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Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. E-mail: colaco.martins@unifametro.edu.br

Dois pais e dois filhos

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publicado em 09/08/2020 às 08h00
atualizado em 07/08/2020 às 16h10
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Peço licença para exprimir algumas impressões de cunho particular. Assim procedo por entender que podem invocar sentimentos similares ou reflexões análogas no leitor.

Por ocasião do dia dos pais, visitam-me memórias do meu pai. Do profissional com pés deformados e dedos talhados como mármore, pelo uso religioso do sapato de bico fino italiano. As canelas, desguarnecidas de fios até onde alcançava a meia preta 3/4.

Seu peito, duas colinas que eu transmontava durante a curta sesta, com uma frota de pontuais carrinhos de ferro. Os tufos de cabelo do tórax, conveniente floresta e cenário dos mais inusitados enredos urdidos pela minha imaginação. Em que pese o incômodo, jamais me sonegou o conforto da sua respiração e a candura do seu olhar.

Nos finais de semana, ignorados pelo mundo, entretinham-nos o Ranger Tex e seu cavalo Dinamite. Nas férias, incumbia-me resumos de romances (“O Sineiro”, de Edgard Wallace, entre outros) tarefas que, a jusante, encorajaram-me a exercitar a escrita.

Quando olho para o meu filho, sou meu pai me admirando. Quando abraço o meu filho, sou meu pai me acolhendo. Quando brinco com meu filho, sou meu pai me descobrindo.

Fiel seguidor de Dale Carnegie. Brilhante e experimentado orador. Eloquente até no silêncio. No cotidiano, um homem lacônico, de hábitos comedidos e estilo frugal. Estoico, parece evitar distrações tão caras a nós terráqueos, como cinema, música, sushi, chocolate…

Como empreendedor, apraz-lhe fugir de feriados no Ceará para trabalhar na Paraíba e vice-versa. Acerta o alvo que ninguém enxerga, como é próprio dos visionários.

Na sua maturidade, conserva olhar contemplativo, a regar plantas e pensar na lógica aristotélica. Filosofa e alimenta galos-de-campina que frequentam sua varanda (tão ventrudos que ameaçam não voar).

No seu silêncio, aceitação e tolerância. Nas atitudes, o apoio tão incondicional que requer cautela, mas, sobretudo, inspira responsabilidade. Um motivador tão abnegado que enxerga genialidade e excelência nos mais comezinhos lampejos intelectuais que eu ouse ensaiar. Tamanho é o encorajamento, que sua opinião deve ser dosada, contemporizada, cotejada com o espírito crítico e detalhista da minha mãe, sob pena de eu me deixar enganar pelo excesso de corujismo. Meu eterno e incondicional incentivador.

Quantas demandas pueris, mimos e alfenins lhe apresentei, apenas para ser recebido com paciente, amorosa e cândida acolhida e, ao cabo, emergir altivo, aliviado e mais confiante.

O amor de Telêmaco pelo herói Ulisses. Da Bíblia, o amor do filho pródigo pelo seu pai. O enlutado amor de Hamlet pelo pai monarca. O meu amor pelo meu filho. Procurei na literatura e na memória um paradigma, uma inspiração. Mas a vida, eu descobri, é muito complexa e talvez… talvez me faltem inteligência e imaginação para decifrar essa pletora de sentimentos que se avultam com a simples menção do seu nome, tamanho é o meu amor e a minha admiração.

Rogo a Deus, com egoísmo de filho, que preserve meu pai comigo, livre-o das mazelas e ilumine o seu caminho. A todos os que são ou foram abençoados como eu, um feliz dia dos pais.

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