, João Menino, meu pai Vicente e Tigido com flatulências trovoadas. Veio mais gente, a cambista Severina, Chica Duda. e nesse dia saiu faíscas dos paralelepípedos.

As palavras não são inocentes, sequer ditas da boca pra fora. Já não peço mais desculpa, mas toda noite peço a benção a São Francisco e adormeço com a oração de Santa Cecilia, a padroeira dos músicos. Consta que ao morrer Cecilia teria cantado a Deus.

As palavras trazem marteladas e, enquanto a canícula não chega, eu penso sempre que outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz, e não há como eu viver sem que me valham as palavras. Sejam as palavras de Sartre, Dostoievski ou de Vítor, meu filho, além dos Detalhes das canções de Roberto. Minha vontade é encher a boca do sertão de beijos.

Kapetadas
1 – Qual a pergunta filosófica que vocês acham define o século XXI pra mim é “Crédito ou Débito”?
2 – Eu nunca misturei alhos com bugalhos porque eu não sei o que é bugalhos.
3 – Som na caixa: “Quando eu voltei lá no sertão, eu quis mangar de Januário, com meu fole prateado”, Luiz Gonzaga

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