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Titular em Letras Clássicas, professor de Língua Latina, Literatura Latina e Literatura Grega da UFPB. Escritor, é membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: marquesjr45@hotmail.com

Ser doutor ou não ser doutor, eis a questão

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publicado em 29/06/2020 às 09h01
atualizado em 29/06/2020 às 06h33
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A vaidade sempre fala mais alto, ao ponto de as pessoas serem levadas a mentir sobre o que são ou o que têm. Numa época como a nossa, em que a informação está disponível e circula com grande facilidade, é, no mínimo, insensato, alguém dizer uma mentira e esperar que todos a aceitem sem discussão. Refiro-me, claro, à mais nova celeuma da internet: o mais novo nomeado para ocupar o Ministério da Educação tem doutorado ou não? Não que necessite desse grau para ser titular da pasta. Já tivemos ministro da educação sem doutorado, ministro da ciência e da tecnologia sem sequer graduação e até reitor em universidade federal sem o título de doutor. Mas nenhum mentiu sobre o fato ou deixou que a vaidade o fizesse abrir as penas multicoloridas da cauda.

Ser ministro ou não ser ministro não diz, necessariamente, da competência de ninguém. Trata-se de um cargo político, de confiança, cujos ocupantes, via de regra, revelam administrações pífias. Assim como ser doutor não é coisa de outro mundo e não dá competência a um professor. Quem era competente continuará a sê-lo e continuará a desenvolver o seu trabalho tendo como objetivo repartir os conhecimentos adquiridos, para a formação de novos pesquisadores e professores. Quem trabalhava de modo indecente, indigno e relapso continuará nessa pisada. Não será o doutorado que o fará mudar. Título só muda na acentuação da vaidade, nada mais. E no dinheiro que se recebe como retribuição pela titulação, não pelo que se faz na profissão…

O problema, no entanto, não é ser doutor ou não. O problema está na mentira. Já tivemos uma presidente que afirmou ter doutorado e foi pega na mentira. Também não é preciso ter doutorado para ser presidente. Novamente, o problema é alguém querer se passar pelo que não é, situação mais recorrente na política brasileira, sobretudo, porque o objetivo é demarcar uma zona que o diferencia dos demais. A universidade está cheia de gente assim, para quem o doutorado em lugar de ser uma consequência natural na carreira acadêmica, serve para a discriminação. Uma delas é exigir não dar aula na graduação, porque a partir de agora, com o nariz empinado, os olhos só enxergam as coisas superiores. Saudades do tempo em que um poeta como Castro Alves dizia:

“Eu que sou cego, – mas só peço luzes…

Que sou pequeno, – mas só fito os Andes…”

Castro Alves sabia de sua genialidade. Quem compõe um poema como o citado acima – “Quem dá aos pobres, empresta a Deus” – ou como “Boa-Noite”, “Navio Negreiro” ou todo um livro de qualidade excepcional como Os Escravos, antes dos 24 anos, idade com que morreu, sabe exatamente do que é capaz. Mas era capaz, porque entrevia sempre a necessidade de se superar, pedindo luzes, para ir além da cegueira da ignorância ou da prepotência; fitando os Andes, para agigantar a sua pequenez diante do conhecimento e da sabedoria. E não tinha doutorado. Sequer terminou o curso de Direito, empolgando-se mais com os braços de Eugênia Câmara do que com os maçudos compêndios da área legal, procurando abrigo nas leis do amor, assunto em que sua jurisprudência era inquestionável.

Não me desviei do assunto, caro leitor. O parágrafo anterior foi apenas um modo de dizer que cada um deve procurar descobrir a sua competência e exercê-la bem, com ou sem títulos e graus. Ter doutorado só é realmente relevante para quem se ocupa com o magistério. Para quem ocupa um cargo político, por eleição ou por indicação, ser ou não ser doutor não faz qualquer diferença. Diferença há quando se mente sobre isto.

Eis a questão.

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