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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: marcos@piresbezerra.com.br

Duas histórias

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publicado em 28/05/2020 às 10h20
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I

No sitio Arruda, localizado em uma cidade do sertão da Paraíba, morava um casal de velhos, ele Francisco e ela Eugênia. Ele era mentiroso que dava gosto. Um belo dia, um compadre do casal que havia ido morar em São Paulo, voltou para visitar parentes e amigos e chegou no sítio Arruda. Foi aquela festa, noticias dos parentes que ficaram em São Paulo, conversa boa, mas só o compadre de São Paulo falava. Francisco doido para falar também, mas sem espaço, até uma hora em que o compadre reparou numa espingarda pendurada na parede.

– Eita, compadre Francisco, que espingarda bonita.

– Pois é, essa é minha espingarda de caça. É da boa, lhe garanto. Não perco um tiro. Inda ontem de manhã, tava descendo aquele baixio do açude e de repente vi trinta e seis rolinhas voando. Lasquei um tiro e me diga mesmo, quantas rolinhas o compadre acha que eu matei?

– E eu sei lá, compadre, quantas rolinhas você matou com o tiro que deu?

– Pois eu matei as trinta e seis rolinhas com um tiro só.

Nesse momento, Dona Eugenia que entrava na sala com um bule de café para servir à visita completou:

– E o macaco, Chico?

Disse isso, deixou o bule de café na mesa e voltou para a cozinha.

De noitinha, quando o compadre já havia ido embora, Francisco procurou Eugênia, que estava no quintal e reclamou:

– Ô mulher, da próxima vez não se meta nas minhas histórias, por que você não imagina o trabalho que deu eu botar o macaco voando no meio das trinta e seis rolinhas.

II

Há em Patos um personagem conhecido como “Chico das preacas”. Dizem que ele é chegado a um dinheirinho emprestado; já pagar que é bom, é outra conversa. Pois esse tal Chico soube que um novo gerente havia assumido a agencia local do Banco do Brasil. Imediatamente pôs seu terno branco, chapéu, gravata vermelha, e subiu apressado a escada que dá acesso à gerencia do banco. Largo de gestos e bem falante, foi logo se apresentando.

– Boa tarde. Eu sou Francisco Martins, produtor rural, grande fazendeiro aqui em Patos. Como é mesmo o nome do senhor?

– Boa tarde, eu sou o novo gerente, meu nome é Toshio, sou filho de japoneses que emigraram para São Paulo.

Querendo agradar, Chico apontou para um retrato do Presidente Sarney (então Presidente da República) pendurado na parede e perguntou ao nissei:

– É seu parente? É a sua cara. Mas veja bem, eu vim aqui para fazer negócios com o Banco do Brasil. Aliás, já tenho conta aqui.

Enquanto o gerente pedia a ficha de Chico, tomaram um café pequeno e o “japa” foi desfiando seu rosário.

– Pois é, Seu Francisco, vim aqui para incrementar negócios; queremos emprestar dinheiro, financiar plantações, aquisição de gado, o que for necessário.

Chico animou-se e preparou o bote. Só que nesse momento chegou sua ficha e o gerente começou a examiná-la por baixo do birô enquanto Chico falava. As anotações eram todas em vermelho, avaliação super negativa. Para simplificar, o gerente disse a Chico:

– Sr. Francisco, quanto é que o senhor quer emprestado?

– Quanto é que o banco tem?

– Não, seu Francisco, não é assim, e mais ainda, devo avisar que o prazo do empréstimo é muito pequeno.

– Dá tempo de descer as escadas da agencia? Se der é comigo mesmo.

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